{"id":21571,"date":"2023-05-30T09:30:44","date_gmt":"2023-05-30T12:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/geartips.club\/blog\/?p=21571"},"modified":"2026-09-18T12:20:36","modified_gmt":"2026-09-18T15:20:36","slug":"autossuficiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/geartips.club\/blog\/autossuficiencia\/","title":{"rendered":"Autossufici\u00eancia &#8211; Pequeno Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico de Aventura"},"content":{"rendered":"<h3>Pequeno Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico de Aventura: Autossufici\u00eancia.<\/h3>\n<p>Come\u00e7ando pelos fil\u00f3sofos gregos cl\u00e1ssicos \u2014\u00a0em particular os estoicos, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%A9neca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">S\u00eaneca<\/a> e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Epiteto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Epiteto<\/a> e mais tarde o imperador romano <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Marco_Aur%C3%A9lio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marco Aur\u00e9lio<\/a> \u2014, existe nas civiliza\u00e7\u00f5es uma preocupa\u00e7\u00e3o central em formular c\u00f3digos pessoais de conduta \u00e9tica em harmonia com a natureza. Nessas formula\u00e7\u00f5es, a quest\u00e3o da autossufici\u00eancia sempre teve papel fundamental, mas ela n\u00e3o existe fora do contexto natural. O ser humano s\u00f3 alcan\u00e7ar\u00e1 seu potencial m\u00e1ximo inserido no meio de onde ele surgiu. Qualquer coisa fora isso \u00e9 artificial.<\/p>\n<p><strong>De l\u00e1 pra c\u00e1, passou muita \u00e1gua por baixo da ponte.<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, o distanciamento da natureza promovido por nossas sociedades, principal raz\u00e3o pra vis\u00edvel destrui\u00e7\u00e3o ambiental, deixou de ser uma discuss\u00e3o \u00e9tica e passou a ser um debate sobre a sobreviv\u00eancia da vida no planeta. N\u00f3s nos distanciamos tanto dos comportamentos \u00e9ticos estabelecidos pelos gregos antigos, em especial o princ\u00edpio b\u00e1sico de respeito por todas as formas de vida, que chego a pensar que precisamos dar v\u00e1rios passos pra tr\u00e1s, precisamos voltar \u00e0s nossas ra\u00edzes, se quisermos realmente enxergar uma solu\u00e7\u00e3o definitiva para a atual crise. Precisamos reestabelecer um c\u00f3digo pessoal de conduta que gere vida e n\u00e3o morte, que promova regenera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o destrui\u00e7\u00e3o, que aponte para um norte comum de irmandade coletiva e n\u00e3o de culto ao individualismo.<\/p>\n<p><strong>Palavras e conceitos complicados? D\u00e1 pra ilustrar com uma hist\u00f3ria&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Quando eu tinha talvez 16 anos de idade e cursava o primeiro colegial, hoje o primeiro ano do ensino m\u00e9dio (eu tinha repetido o s\u00e9timo ano do fundamental), e estudava pela primeira vez numa escola particular, o Mackenzie, em S\u00e3o Paulo, matei aula de matem\u00e1tica pra pensar na vida. Eu repetia os passos que me levaram a bombar a s\u00e9tima s\u00e9rie e que me fariam bombar tamb\u00e9m o primeiro colegial. O problema foi que, muito cedo, aprendi que a escola atrapalhava mais do que ajudava meu aprendizado.<\/p>\n<p>Descobri que havia uma palestra no grande a audit\u00f3rio do Mackenzie e que as portas n\u00e3o estavam trancadas. Eu gosto de aprender, o que \u00e9 diferente de estudar. Entrei pra investigar. A curiosidade sempre foi uma escolha pra mim. Sou curioso por convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um senhor falava sozinho, sentado numa cadeira com um microfone na m\u00e3o. Imediatamente reconheci a figura: era <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Orlando_Villas-B%C3%B4as\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Orlando Villas-B\u00f4as<\/a> (1914-2002), o grande indigenista brasileiro, antrop\u00f3logo, sertanista, escritor e indicado ao Pr\u00eamio Nobel da Paz, autor do famoso livro A <a href=\"https:\/\/www.kalapalo.com.br\/bibliot\/a-marcha-para-o-oeste\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MARCHA PARA O OESTE<\/a>, que inclusive virou um \u00f3timo filme. Ao lado do marechal Rondon, de Darcy Ribeiro e de Paulo Freire, Orlando era um dos her\u00f3is na minha casa. Minha m\u00e3e tinha livros desses ilustres brasileiros espalhados por todo lado.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21576\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/marcha-para-oeste.jpg\" alt=\"Livro Marcha para o Oeste\" width=\"855\" height=\"581\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/marcha-para-oeste.jpg 855w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/marcha-para-oeste-300x204.jpg 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/marcha-para-oeste-768x522.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 855px) 100vw, 855px\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21577\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/orlando_villas_boas_2.jpg\" alt=\"Orlando Villas-Boas\" width=\"794\" height=\"528\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/orlando_villas_boas_2.jpg 794w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/orlando_villas_boas_2-300x199.jpg 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/orlando_villas_boas_2-768x511.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 794px) 100vw, 794px\" \/><\/p>\n<p>Sentei na \u00faltima fileira da plateia, afinal eu era um penetra.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro de tudo o que Orlando disse, afinal faz muito tempo, mas lembro de duas hist\u00f3rias que ficaram gravadas na minha mente igual tatuagens. Na primeira, o paj\u00e9 branco contou que estava tomando banho no rio com o paj\u00e9 da aldeia e um monte de curumins (palavra em tupi para menino). Era fim do dia, hora de um dos banhos tradicionais que ind\u00edgenas tomam diariamente. Imaginei a cena como ilustra\u00e7\u00e3o de um dos muitos livros que eu j\u00e1 havia lido sobre a Amaz\u00f4nia: mata densa e diversa, calor \u00famido e intenso, \u00e1gua transparente e fria, cheiros de flores e da chuva que se aproxima. Minha imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 como um tique nervoso, incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Segundo Orlando, os curumins sa\u00edam da \u00e1gua a todo instante e corriam pra tr\u00e1s de um morrote, uma eleva\u00e7\u00e3o no relevo coberto de vegeta\u00e7\u00e3o mais baixa. Instantes depois eles voltavam e se atiravam no rio. Depois de algum tempo, Villas-B\u00f4as decidiu perguntar ao paj\u00e9 o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Os curumins v\u00e3o ali atr\u00e1s fazer xixi \u2014 explicou o sacerdote.<\/p>\n<p>N\u00e3o fez sentido na cabe\u00e7a do homem branco. Com tanta \u00e1gua no rio, tanto rio na mata, por que n\u00e3o fazer xixi ali mesmo em vez de sair para tr\u00e1s do morro? Foi o que perguntou Orlando ao chefe ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A pergunta caiu como uma pedra n\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2014 Fazer xixi na \u00e1gua? \u2014 indagou indignado o paj\u00e9. \u2014\u00a0Isso seria um enorme desrespeito!<\/p>\n<p>Acho que fiquei t\u00e3o surpreso ao ouvir essa hist\u00f3ria quanto Orlando deve ter ficado ao viv\u00ea-la. Cheguei a sentir a surpresa do palestrante. Quem ama ler e l\u00ea muito, como eu, acaba adquirindo a capacidade de se transportar para dentro de hist\u00f3rias lidas ou ouvidas.<\/p>\n<p>Villas-B\u00f4as explicou com essa hist\u00f3ria \u00e0 rapaziada do Mackenzie, \u00e0queles que haviam sido convidados pra sua palestra e para mim, o invasor de festa alheia, o profundo sentido de respeito e de sagrado para os ind\u00edgenas desde a mais tenra idade. Soou pra mim como uma verdade absoluta, algo de extrema l\u00f3gica ensinado pelas estrelas e pelo pr\u00f3prio sol. A certeza que corre com o vento. Fez todo sentido.<\/p>\n<p>A segunda hist\u00f3ria que ouvi do famoso explorador foi sobre uma m\u00e3e ind\u00edgena que moldava cuias de barro, enquanto seu filho, um beb\u00ea, destru\u00eda a produ\u00e7\u00e3o assim que ela acabava de moldar. Orlando passou muito tempo observando a situa\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e fazia uma cuia e a crian\u00e7a amassava. Incomodado, o indianista foi at\u00e9 a mulher e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Por que a senhora n\u00e3o ensina seu filho a n\u00e3o destro\u00e7ar as cuias? Assim seu trabalho n\u00e3o ser\u00e1 todo perdido.<\/p>\n<p>Ao que a ind\u00edgena contestou:<\/p>\n<p>\u2014 Cada um faz o que sabe. Eu fa\u00e7o as cuias, a crian\u00e7a desfaz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21578\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/indios.jpg\" alt=\"\u00cdndios\" width=\"800\" height=\"437\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/indios.jpg 800w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/indios-300x164.jpg 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/indios-768x420.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Outro baque para mim, talvez mais forte do que foi para o senhor l\u00e1 no palco quando ele viveu a hist\u00f3ria que contava. Para ele, j\u00e1 maduro e experiente, naquela fase da vida em que passamos experi\u00eancias aos menos vividos, o ensinamento da m\u00e3e ind\u00edgena provavelmente refor\u00e7ava conhecimentos j\u00e1 adquiridos. Para mim, era a primeira vez na vida que pap\u00e9is rigidamente estabelecidos eram questionados.<\/p>\n<p>Qual o papel da crian\u00e7a livre numa sociedade? Qual o papel da educa\u00e7\u00e3o? Era a produ\u00e7\u00e3o um valor universal e inquestion\u00e1vel? O principal motor da sociedade?<\/p>\n<p>Obviamente, esses questionamentos foram amadurecendo e ganhando peso com o tempo. N\u00e3o sei dizer com exatid\u00e3o como reagi, internamente, \u00e0 hist\u00f3ria ouvida. Sei que nunca me esqueci dela e do momento em que a ouvi. Sinal do quanto foi marcante.<\/p>\n<p>Hoje, maduro e experiente como Orlando Villa-B\u00f4as era quando nossos caminhos se cruzaram, consigo filosofar com esses momentos do meu passado. Posso resignificar pra mim mesmo o que ouvi e o que entendi. Consigo fazer a conex\u00e3o com outras experi\u00eancias que vivi e outros livros que li.<\/p>\n<p>O estadunidense Henry David Thoureau (1817-1862), ficou famoso como autor do livro WALDEN: OR LIFE IN THE WOODS, traduzido para o portugu\u00eas como WALDEN: OU A VIDA NOS BOSQUES, narra uma experi\u00eancia de autossufici\u00eancia no estado de Massachussetts, nos Estados Unidos. Thoureau construiu uma cabana de madeira \u00e0 margem de um lago chamado Walden e viveu ali, sozinho e independente, por mais de dois anos. Ele refletiu no per\u00edodo sobre o que \u00e9 essencial e o que \u00e9 sup\u00e9rfluo, sobre liberdade, sobre autossufici\u00eancia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21579\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/Walden.jpg\" alt=\"Livro Walden - Henry David Thoreau\" width=\"474\" height=\"722\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/Walden.jpg 474w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/Walden-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 474px) 100vw, 474px\" \/><\/p>\n<p>Mais recentemente, o autor tamb\u00e9m estadunidense Jon Krakaeur escreveu o best-seller INTO THE WILD, traduzido para o portugu\u00eas como NA NATUREZA SELVAGEM, que gerou o muito conhecido filme hom\u00f4nimo, reverenciado por n\u00f3s aventureiros. Existe uma linha direta entre S\u00eaneca, Marco Aur\u00e9lio, Thoreau, Villas-B\u00f4as e Krakauer, com diversas esta\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias, todas ligando a humanidade com a ideia de autossufici\u00eancia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21581\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-2.webp\" alt=\"Filme Na Natureza Selvagem - Into the Wild\" width=\"855\" height=\"571\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-2.webp 855w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-2-300x200.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-2-768x513.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 855px) 100vw, 855px\" \/><\/p>\n<p>Imagino que muitos dos leitores desse meu artigo j\u00e1 assistiram ao filme NA NATUREZA SELVAGEM (https:\/\/www.kalapalo.com.br\/bibliot\/na-natureza-selvagem-o-filme\/), lan\u00e7ado em 2007 e dirigido por Sean Penn. Quem n\u00e3o ainda n\u00e3o viu, eu recomendo. Assim como recomendo os livros que citei aqui. No filme (e obviamente no livro) o protagonista foge da sociedade e vai para o Alasca pra viver uma grande aventura. Sua jornada, cruzando os Estados Unidos, \u00e9 uma grande prepara\u00e7\u00e3o para a experi\u00eancia m\u00e1xima de autossufici\u00eancia na \u201c\u00daltima Fronteira\u201d, como o estado do Alasca \u00e9 conhecido nos EUA.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21582\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-1.webp\" alt=\"Filme Na Natureza Selvagem - Into the Wild\" width=\"855\" height=\"569\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-1.webp 855w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-1-300x200.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/05\/filme-into-the-wild-1-768x511.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 855px) 100vw, 855px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o vou dar spoiler.<\/p>\n<p>Esse questionamento sobre autossufici\u00eancia, sobre ser totalmente livre e independente, \u00e9 uma constante na cultura outdoor estadunidense, a come\u00e7ar dos pioneiros, passando por Thoreau, Emerson, Muir e outros. No livro e no filme NA NATUREZA SELVAGEM h\u00e1 v\u00e1rias refer\u00eancias a esses e outros autores. As obras convidam \u00e0 reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o a minha&#8230;<\/p>\n<p>O conceito de autossufici\u00eancia, na aventura, n\u00e3o \u00e9 individualismo (queremos tamb\u00e9m viver em comunidade), n\u00e3o \u00e9 sobrevivencialismo (n\u00e3o basta sobreviver, queremos viver plenamente), n\u00e3o \u00e9 ego\u00edsmo (n\u00e3o nos colocamos como mais importantes), n\u00e3o \u00e9 consumismo (chamamos isso de turismo inconsciente). O que seria ent\u00e3o? Penso que est\u00e1 mais relacionado com o profundo respeito \u00e0 natureza demonstrado pelos curumins da hist\u00f3ria que Orlando Villas-B\u00f4as contou. Est\u00e1 presente no compromisso de Thoureau, ao abandonar o conforto da vida urbana pela dureza de construir a pr\u00f3pria casa e plantar a pr\u00f3pria comida. Est\u00e1 vivo nas discuss\u00f5es dos fil\u00f3sofos cl\u00e1ssicos gregos quando pregam o potencial humano, realizado apenas em harmonia com o meio natural. Est\u00e1 escancarado na hist\u00f3ria do protagonista Alexander Supertramp, o anti-her\u00f3i do livro e do filme NA NATUREZA SELVAGEM, que arrisca tudo, inclusive e especialmente a pr\u00f3pria vida, pra viver uma experi\u00eancia de imers\u00e3o na natureza de forma integral e harmoniosa. O mergulho definitivo.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria da m\u00e3e e da crian\u00e7a resolutas, ind\u00edgenas vivendo plenamente cada um seu papel, sem censura a n\u00e3o ser pelo olhar do homem branco, est\u00e1 posta uma discuss\u00e3o fundamental. Qual o papel do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos saud\u00e1veis e integrados socialmente? Integrados inclusive e especialmente com a natureza?<\/p>\n<p>Nossa sociedade, por seu car\u00e1ter capitalista e produtivista, supervaloriza a fun\u00e7\u00e3o do trabalho. Quando nos apresentamos ou somos apresentados a pessoas, logo informamos ou somos indagamos sobre o que fazemos. Nossas profiss\u00f5es ou trabalhos. O trabalho nos define. Por isso soa t\u00e3o absurdo que a crian\u00e7a ind\u00edgena destrua o trabalho da m\u00e3e. O beb\u00ea destr\u00f3i a pr\u00f3pria m\u00e3e.<\/p>\n<p>Na aventura temos a oportunidade de conviver, moment\u00e2nea e circunstancialmente, com elementos da natureza preservada. Vamos a lugares onde seres humanos n\u00e3o habitam, onde nossa passagem s\u00f3 \u00e9 permita como visitantes passageiros. Passamos calor e frio, tomamos chuva, viramos n\u00f4mades,<br \/>\nabandonamos voluntariamente conforto e seguran\u00e7a. Temos a chance de redimensionar nossa exist\u00eancia distantes dos objetos que comp\u00f5em nossas vidas urbanas. \u00c9 comum sentir al\u00edvio, como se o peso do excesso de bagagem que carregamos ca\u00edsse por terra. A vida fica mais simples. Nessa simplicidade nos sentimos mais livres, mais independentes e pasmem&#8230; Autossuficientes!<\/p>\n<p>No final, penso que brincamos de ser ind\u00edgenas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pequeno Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico de Aventura: Autossufici\u00eancia. Come\u00e7ando pelos fil\u00f3sofos gregos cl\u00e1ssicos \u2014\u00a0em particular os estoicos, S\u00eaneca e Epiteto e mais tarde o imperador romano Marco Aur\u00e9lio \u2014, existe nas civiliza\u00e7\u00f5es uma preocupa\u00e7\u00e3o central em formular c\u00f3digos pessoais de conduta \u00e9tica em harmonia com a natureza. 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