{"id":22309,"date":"2023-08-28T10:09:47","date_gmt":"2023-08-28T13:09:47","guid":{"rendered":"https:\/\/geartips.club\/blog\/?p=22309"},"modified":"2026-09-18T12:17:20","modified_gmt":"2026-09-18T15:17:20","slug":"mato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/geartips.club\/blog\/mato\/","title":{"rendered":"Mato &#8211; Pequeno Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico de Aventura"},"content":{"rendered":"<h2>Pequeno Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico de Aventura: Mato<\/h2>\n<p>No Brasil quando algu\u00e9m diz &#8220;mato&#8221; est\u00e1 se referindo \u00e0 natureza sem valor, sem utilidade, sem import\u00e2ncia. \u00c9 como se a vegeta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser comida ou comercializada n\u00e3o valesse nada. Por isso, durante s\u00e9culos, grandes \u00e1reas naturais como a Floresta Amaz\u00f4nica, Cerrado, Pantanal, Mata Atl\u00e2ntica e Caatinga, foram vistas e tratadas como obst\u00e1culos ao nosso desenvolvimento. Pedras no caminho. Uma cultura que, infelizmente, n\u00e3o superamos. <\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/mato-foto-taisa-maar.webp\" alt=\"Mato. Foto: Ta\u00edsa Maar\" width=\"1024\" height=\"683\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22312\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/mato-foto-taisa-maar.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/mato-foto-taisa-maar-300x200.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/mato-foto-taisa-maar-768x512.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><br \/>\n<span class=\"aligncenter\">Mato. Foto: Ta\u00edsa Maar<\/span><\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos no Brasil v\u00e1rios ciclos agr\u00edcolas. Momentos hist\u00f3ricos em que nossa economia, sempre de voca\u00e7\u00e3o extrativista e de monocultura, fica totalmente monotem\u00e1tica e acaba em fal\u00eancia. Ciclo da borracha, ciclo do cacau, ciclo do a\u00e7\u00facar, ciclo do caf\u00e9 e o atual ciclo da soja e do gado. Todos exemplos de retumbantes fracassos, porque, como se dizia antigamente &#8220;n\u00e3o se deve colocar todos os ovos numa \u00fanica cesta&#8221;&#8230; A cesta cai e v\u00e3o-se os ovos! <\/p>\n<p>&#8220;Mato&#8221; tem conota\u00e7\u00e3o pejorativa. O que significa dizer que a pr\u00f3pria natureza intocada \u00e9 negativa. O que implica ainda em dizer que quem vive no mato \u00e9 inferior, \u00e9 inculto, \u00e9 ignorante, n\u00e3o vale nada. Por isso nunca tivemos, at\u00e9 hoje, pol\u00edtica ind\u00edgena que fosse realmente respeitosa e inclusiva. Ind\u00edgenas s\u00e3o aqueles que vivem no &#8220;mato&#8221;. <\/p>\n<p>Mas foi exatamente no &#8220;mato&#8221; que tive algumas das experi\u00eancias mais reveladoras e transformadoras da vida! Como um dos primeiros acampamentos selvagens e autossuficientes que fiz, quando tinha 16 anos de idade, nos idos de 1978&#8230; Outros tempos.<\/p>\n<p>Eu frequentava um clube esportivo no centro de S\u00e3o Paulo, a ACM (Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Mo\u00e7os, a famosa YMCA na vers\u00e3o original, em ingl\u00eas), onde havia tamb\u00e9m um grupo de acampamento. Fizemos dois ou tr\u00eas acampamentos em \u00e1reas com estrutura de banheiro e refeit\u00f3rio acompanhados de monitores adultos, da\u00ed decidimos voar com nossas pr\u00f3prias asas. <\/p>\n<p>Juntamos seis aventureiros. Eu era o segundo mais velho com 16 anos de idade. O mais velho tinha 17 anos e o mais novo tinha 10 anos, acompanhado da irm\u00e3 mais velha, de 14 anos. Decidimos, n\u00e3o lembro porque, fazer uma travessia a p\u00e9 de Peru\u00edbe a Iguape pelas praias do litoral sul paulista, cruzando a Jur\u00e9ia \u2014 uma praia, na \u00e9poca, completamente vazia e isolada. <\/p>\n<p>Nossas barracas eram grandes bangal\u00f4s com estrutura de ferro pesad\u00edssima. Nossas mochilas eram sacos de lona grossa com al\u00e7as. Ningu\u00e9m tinha roupa imperme\u00e1vel, us\u00e1vamos grandes sacos pretos de lixo com buracos pra cabe\u00e7a e para os bra\u00e7os, amarrados na cintura por um cinto. Quando chovia, fic\u00e1vamos parecendo um grupo de beatas de luto, os vestidos de alguns chegando na altura dos tornozelos. Um chap\u00e9u na cabe\u00e7a, \u00e0s vezes de palha, completava o modelito. <\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca n\u00e3o havia tanta viol\u00eancia, ou talvez a viol\u00eancia fosse de outra esp\u00e9cie. N\u00e3o se falava, por exemplo, em sequestro. Todos n\u00f3s, menores de idade, t\u00ednhamos autoriza\u00e7\u00f5es registradas em cart\u00f3rio que permitia que viaj\u00e1ssemos desacompanhados de adultos em \u00f4nibus coletivos. Obviamente, a comunica\u00e7\u00e3o era prec\u00e1ria e dependia de fichas telef\u00f4nicas, \u00fateis apenas quando encontr\u00e1vamos um orelh\u00e3o, um telefone p\u00fablico, que funcionasse. Lembro que informei \u00e0 minha m\u00e3e que iria acampar com amigos no feriado e ela nem sequer perguntou pra onde n\u00f3s \u00edamos. Realmente, n\u00e3o importava. Pare ela, n\u00f3s \u00edamos para o &#8220;mato&#8221; e &#8220;mato&#8221; \u00e9 tudo igual. <\/p>\n<p>Era ver\u00e3o, n\u00e3o lembro o m\u00eas. Choveu. <\/p>\n<p>Fizemos a travessia, que hoje mesmo calculei no Google Earth como tendo apenas 78 km de extens\u00e3o, em quatro dias. Erramos no c\u00e1lculo e levamos comida pra apenas dois dias. Na verdade, n\u00e3o lembro direito como isso aconteceu em detalhes, \u00e9 poss\u00edvel que tenhamos levado comida suficiente, mas comemos feito glut\u00f5es no primeiro dia e, quando fizemos o levantamento da dispensa, t\u00ednhamos consumido a metade de todo o suprimento depois do primeiro acampamento. Acho, inclusive, que posso ter sido um dos principais respons\u00e1veis pela esb\u00f3rnia da comilan\u00e7a. Aos 16 anos, em fase de crescimento, n\u00e3o tem comida que chegue. <\/p>\n<p>Numa das noites, montamos as barracas num corredor de areia e pedrinhas perpendicular \u00e0 praia, protegidos do vento pela mata fechada. O terreno era inclinado, mas o solo era confort\u00e1vel e f\u00e1cil de erguer nossos pesados bangal\u00f4s. Era o leito seco de um riacho sazonal. Com a chuva torrencial de ver\u00e3o que caiu \u00e0 noite, encheu rapidamente. Acordamos com as barracas inundadas por um palmo d\u2019\u00e1gua. Acho que s\u00f3 eu e mais um t\u00ednhamos sacos de dormir, forrados de algod\u00e3o ou estopa. O restante dormia em cobertores. Molhou tudo. Passamos a manh\u00e3 seguinte tentando secar as tralhas ao sol. <\/p>\n<p>Racionamos a comida pra durar tr\u00eas dias. Num momento de fome extrema, depois de um caf\u00e9 da manh\u00e3 de bolacha salgada e leite condensado, derrubamos uma palmeira pra comer palmito jurema. Crime ambiental inafian\u00e7\u00e1vel. T\u00ednhamos um grande fac\u00e3o. Garotos da cidade grande n\u00e3o sabem que palmito deve ser cozido, assado ou grelhado pra consumo. Tentamos comer o tro\u00e7o verde e cru mesmo. N\u00e3o conseguimos. Al\u00e9m de duro e fibroso, o neg\u00f3cio era amargo e intrag\u00e1vel. A pobre \u00e1rvore foi derrubada em v\u00e3o. <\/p>\n<p>Num outro epis\u00f3dio de fome consegui ca\u00e7ar um caranguejo na praia. N\u00f3s t\u00ednhamos um fogareiro de uma boca e um pequeno botij\u00e3o de g\u00e1s, al\u00e9m de uma ou duas panelas, n\u00e3o lembro mais. Fervemos \u00e1gua e jogamos o bicho vivo na panela. Algu\u00e9m tinha dito que era assim que se cozinhava lagosta, que parecia \u00f3bvio ent\u00e3o que era prima de caranguejo. Terminamos tomando \u00e1gua quente com um pouco de sal onde o caranguejo tomou banho. O prato n\u00e3o chegou nem perto da sopa que hav\u00edamos imaginado. <\/p>\n<p>Eu era o cozinheiro porque era o dono do fogareiro e do botij\u00e3o. Fiz ch\u00e1 preto pra todo mundo usando minha meia, usada, como coador. A l\u00f3gica era que \u00e1gua fervida mataria qualquer bact\u00e9ria. Verdade. Mas n\u00e3o tirava o gosto do talco antiss\u00e9ptico que eu usava pra amenizar o chul\u00e9. Ningu\u00e9m reclamou porque n\u00e3o dei detalhes de como havia coado o ch\u00e1. Coment\u00e1rio apenas que &#8220;tinha um gosto estranho&#8221;. Um segredo que conto aqui pela primeira vez. <\/p>\n<p>Chegamos em Iguape famintos e fomos direto a um mercadinho, onde compramos todo tipo de lixo que adolescente come \u2014 bolos industrializados, bolachas recheadas, refrigerantes, chocolate, balas e afins. Em seguida, fomos comer sandu\u00edches e tomar milkshakes. Guloseimas que visitaram nossos sonhos durante a travessia e restringiram nossas conversas. N\u00e3o lembro de ter falado de outra coisa al\u00e9m de comida nessa aventura. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o cham\u00e1vamos isso de &#8220;aventura&#8221;, diz\u00edamos apenas que \u00edamos acampar. Onde? No &#8220;mato&#8221;. <\/p>\n<p>Essa reminisc\u00eancia me fez lembrar de um dos melhores filmes que assisti nos \u00faltimos anos: <a href=\"https:\/\/www.kalapalo.com.br\/bibliot\/capitao-fantastico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CAPIT\u00c3O FANT\u00c1STICO<\/a>. Sem dar spoiler, trata-se basicamente de um pai que educa seus filhos em contato com a natureza, imersos num claro c\u00f3digo de \u00e9tica, de respeito e de <a href=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/autossuficiencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">AUTOSSUFICI\u00caNCIA<\/a>. O protagonista, o excelente ator estadunidense Viggo Mortensen (que interpretou Aragorn na s\u00e9rie de filmes O SENHOR DOS AN\u00c9IS), encarna de forma impressionante esse patriarca quase xam\u00e2nico que circula pela natureza como se estivesse em casa. Os filhos crescem e amadurecem de uma forma impens\u00e1vel nos padr\u00f5es urbanos. O pai que eu gostaria de ter tido, o pai que gostaria de ter sido se tivesse filhos, a educa\u00e7\u00e3o que gostaria de ter vivido, a inf\u00e2ncia dos sonhos. Tudo a ver com essa aventura adolescente que narrei.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/filme-capitao-fantastico.webp\" alt=\"Filme Capit\u00e3o Fant\u00e1stico\" width=\"356\" height=\"512\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22314\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/filme-capitao-fantastico.webp 356w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/filme-capitao-fantastico-209x300.webp 209w\" sizes=\"(max-width: 356px) 100vw, 356px\" \/><\/p>\n<p>O que mais me tocou nesse filme, lan\u00e7ado em 2016, dirigido e escrito pelo tamb\u00e9m estadunidense Matt Ross, \u00e9 a proposta revolucion\u00e1ria e simples de educar em contato com a natureza como alternativa \u00e0s escolas convencionais. Algo que sempre defendi no que diz respeito \u00e0 aventura. Se as escolas ensinassem, por exemplo, navega\u00e7\u00e3o com carta topogr\u00e1fica e b\u00fassola, acampamento selvagem de m\u00ednimo impacto ambiental, primeiros-socorros em \u00e1reas remotas e outras t\u00e9cnicas de aventura, as crian\u00e7as e jovens cresceriam menos alien\u00edgenas ao ambiente natural, mais respons\u00e1veis, mais independentes, mais solid\u00e1rios e menos individualistas. Acredito nisso com todas minhas for\u00e7as porque experi\u00eancias como a que contei aqui tiveram resultado semelhante em mim.<\/p>\n<p>Um livro que \u00e9 tido como infantil, mas que de infantil n\u00e3o tem nada, que aborda esse tema do desenvolvimento humano a partir do contato com a natureza e com o meio natural, \u00e9 O LIVRO DA SELVA do brit\u00e2nico nascido na \u00cdndia <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rudyard_Kipling\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rudyard Kipling<\/a>. Adaptado para o cinema pela Disney, em 1967, com o t\u00edtulo de MOGLI: O MENINO LOBO, a hist\u00f3ria \u00e9 conhecida por quase todos. Mas a din\u00e2mica da floresta a partir de seus protagonistas animais na obra original \u00e9 menos romantizada, menos infantil. H\u00e1 maldade, ego\u00edsmo, crueldade, assim com h\u00e1 lealdade, honra e senso de coletivo. N\u00e3o existe bem e mal. Existem rela\u00e7\u00f5es sempre em transforma\u00e7\u00e3o. Tudo acaba se resumindo em escolher o caminho de menor sofrimento para si e para os outros. Aceitar a natureza como ela \u00e9.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/o-livro-da-selva-rudyard-kipling.webp\" alt=\"O Livro da Selva - Rudyard Kipling\" width=\"336\" height=\"560\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22317\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/o-livro-da-selva-rudyard-kipling.webp 336w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2023\/08\/o-livro-da-selva-rudyard-kipling-180x300.webp 180w\" sizes=\"(max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/p>\n<p>Esses exemplos de livro e de filmes apresentam vis\u00f5es distintas de &#8220;mato&#8221;, sob a \u00f3tica de outras culturas, mostrando que o que para n\u00f3s \u00e9 considerado sem valor, pode ser a base da civiliza\u00e7\u00e3o para outros. <\/p>\n<p>O &#8220;mato&#8221; sempre foi uma refer\u00eancia pra mim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pequeno Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico de Aventura: Mato No Brasil quando algu\u00e9m diz &#8220;mato&#8221; est\u00e1 se referindo \u00e0 natureza sem valor, sem utilidade, sem import\u00e2ncia. \u00c9 como se a vegeta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser comida ou comercializada n\u00e3o valesse nada. 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