{"id":21855,"date":"2023-06-22T10:29:04","date_gmt":"2023-06-22T13:29:04","guid":{"rendered":"https:\/\/geartips.club\/blog\/?p=21855"},"modified":"2023-06-22T10:44:51","modified_gmt":"2023-06-22T13:44:51","slug":"como-comecei-correr-ultramaratonas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/geartips.club\/blog\/como-comecei-correr-ultramaratonas\/","title":{"rendered":"Como eu comecei a correr Ultramaratonas?"},"content":{"rendered":"<p>Venho correndo Ultramaratonas desde 2007. Desde l\u00e1, foram cerca de 6000 km em provas e mais uns tantos correndo e treinando por a\u00ed. Na verdade, acho que comecei mesmo em 2003, com as Corridas de Aventura. Foi quando descobri que gostava das provas longas. Muito longas!<\/p>\n<p>No final de 2006, meu amigo Adriano Seabra me perguntou se eu gostaria de fazer apoio em uma prova que ele tinha se escrito. Perguntei se eu n\u00e3o podia participar. Me respondeu que deveria mandar o curr\u00edculo esportivo.<\/p>\n<p>Pensei que se o Adriano, com todo o hist\u00f3rico dele em Triathlon e outras provas ainda n\u00e3o tinha sido aceito, eu poderia enviar meu curr\u00edculo por brincadeira\u2026 Foi o que fiz.<\/p>\n<p>Passado um tempinho, chega um e-mail do Mario Lacerda, diretor da prova, me apresentando e terminando o texto com &#8220;BOA PROVA MAURO&#8221;. Como assim?! Imediatamente liguei para o Adriano pedindo para ele checar as mensagens dele pois eu achava que tinha sido aceito:<\/p>\n<p>    &#8211; \u00c9 Mauro\u2026 Voc\u00ea foi aceito!<br \/>\n    &#8211; Caracas Adriano. E agora???<br \/>\n    &#8211; U\u00e9\u2026 Agora voc\u00ea vai correr.<\/p>\n<h2>Hora de me preparar para minha primeira ultramaratona<\/h2>\n<p>A partir da\u00ed fui me inteirar para ver detalhes da prova que tinha me inscrito. Brazil135. 135 milhas. Uma ultramaratona com um percurso de 217 km pela Serra da Mantiqueira, no pior trecho do Caminho da F\u00e9, equivalendo a subir e descer o Everest, em at\u00e9 60h (depois diminuiu para 48h).\u00a0<\/p>\n<p>Essa era a &#8220;roubada&#8221; que eu tinha me metido. As pessoas diziam que era uma loucura, que era imposs\u00edvel, etc.\u00a0Minha resposta era que eu j\u00e1 tinha feito todos os c\u00e1lculos e daria tudo certo. Na minha cabe\u00e7a, deveria fazer 100 km a cada 24h e ainda me sobrariam 12h para fazer os ajustes de alimenta\u00e7\u00e3o, sono e percorrer os 17 km restantes.\u00a0<\/p>\n<p>Na primeira edi\u00e7\u00e3o da BR, fomos 20 atletas selecionados.\u00a0L\u00e1 fui eu para \u00c1guas da Prata, local da largada, com minha equipe de apoio, formada pelos meus amigos Henrique Mom\u00f4 e Marcel\u00e3o.\u00a0Mom\u00f4 estudou comigo no Segundo Grau e Marcel\u00e3o tamb\u00e9m fazia Corridas de Aventura.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nossa bagagem em provas de Aventura me ajudou muito no planejamento, organiza\u00e7\u00e3o e log\u00edstica.\u00a0Todas as minhas coisas ficavam organizadas em caixas tipo containers pl\u00e1sticos. Um para roupas e equipamentos e outra para alimenta\u00e7\u00e3o. Tudo separado em sacos para facilitar. Por exemplo, as meias ficavam em um saco, primeiros socorros em outro, lanternas e pilhas em outro, etc.\u00a0A cada parada, as duas caixas eram colocadas na minha frente e s\u00f3 eu mexia nelas. Assim sabia direitinho onde estava cada coisa.<\/p>\n<p>Finalmente, l\u00e1 fui eu para a largada. Tinham corredores conhecidos das Ultramaratonas, como o Manoel Mendes, Sergio Cordeiro e Valmir Nunes.<\/p>\n<p>Eu esperava que ap\u00f3s o sinal de largada as pessoas sairiam correndo. Mas, ao inv\u00e9s disso, partimos em uma caminhada geri\u00e1trica na orla \ud83d\ude02.<\/p>\n<p>Todos iam conversando, falando sobre outras provas. Como eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m e nunca tinha participado de uma Ultramaratona, fiquei meio deslocado, acompanhando a galera. Foi quando ouvi algu\u00e9m comentando que provas como essa s\u00f3 come\u00e7am no Km 180!!! Pensei comigo:<\/p>\n<p>    &#8211; Meu Deus!!! E o que eu vou fazer at\u00e9 l\u00e1?! Acho que \u00e9 melhor eu come\u00e7ar a correr!<\/p>\n<p>Foi o que fiz. Me sentia muito bem e corria sem parar. E nas primeiras 24h, ao inv\u00e9s daqueles 100 km planejados, eu fiz cerca de 170 km e estava em quarto lugar na prova.<\/p>\n<p>No Km 180, onde segundo aquele cara, a prova come\u00e7ava, meu corpo implodiu. Meus tornozelos incharam muito e fiz tendinite neles dois. Era uma tendinite cl\u00e1ssica conhecida como corda de viol\u00e3o, pois conforme voc\u00ea se movimenta faz um rangido como quando passamos a unha em uma corda de viol\u00e3o. Tamb\u00e9m apareceu um calombo na minha canela esquerda que eu achava que poderia ser uma fratura por stress.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia mais caminhar. Minha velocidade de deslocamento passou a 2 km\/h. Minha sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que as lesmas do caminho me ultrapassavam.<\/p>\n<p>Manoel Mendes vinha passando por mim, parou e perguntou o que tinha acontecido. Expliquei e ele me perguntou o que N\u00d3S ir\u00edamos fazer. Como assim n\u00f3s??? Respondi que eu iria continuar me arrastando e ele deveria tentar vencer a prova. Manoel me respondeu que n\u00e3o poderia me deixar sozinho naquela situa\u00e7\u00e3o. Insisti que estava tudo bem e ele seguiu em frente.<\/p>\n<p>Depois passou o Sergio Cordeiro e a cena foi parecida. Ele me perguntou se eu iria continuar. Eu disse que sim. Sergio disse ent\u00e3o que estaria me esperando na linha de chegada. E foi embora. Marcel\u00e3o e Mom\u00f4 sugeriram que eu abandonasse a corrida, pois n\u00e3o fazia sentido continuar com tanta dor. Argumentei com eles que apesar de toda a dor, eu estava me divertindo e desfrutando aquele momento.<\/p>\n<p>Na verdade, eu estava descobrindo um esporte diferente, que apesar de ser individual, os competidores de ultramaratonas (e suas equipes de apoio) se ajudavam e davam for\u00e7a para os demais atletas. Isso era completamente diferente de tudo que eu j\u00e1 havia vivenciado em minha vida esportiva.<\/p>\n<p>Segui em frente da forma que podia. Na BR, as ladeiras s\u00e3o infinitas. Por causa das les\u00f5es, n\u00e3o conseguia mais descer. N\u00e3o sei como, mas descobri que era poss\u00edvel descer de costas.\u00a0Ent\u00e3o, eu parava no in\u00edcio de cada ladeira, virava de costas e descia. Engra\u00e7ado que depois da prova saiu uma mat\u00e9ria em uma revista dizendo que &#8220;Mauro desenvolveu a t\u00e9cnica de descida de costas&#8221;. S\u00f3 rindo mesmo\u2026<\/p>\n<p>Como meu deslocamento estava muito lento, tinha a preocupa\u00e7\u00e3o em terminar a prova no tempo limite. Por isso, segui praticamente sem parar para dormir.\u00a0Com isso surgiu mais um problema: priva\u00e7\u00e3o de sono. A priva\u00e7\u00e3o de sono prejudica sua capacidade decis\u00f3ria, al\u00e9m de criar alucina\u00e7\u00f5es. Tive algumas alucina\u00e7\u00f5es divertidas, como ver elefantes e uma senhorinha que me acompanhava e sorria para mim.<\/p>\n<p>Tinha medo de adormecer e cair no caminho, pois podia me levantar e seguir na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da que deveria ir. Para resolver esse problema, tra\u00e7ava micro objetivos para percorrer. Por exemplo, mirava em uma \u00e1rvore que estava muito pr\u00f3xima e ia at\u00e9 ela. Dali, achava algum outro marco e continuava.<\/p>\n<p>Finalmente, me aproximava do final. O Rodrigo Cerqueira, da organiza\u00e7\u00e3o passou por mim para ver como eu estava e foi para a cidade de Parais\u00f3polis, local da chegada. Ele avisou ao Sergio Cordeiro que eu estava chegando. O Sergio convocou os outros corredores para irem me aguardar na linha de chegada e foi com o Marcel\u00e3o me encontrar na trilha.<\/p>\n<p>Que alegria v\u00ea-los vindo em minha dire\u00e7\u00e3o. Me acompanharam at\u00e9 cruzar a faixa.<\/p>\n<p>Quanta emo\u00e7\u00e3o!!! Emo\u00e7\u00e3o maior ainda quando vi o Manoel Mendes chorando copiosamente vendo minha chegada! Essa experi\u00eancia foi t\u00e3o transformadora que resolvi seguir correndo Ultramaratonas.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/finalista-ultramaratona-brazil135-mauro-chasilew.webp\" alt=\"Ultramaratona Brazil135 - Mauro Chasilew\" width=\"1000\" height=\"660\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21865\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/finalista-ultramaratona-brazil135-mauro-chasilew.webp 1000w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/finalista-ultramaratona-brazil135-mauro-chasilew-300x198.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/finalista-ultramaratona-brazil135-mauro-chasilew-768x507.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><br \/>\n<span class=\"aligncenter\">Concluindo mais uma edi\u00e7\u00e3o da ultra Brazil135<\/span><\/p>\n<p>Descobri que essas corridas s\u00e3o verdadeiras travessias internas e externas. Que \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar muitos paralelos entre as viv\u00eancias nas provas e nossos cotidianos pessoais e profissionais. A partir da\u00ed, tive a oportunidade de correr muitas outras ultramaratonas, como a tem\u00edvel Badwater no Vale da Morte na Calif\u00f3rnia, Jungle Marathon na Floresta Amaz\u00f4nica, Mt. Gaoligong na China, Mountain to Valley em Israel, PT281+ em Portugal e recentemente, os <a href=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/review-mochila-deuter-ascender-pt1001km\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1001 km da PT1001, percorrendo Portugal de norte a sul em 14 dias<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/mauro-chasilew-ultramaratona-pt-1001-chegada.webp\" alt=\"Mauro Chasilew cruzando a linha de chegada da Ultramaratona PT1001\" width=\"1000\" height=\"666\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21863\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/mauro-chasilew-ultramaratona-pt-1001-chegada.webp 1000w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/mauro-chasilew-ultramaratona-pt-1001-chegada-300x200.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/06\/mauro-chasilew-ultramaratona-pt-1001-chegada-768x511.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><br \/>\n<span class=\"aligncenter\">Cruzando a linha de chegada da ultramaratona PT1001, em Portugal<\/span><\/p>\n<p>E assim vou seguindo meu Caminho nas Ultramaratonas, procurando provas in\u00e9ditas, em lugares ermos, com paisagens deslumbrantes ou historicamente interessantes.<\/p>\n<p>Termino esse nosso primeiro encontro com uma frase da Badwater:<\/p>\n<p><strong>&#8220;ORDINARY PEOPLE DOING EXTRAORDINARY THINGS&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Esses somos todos n\u00f3s. <strong>&#8220;Pessoas comuns fazendo coisas extraordin\u00e1rias&#8221;!<\/strong><\/p>\n<p>Abra\u00e7os e bons ventos,<br \/>\nMauro Chasilew (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/maurochasilew\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@maurochasilew<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Venho correndo Ultramaratonas desde 2007. 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