{"id":34189,"date":"2025-06-17T17:46:50","date_gmt":"2025-06-17T20:46:50","guid":{"rendered":"https:\/\/geartips.club\/blog\/?p=34189"},"modified":"2025-06-17T17:53:28","modified_gmt":"2025-06-17T20:53:28","slug":"racismo-desigualdade-atividades-na-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/geartips.club\/blog\/racismo-desigualdade-atividades-na-natureza\/","title":{"rendered":"Trilhas de exclus\u00e3o: racismo e desigualdade em atividades na natureza"},"content":{"rendered":"<p>A montanhista Aretha Duarte ganhou destaque na m\u00eddia em 2021 ao se tornar a primeira mulher negra latino-americana a escalar o Monte Everest. Por tr\u00e1s dessa conquista pessoal desafiadora e grandiosa, Aretha tinha um objetivo: ampliar as oportunidades em atividades na natureza tanto para pessoas negras quanto para mulheres.<\/p>\n<p>Criada na periferia de Campinas, Aretha foi a primeira de sua fam\u00edlia a cursar o ensino superior, o que para ela representou o rompimento de uma estrutura. Durante a gradua\u00e7\u00e3o em educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, curso que escolheu por acreditar no esporte como instrumento de educa\u00e7\u00e3o, Aretha teve acesso a uma palestra sobre montanhismo.<\/p>\n<p>A guia e atleta tinha 25 anos quando vivenciou uma sensa\u00e7\u00e3o d\u00fabia diante da descoberta: \u201cFiquei incomodada porque era a primeira vez que eu ouvia falar sobre montanhismo, mas ao mesmo tempo feliz porque finalmente tinha chegado a oportunidade de ter acesso a um esporte no meio da natureza que me parecia muito interessante. Fiquei empolgada em praticar trekking e expedi\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Para trilhar esse caminho, Aretha pediu emprego na operadora que ministrou a palestra e entrou para o universo do montanhismo de forma profissional. \u201cLevou um tempo de resili\u00eancia para eu ser aceita naquele ambiente. Iniciei como vendedora, mas tinha o desejo de estar em campo. Passei a atuar como assistente de guias no Brasil e fora, e finalmente me tornei guia especializada em alta montanha.\u201d<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/everest-base-camp-2025-foto-gabriel-tarso.webp\" alt=\"Basecamp do Everest, 2025. Foto: Gabriel Tarso.\" width=\"1024\" height=\"683\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34200\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/everest-base-camp-2025-foto-gabriel-tarso.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/everest-base-camp-2025-foto-gabriel-tarso-300x200.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/everest-base-camp-2025-foto-gabriel-tarso-768x512.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Basecamp do Everest, abril de 2025 &#8211; Foto: Gabriel Tarso<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, Aretha segue inspirando de forma ativa outras pessoas. Seu prop\u00f3sito \u00e9 impactar e transformar vidas por meio da inclus\u00e3o. \u201cHoje, eu tenho visibilidade dentro desse nicho, mas n\u00e3o me interessa ser a \u00fanica.\u201d<\/p>\n<p>Assim como Aretha, Ariel Silva, que coleciona no curr\u00edculo 8 das 10 maiores montanhas do Brasil, al\u00e9m de feitos na Patag\u00f4nia Argentina e na Venezuela, n\u00e3o quer ser reconhecido como um ponto fora da curva. Seu desejo \u00e9 servir de exemplo e inspira\u00e7\u00e3o para a comunidade preta. \u201cN\u00e3o gosto de ser visto como um jovem negro que faz atividades na natureza. Quero ser o Ariel escalador, que faz trilhas e, atrav\u00e9s disso, mostra para os jovens negros que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es que \u00e9 poss\u00edvel\u201d, conta Ariel, nascido na comunidade da Mar\u00e9, no Rio de Janeiro, guia de turismo e fundador da <a href=\"https:\/\/geartips.club\/parceiros\/montanha-sagrada\/\" target=\"_blank\" title=\"Montanha Sagrada no Gear Tips Club\">ag\u00eancia Montanha Sagrada<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva-el-chalten-patagonia.webp\" alt=\"Ariel Silva, em El Chalt\u00e9n - Patag\u00f4nia\" width=\"1024\" height=\"1130\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34203\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva-el-chalten-patagonia.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva-el-chalten-patagonia-272x300.webp 272w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva-el-chalten-patagonia-928x1024.webp 928w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva-el-chalten-patagonia-768x848.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Ariel Silva &#8211; El Chalt\u00e9n &#8211; Patag\u00f4nia Argentina<\/p>\n<h2>O que impede a inclus\u00e3o de pessoas pretas em atividades na natureza<\/h2>\n<p>Por mais contradit\u00f3rio que possa parecer, em um pa\u00eds como o Brasil, onde a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por negros e pardos, muitas atividades na natureza, como o montanhismo, ainda s\u00e3o dominadas por homens brancos, sob uma \u00f3tica tradicionalista, segundo Carla Rom\u00e3o, montanhista, cientista social e diretora t\u00e9cnica do CERJ (Clube Excursionista Rio de Janeiro \u2013 um dos clubes ligados \u00e0 FEEMERJ).<\/p>\n<p>\u201cO nosso maior desafio dentro dessa perspectiva racial, na minha avalia\u00e7\u00e3o, tem sido dividir esse espa\u00e7o. Se eu estou em um ambiente onde nem metade ou um ter\u00e7o \u00e9 de pessoas negras, aquele ambiente tem um problema muito s\u00e9rio\u201d, conta Carla.<\/p>\n<p>O acesso ao montanhismo, escalada e trekking \u00e9 limitado a determinados grupos espec\u00edficos por quest\u00f5es socioecon\u00f4micas e culturais, segundo Aretha Duarte. A sua jornada ao Everest foi um chamado para impulsionar a forma\u00e7\u00e3o de pontes entre empresas, governos e sociedade civil, para a cria\u00e7\u00e3o de mais possibilidades inclusivas. \u201cEntendo que \u00e9 uma responsabilidade de todos \u2013 e n\u00e3o somente da pessoa negra. Ela tamb\u00e9m tem vontade, mas a oportunidade n\u00e3o chega para ela, o que dificulta a pr\u00e1tica das atividades.\u201d<\/p>\n<p>Para o soci\u00f3logo Denilson Silva, um dos fundadores do Negritude Outdoor, enxergar de forma ampla todas as barreiras que impedem a inclus\u00e3o de negros, perif\u00e9ricos e mulheres em atividades pautadas no homem h\u00e9tero branco \u00e9 fundamental para uma conscientiza\u00e7\u00e3o concreta. \u201cA gente tende a acreditar que resolver uma quest\u00e3o, um galho s\u00f3, vai dar conta de tudo, e a\u00ed voc\u00ea cria uma \u00e1rvore problem\u00e1tica. \u00c9 preciso olhar para o todo.\u201d<\/p>\n<h2>Barreira socioecon\u00f4mica: impedimento democr\u00e1tico nas montanhas<\/h2>\n<p>Diego Cruz cresceu na cidade de Franco da Rocha, no estado de S\u00e3o Paulo. Na \u00e9poca, era um lugar com bastante \u00e1reas verdes e era l\u00e1 que ele brincava com os amigos. O contato com as atividades outdoor veio por meio de um desejo de mudan\u00e7a de estilo de vida, aos 24 anos. Ao fazer a sua primeira trilha, na Cachoeira da Pedra Furada, em Mogi Mirim, Diego resgatou a conex\u00e3o com a natureza que vivenciou na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ali, nascia um sonho: fazer o Pico dos Marins, mas logo Diego se deparou com desafios como investimentos em equipamentos e log\u00edstica. \u201cQuando eu comecei a pensar na barraca, t\u00eanis, comida que teria que levar, pensei em desistir. Mas na \u00e9poca, conheci alguns grupos de trilha e me adaptei \u00e0 minha realidade. N\u00e3o tinha saco de dormir, mas improvisei cobertas. Eu queria conseguir\u201d, conta o fundador da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/okeaventura\/\" target=\"_blank\" title=\"Instagram da ag\u00eancia OK\u00ca Aventura\" rel=\"noopener\">ag\u00eancia OK\u00ca Aventura<\/a> e vice-presidente da FEMESP (Federa\u00e7\u00e3o de Montanhismo do Estado de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>Ao fazer a Travessia Marins x Itaguar\u00e9 de forma adaptada, Diego enfrentou uma situa\u00e7\u00e3o direta de racismo. \u201cOuvi uma pessoa do grupo comentar que \u2018aquilo era coisa de preto\u2019, o que gerou desconforto n\u00e3o s\u00f3 em mim, mas em todos. A situa\u00e7\u00e3o despertou diversos sentimentos em mim. \u00c9 muito triste pensar que voc\u00ea n\u00e3o pode fazer as coisas por n\u00e3o poder comprar um saco de dormir de marcas caras.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/diego-cruz.webp\" alt=\"Diego Cruz\" width=\"800\" height=\"996\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34206\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/diego-cruz.webp 800w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/diego-cruz-241x300.webp 241w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/diego-cruz-768x956.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Diego Cruz<\/p>\n<p>Uma das principais barreiras de inser\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o preta em atividades na natureza \u00e9 a socioecon\u00f4mica, j\u00e1 que os equipamentos s\u00e3o caros e muitos locais s\u00e3o de dif\u00edcil acesso, conforme explica Ariel Silva. \u201cUma mochila \u00e9 o pre\u00e7o do aluguel da casa de uma pessoa como eu. Uma corda de escalada representa dois sal\u00e1rios. Enquanto as pessoas est\u00e3o com as melhores mochilas, muitas usam a mesma do trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Segundo o guia, esse desafio, naturalmente, separa as pessoas e, pior, pode gerar avers\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica de atividades na natureza. \u201cQuando voc\u00ea se sente inferior por estar com equipamentos mais simples, corre o risco de desistir e partir para o futebol. Como eu vou pagar um curso de escalada e deixar de comprar comida? Tive que aprender na ra\u00e7a, me expondo, e, atrav\u00e9s disso, sigo estimulando outras pessoas\u201d, conta Ariel.<\/p>\n<p>Carla Rom\u00e3o traz uma reflex\u00e3o importante diante das experi\u00eancias vividas por Diego e Ariel, sobre a ocupa\u00e7\u00e3o dos ambientes naturais e o preconceito nas montanhas perante as barreiras socioecon\u00f4micas. \u201c\u00c9 uma loucura se a gente for pensar em como o esporte se organiza. \u00c9 um modelo europeu, mas comunidades tradicionais, quilombolas e ind\u00edgenas j\u00e1 praticavam o que a gente chama de montanhismo desde tempos imemoriais. Esse modelo importado cria um perfil. Quando voc\u00ea v\u00ea pessoas negras n\u00e3o t\u00e3o bem equipadas na montanha, voc\u00ea tende a achar que aquele n\u00e3o \u00e9 o lugar delas. Mas o espa\u00e7o tamb\u00e9m \u00e9 delas.\u201d <\/p>\n<p>Diego Cruz continua sonhando alto, mas ainda enfrenta desafios. Ap\u00f3s a inscri\u00e7\u00e3o em um curso voltado para alta montanha pelo Clube Paraense de Montanhismo, o montanhista foi selecionado para uma expedi\u00e7\u00e3o no Passo de S\u00e3o Francisco, na Argentina. Mas novamente esbarrou com a quest\u00e3o financeira. Dessa vez, est\u00e1 recorrendo aos amigos e recebeu o apoio do GPM (Grupo Paulista de Montanhismo), que ajudar\u00e1 com os equipamentos.<\/p>\n<p>\u201cEu, um negro que vim da periferia, crescido ao redor de pessoas que n\u00e3o t\u00eam essa cultura, tive a sorte de conhecer pessoas que viram a vontade que eu tinha e me ajudaram. Se n\u00e3o fosse isso, talvez eu nunca tivesse, inclusive, me tornado um profissional da \u00e1rea.\u201d<\/p>\n<h2>Invisibilidade, falta de acolhimento e sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencimento<\/h2>\n<p>At\u00e9 hoje a falta de acolhimento e de senso de pertencimento s\u00e3o fatores que incomodam Ariel Silva em suas atividades pessoais e profissionais na natureza, o que gera dores constantes. \u201cQuando voc\u00ea est\u00e1 em um lugar onde a maioria esmagadora s\u00e3o pessoas brancas, elas n\u00e3o te valorizam at\u00e9 voc\u00ea provar que \u00e9 capaz. Quebrar essa barreira de reconhecimento \u00e9 muito dif\u00edcil. Voc\u00ea passar\u00e1 por v\u00e1rios bloqueios. Ali \u00e9 o meu lugar, mas quando voc\u00ea sente que n\u00e3o pertence a ele, \u00e9 muito triste, e muitas vezes d\u00e1 vontade de sair.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva.webp\" alt=\"Ariel Silva\" width=\"800\" height=\"951\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34209\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva.webp 800w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva-252x300.webp 252w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ariel-silva-768x913.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Ariel Silva<\/p>\n<p>A falta de visibilidade tamb\u00e9m foi uma quest\u00e3o enfrentada por Aretha Duarte antes da conquista do cume do Monte Everest: \u201cAntes, eu chegava em um ambiente e as pessoas n\u00e3o necessariamente me reconheciam como l\u00edder da expedi\u00e7\u00e3o, porque geralmente guias n\u00e3o s\u00e3o mulheres e, muito menos, uma mulher negra. Afinal de contas, elas pensam: \u2018Como ela teve tempo e condi\u00e7\u00e3o de se preparar e se especializar nisso?\u2019\u201d<\/p>\n<p>Outro inc\u00f4modo da montanhista \u00e9 olhar para o lado e n\u00e3o ver outras pessoas pretas no grupo. \u201cQuando eu guio clientes na montanha, raramente tem uma pessoa negra. Esse \u00e9 o exemplo mais claro que pode se dar de racismo na montanha\u201d, conta Aretha. Esse sentimento tamb\u00e9m gera desconforto em Denilson Silva, do Negritude Outdoor: \u201cFico pensando: \u2018Por que s\u00f3 eu tenho condi\u00e7\u00f5es de estar ali? Por que s\u00f3 eu tenho uma folga no s\u00e1bado e posso fazer uma travessia?\u2019\u201d<\/p>\n<p>Para Carla Rom\u00e3o, essa barreira est\u00e1 associada a uma exclus\u00e3o silenciosa, que n\u00e3o diz respeito a um discurso direto de preconceito, mas de comportamento sutil. \u201cVoc\u00ea deixa a pessoa se associar a um clube, por exemplo, participar das atividades, mas sutilmente voc\u00ea cria situa\u00e7\u00f5es em que aquele indiv\u00edduo n\u00e3o se sente \u00e0 vontade. Eu j\u00e1 vivenciei essa exclus\u00e3o simb\u00f3lica, \u00e9 uma esp\u00e9cie de sutileza que te informa que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 bem-vinda ali.\u201d<\/p>\n<p>A montanhista frisa que muitas pessoas ficam por insist\u00eancia, por serem resist\u00eancia, mas que, \u00e0s vezes, reflete sobre seguir em frente. \u201cA maneira como te expulsam gera efeitos na sua individualidade, mas ao mesmo tempo voc\u00ea quer estar na montanha. Voc\u00ea conta nos dedos as pessoas negras em clubes. Muitos nem questionam a falta delas\u201d, conta Carla que decidiu fazer a sua inscri\u00e7\u00e3o no CERJ ao avistar da porta do clube um homem negro, de cabelo black power. \u201cQuando vi o Z\u00e9, me senti acolhida porque tinha algu\u00e9m que parecia comigo naquele espa\u00e7o. Ele me acolheu somente por sua exist\u00eancia. Decidi que ali era o meu lugar.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/carla-romao-travessia-bariloche.webp\" alt=\"Carla Rom\u00e3o em uma travessia em Bariloche\" width=\"1024\" height=\"768\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34212\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/carla-romao-travessia-bariloche.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/carla-romao-travessia-bariloche-300x225.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/carla-romao-travessia-bariloche-768x576.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Carla Rom\u00e3o, durante uma travessia em Bariloche<\/p>\n<p>Carla refor\u00e7a a necessidade de ampliar o debate sobre inclus\u00e3o entre \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis para tornar as atividades outdoor acess\u00edveis a todos. \u201cQuando a gente fala da perspectiva racial em ambientes de montanha, as federa\u00e7\u00f5es e as associa\u00e7\u00f5es t\u00eam que tomar diretrizes. N\u00e3o podemos ignorar que o esporte no Brasil n\u00e3o pode ser branco, ele tem que ser, no m\u00ednimo, multirracial para contemplar todas as experi\u00eancias das pessoas que vivem no cen\u00e1rio brasileiro. Todas as pesquisas comprovam que a inclus\u00e3o em uma pr\u00e1tica esportiva melhora a nossa percep\u00e7\u00e3o sobre a vida.\u201d<\/p>\n<h2>Falta de representatividade no mercado outdoor e na m\u00eddia<\/h2>\n<p><em><strong>\u201cSempre escuto que a montanha \u00e9 para todos, mas n\u00e3o \u00e9 verdade. Por muito tempo, a gente n\u00e3o via representatividade, tanto de profissionais quanto de not\u00edcias na m\u00eddia. Eram sempre pessoas brancas, em sua maioria homens, porque tiveram pais que os levavam para esses ambientes desde pequenos\u201d, Diego Cruz<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Outro motivo de afastamento da popula\u00e7\u00e3o preta das atividades na natureza \u00e9 praticado indiretamente pela publicidade e pela m\u00eddia.  A falta de modelos negros em cat\u00e1logos de lojas e de hist\u00f3rias de protagonismo nos canais de not\u00edcias geram distanciamento e falta de identifica\u00e7\u00e3o. \u201cNingu\u00e9m fala que ali n\u00e3o \u00e9 lugar de preto, mas sinto que uma loja sem modelos pretos n\u00e3o me representa\u201d, conta Ariel.<\/p>\n<p>O guia conta que tamb\u00e9m se sente frustrado ao pesquisar um destino, j\u00e1 que as hist\u00f3rias sempre s\u00e3o contadas por pessoas brancas. \u201cDificilmente jovens negros de periferia s\u00e3o protagonistas. A gente tem que estimular esse pessoal a contar suas hist\u00f3rias para que outras pessoas vejam que \u00e9 poss\u00edvel, que a for\u00e7a vem de dentro. Precisamos ser mais vistos. A exposi\u00e7\u00e3o virtual e presencial \u00e9 o caminho.\u201d<\/p>\n<p>Para Aretha, a falta de representatividade negra em ambiente de montanha \u00e9 reproduzida em rodas de bate-papo, nas redes sociais e nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Infelizmente, segundo a atleta, as buscas de fotos em bancos de imagens voltadas a escaladores e montanhistas s\u00e3o sempre as mesmas \u2013 o homem branco. Nunca \u00e9 uma mulher, e muito menos uma mulher negra. Nem o homem negro.<\/p>\n<p>Muitos conte\u00fados e opini\u00f5es publicados nas redes sociais tamb\u00e9m corroboram para a falta de representatividade e para a propaga\u00e7\u00e3o do racismo no ambiente outdoor. Aretha relembra um triste epis\u00f3dio ocorrido em uma postagem em sua pr\u00f3pria rede, quando prop\u00f4s uma reflex\u00e3o sobre a escalada ao Everest ser uma atividade racista. A postagem viralizou, e as cr\u00edticas vieram em peso por pessoas mal-informadas e mal-intencionadas.<\/p>\n<p>\u201cMuita gente questionou porque a montanha era racista e n\u00e3o democr\u00e1tica, j\u00e1 que permitia voc\u00ea estar l\u00e1. Sim, ela est\u00e1 l\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, mas a grande quest\u00e3o \u00e9 o acesso para estar l\u00e1. A forma como a sociedade est\u00e1 estruturada n\u00e3o permite equidade em rela\u00e7\u00e3o ao acesso e \u00e0s oportunidades. Essa \u00e9 a grande quest\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio fez Aretha enxergar o qu\u00e3o atrasados estamos em rela\u00e7\u00e3o a um entendimento hist\u00f3rico e cultural sobre nossas origens e as conquistas da comunidade negra. \u201cH\u00e1 pessoas que ainda n\u00e3o entenderam a limita\u00e7\u00e3o que existe, imposta h\u00e1 centenas de anos, e que n\u00e3o conseguem compreender que a pessoa negra est\u00e1 h\u00e1 500 anos tentando ter um tipo de ascens\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0s oportunidades que foram dadas \u00e0s pessoas brancas no passado. Existe muita hist\u00f3ria a ser estudada.\u201d<\/p>\n<h2>Como estimular a inser\u00e7\u00e3o de pessoas pretas em atividades na natureza<\/h2>\n<h3>Negritude Outdoor: conex\u00f5es e visibilidade para pessoas negras<\/h3>\n<p><em><strong>\u201cO principal papel do Negritude Outdoor foi criar uma rede de apoio para saber o que est\u00e1 acontecendo, mostrar que n\u00f3s existimos, o que temos que fazer para nos proteger diante de pr\u00e1ticas de afastamento racial ou racismo. Um lugar para as pessoas respirarem, fazendo o que gostam com as pessoas que gostam\u201d, Denilson Silva.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Denilson Silva e Leo Ferreira fundaram o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/negritudeoutdoor\/\" target=\"_blank\" title=\"Instagram do Negritude Outdoor\" rel=\"noopener\">Negritude Outdoor<\/a> ap\u00f3s uma conversa sobre a representatividade negra em atividades outdoor. \u201cAli, me bateu um sininho de que eu conhecia poucas pessoas. Alguns familiares praticam as atividades, mas at\u00e9 as minhas sa\u00eddas eram com pessoas brancas. Come\u00e7amos a fazer essa busca e foi dif\u00edcil achar pessoas negras. Em um pa\u00eds com percentagem de negros e pardos t\u00e3o grande, a gente n\u00e3o encontrar personagens facilmente foi bem esquisito.\u201d<\/p>\n<p>Hoje, o Negritude Outdoor conecta pessoas pretas de todo o Brasil para fazer trilhas, al\u00e9m de promover discuss\u00f5es e palestras sobre o tema racial. \u201cNas nossas sa\u00eddas, enquanto caminhamos na trilha, trazemos as nossas quest\u00f5es. Quando pausamos para o lanche, conversamos sobre o nosso trabalho e outros assuntos enquanto pessoa negra. A trilha \u00e9 o ambiente que gostamos de estar, mas a natureza se torna outro lugar. Ali, estamos \u00e0 vontade.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/negritude-outdoor.webp\" alt=\"Negritude Outdoor\" width=\"800\" height=\"731\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34195\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/negritude-outdoor.webp 800w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/negritude-outdoor-300x274.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/negritude-outdoor-768x702.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Foto: acervo Negritude Outdoor<\/p>\n<p>Diego Cruz \u00e9 um dos membros do Negritude Outdoor, e refor\u00e7a a necessidade de levar a cultura de montanha para quem n\u00e3o tem acesso. \u201cQuando nos organizamos em grupos e incentivamos as atividades na natureza, trazemos visibilidade para as pessoas que n\u00e3o conhecem o universo outdoor. O objetivo \u00e9 que elas vejam e pensem \u2018por que n\u00e3o posso?\u2019. Dessa forma, quebramos algumas obje\u00e7\u00f5es. O espa\u00e7o proposto pelo Negritude Outdoor \u00e9 seguro, onde falamos sobre as nossas percep\u00e7\u00f5es de mundo, acontecimentos e situa\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis que vivenciamos.\u201d<\/p>\n<p>O Negritude Outdoor tamb\u00e9m possui um hub que re\u00fane profissionais de atividades na natureza \u2013 uma forma de conectar entusiastas a guias pretos e promover o trabalho desses profissionais. \u201cNas nossas sa\u00eddas, h\u00e1 uma reflex\u00e3o constante: muitas pessoas pretas n\u00e3o saem em grupos de trilha mais conhecidos porque acham que \u00e9 um ambiente muito diferente da realidade sociorracial delas, e isso gera um bloqueio. Elas veem os destinos na m\u00eddia, mas n\u00e3o se enxergam nesses grupos. Ent\u00e3o, resolvem procurar grupos que tenham mais negros e n\u00e3o acham, o que gera outro bloqueio. E a\u00ed a pessoa nunca mais faz. O Negritude Outdoor promove essa conex\u00e3o.\u201d<\/p>\n<h3>Centro de Escala Urbana: escalada como base para transformar vidas<\/h3>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/escaladaurbana\/\" target=\"_blank\" title=\"Instagram do Centro de Escalada Urbana (C.E.U)\" rel=\"noopener\">Centro de Escalada Urbana (C.E.U)<\/a> \u00e9 uma iniciativa comunit\u00e1ria criada em 2010 para tornar a escalada acess\u00edvel aos jovens das comunidades do Rio de Janeiro. Por meio do esporte, o projeto vem transformando a vida de centenas de jovens de 13 a 17 anos.<br \/>\n\u00c0 frente da coordena\u00e7\u00e3o do C.E.U est\u00e1 Katia Agatha, de 21 anos, que teve seu primeiro contato com projeto aos 16 anos por meio de uma col\u00f4nia de f\u00e9rias \u2013 porta de entrada para que se tornasse aluna fixa e, mais tarde, uma jovem monitora.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana.webp\" alt=\"Centro de Escalada Urbana (C.E.U)\" width=\"800\" height=\"670\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34216\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana.webp 800w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana-300x251.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana-768x643.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Foto: acervo Centro de Escalada Urbana (C.E.U)<\/p>\n<p>Katia sonhava em ingressar na faculdade de ci\u00eancias sociais e teve a sua vida transformada pelo projeto. \u201cEu estava muito desanimada, achando que faculdade n\u00e3o era coisa para mim. Eu moro na comunidade do Turano, no Rio de Janeiro, e sempre estudei em col\u00e9gio p\u00fablico \u00e0 noite. Essa realidade era muito distante para mim e me questionava por que sonhar.\u201d Incentivada pela coordenadora na \u00e9poca, Katia cursou um pr\u00e9-vestibular comunit\u00e1rio e passou a entender que era poss\u00edvel trilhar novos caminhos. \u201cO C.E.U mudou meu pensamento e a forma como eu me enxergava.\u201d<\/p>\n<p>Como atual coordenadora do projeto, Katia tem contato direto com os alunos e seus pais, entendendo suas demandas. Al\u00e9m de organizar aulas de escalada em um gin\u00e1sio no bairro de Botafogo, ela est\u00e1 \u00e0 frente de passeios culturais, esportivos e ambientais, al\u00e9m de oficinas que apresentam aos jovens novas profiss\u00f5es. O projeto tamb\u00e9m promove um curso b\u00e1sico de escalada na rocha de forma personalizada, com certifica\u00e7\u00e3o, e a inclus\u00e3o dos novos escaladores em festivais e campeonatos em diversos estados.<\/p>\n<p>\u201cA escalada \u00e9 a porta de entrada para trabalharmos outras quest\u00f5es que fazem parte da vida dos jovens. O esporte \u00e9 um catalisador. Queremos que os jovens conhe\u00e7am mais a cidade em que moram e entendam que podem circular por todos os lugares. Organizamos os passeios de acordo com as demandas que eles trazem, pensando sobre o que seria interessante eles conhecerem.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana-02.webp\" alt=\"Centro de Escalada Urbana (C.E.U)\" width=\"1024\" height=\"768\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34219\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana-02.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana-02-300x225.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/ceu-centro-escalada-urbana-02-768x576.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Foto: acervo Centro de Escalada Urbana (C.E.U)<\/p>\n<p>Por meio das suas atividades e da inspira\u00e7\u00e3o de Katia, o C.E.U tem a miss\u00e3o de ajudar os jovens a n\u00e3o desistirem dos seus sonhos. \u201cMuitos n\u00e3o sabem responder qual seu sonho ou jogam as expectativas l\u00e1 para baixo por estar mais perto da sua realidade. Por meio da pr\u00e1tica da escalada, da descoberta de outros lugares, mostramos que eles podem ocupar outros espa\u00e7os e fazer diversas coisas. O C.E.U me fortaleceu e queremos multiplicar essa for\u00e7a.\u201d<\/p>\n<h3>Favela Radical: esportes na natureza como ferramenta de inclus\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p><em><strong>\u201cA natureza transformou a minha vida, e hoje eu transformo vidas, realizando o meu sonho. Acredito que um mundo diferente \u00e9 poss\u00edvel porque temos os recursos naturais como ferramenta de trabalho\u201d, Jefferson Quirino.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/favelaradical\/\" target=\"_blank\" title=\"Instagram do Favela Radical\" rel=\"noopener\">Favela Radical<\/a> atravessa a hist\u00f3ria de vida de seu fundador. Nascido e criado no Morro do Turano, Jefferson Quirino teve uma adolesc\u00eancia conturbada, passando pelo sistema carcer\u00e1rio e vivenciando a escassez de oportunidades na comunidade.<\/p>\n<p>Em 2010, ao deixar para tr\u00e1s o pres\u00eddio pela \u00faltima vez, resolveu interromper definitivamente um ciclo de sua vida. Foi trabalhar no Jornal do Brasil, e ao fazer buscas no acervo local sobre a sua comunidade, sentiu-se incomodado. \u201cQueria saber como os jornais pautavam a realidade do meu territ\u00f3rio. Percebi que s\u00f3 se falava sobre viol\u00eancia e coisas negativas. Pensei: \u2018Estamos no Turano, a favela em que nasceu Jorge Ben Jor, como s\u00f3 se fala sobre criminalidade?\u2019\u201d<\/p>\n<p>A grande virada de chave para a sua transforma\u00e7\u00e3o de vida e, anos depois, de sua comunidade, veio em 2014. Um amigo surfista rec\u00e9m-chegado da Fran\u00e7a o presenteou com uma prancha. Ali, Jefferson entendeu que tinha uma ferramenta potente para ressignificar a sua realidade e a de outras pessoas. A ideia de montar um projeto social come\u00e7ou a se materializar ap\u00f3s Jefferson trabalhar no SESI, em um processo de pacifica\u00e7\u00e3o, e adquirir conhecimento sobre as demandas sociais da sua comunidade.  <\/p>\n<p>Em 2017, surgia o Favela Radical, que promove aulas de surf, escalada e skate, e j\u00e1 impactou mais de 700 crian\u00e7as e jovens de 7 a 17 anos. \u201cO projeto surgiu para desenvolver os esportes na favela, e fazer com que hist\u00f3rias como a minha n\u00e3o fossem mais contadas. Ele deixa de ser reparativo para ser preventivo. Transformamos o nosso territ\u00f3rio de forma radical, em uma favela radical, de forma revolucion\u00e1ria, ofertando atividades e a\u00e7\u00f5es incomuns nesses lugares. Aqui, os moradores s\u00e3o protagonistas.\u201d  <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-01.webp\" alt=\"Favela Radical\" width=\"1024\" height=\"768\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34222\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-01.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-01-300x225.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-01-768x576.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Foto: acervo Favela Radical<\/p>\n<p>Jefferson conta que a escalada sempre esteve presente na favela, de forma n\u00e3o organizada. O projeto trouxe aos jovens a oportunidade de instrumentaliza\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e orienta\u00e7\u00e3o para que eles desenvolvam de forma correta uma habilidade org\u00e2nica. \u201cDesde crian\u00e7as, eles escalam muros atr\u00e1s de pipa, \u00e1rvores atr\u00e1s de frutas. Portanto, sob o olhar esportivo, a escalada pode ser um esporte elitizado, mas sob a \u00f3tica pr\u00e1tica, ela \u00e9 100% democr\u00e1tica.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m de explorar a parede de escalada instalada na comunidade, os jovens da comunidade do Turano vivenciam experi\u00eancias em atividades externas, por meio de um ecossistema de parceiros criado pelo Favela Radical. \u201cO C.E.U \u00e9 nosso grande padrinho, e frequentamos o gin\u00e1sio deles. A Aretha Duarte \u00e9 nossa embaixadora, e a Outward Bound Brasil (OBB) organiza experi\u00eancias socioemocionais na natureza para nossos jovens, com o <a href=\"https:\/\/outwardbound.org.br\/azimute\/\" target=\"_blank\" title=\"Projeto Azimute da OBB\" rel=\"noopener\">Projeto Azimute<\/a>. No in\u00edcio do ano, fizemos uma expedi\u00e7\u00e3o de trekking na Serra da Mantiqueira e, em breve, 15 crian\u00e7as participar\u00e3o de uma atividade de canoagem.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-2.webp\" alt=\"Favela Radical\" width=\"800\" height=\"1067\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34225\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-2.webp 800w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-2-225x300.webp 225w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/favela-radical-2-768x1024.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Foto: acervo Favela Radical<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o ambiental tamb\u00e9m \u00e9 um forte pilar na grade de atividades do Favela Radical, fortalecendo a consci\u00eancia de m\u00ednimo impacto. \u201cPrecisamos do mar, trilhas e pra\u00e7as limpos, sem influ\u00eancia de descartes irregulares de materiais. Os jovens aprendem que a preserva\u00e7\u00e3o ambiental vale para todas as \u00e1reas da vida, como o descarte correto do lixo de casa e da cantina da escola. Mostramos que o papel de bala jogado na rua vai parar no mar, que o copo de pl\u00e1stico jogado na trilha prejudica os animais, e que, por outro lado, se descartados corretamente, os res\u00edduos podem se tornar trof\u00e9us e pranchas.\u201d<\/p>\n<p>Ao transformar a sua vida, Jefferson segue seu sonho de impactar mais pessoas com sua experi\u00eancia, dedica\u00e7\u00e3o e olhar atento \u00e0 nova gera\u00e7\u00e3o. \u201cA natureza n\u00e3o tem cor, n\u00e3o tem status social e n\u00e3o respeita o CEP. Eu gosto de olhar para ela como um espa\u00e7o acolhedor, transformador e de cura. Se as pessoas soubessem do seu impacto em nossa vida, em todos os sentidos, n\u00e3o se questionariam se deveriam ou n\u00e3o estar. Apenas estariam.\u201d<\/p>\n<h2>O trabalho de Aretha Duarte para inspirar os jovens<\/h2>\n<p><em><strong>\u201cEu acredito muito na ativa\u00e7\u00e3o de um poder que chamo de poder interno bruto, que para mim \u00e9 o potencial de sonhar e realizar. Ativar o potencial que cada um de n\u00f3s tem de conquistar grandes realiza\u00e7\u00f5es\u201d, Aretha Duarte.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com o objetivo de transformar suas realiza\u00e7\u00f5es em resultados coletivos e fazer com que as oportunidades cheguem a mais pessoas, Aretha Duarte, al\u00e9m de apoiar o Favela Radical e o projeto Azimute, da OBB, \u00e9 embaixadora do P\u00e9s Livres, na Tanz\u00e2nia, fundada por brasileiros para atender crian\u00e7as e jovens locais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-favela-radical-obb-foto-albelardo-walsh.webp\" alt=\"Favela Radical, Aretha Duarte e OBB - Foto: Abelardo Walsh\" width=\"1024\" height=\"576\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34228\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-favela-radical-obb-foto-albelardo-walsh.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-favela-radical-obb-foto-albelardo-walsh-300x169.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-favela-radical-obb-foto-albelardo-walsh-768x432.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Aretha Duarte, favela radical e Outward Bound Brasil &#8211; Foto: Abelardo Walsh<\/p>\n<p>Em 2023, a montanhista construiu uma parede de escalada sustent\u00e1vel aberta e gratuita no Parque Linear do Mingone, na regi\u00e3o do Jardim do Capivari, periferia de Campinas, onde nasceu, cresceu e reside at\u00e9 hoje. \u201cAlgumas pessoas n\u00e3o acreditam no seu potencial por falta de oportunidades, estrutura\u00e7\u00e3o, quest\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, educacionais, de sa\u00fade. Mas \u00e0 medida que a gente conduz essas pessoas ao acesso ao esporte ou \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, elas se sentem mais empoderadas, mais pertencentes e em mais condi\u00e7\u00f5es de viver essa vida fant\u00e1stica e cheia de oportunidades, especialmente na natureza. A minha motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 dar oportunidade de acesso.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-duarte-parede-escalada-foto-rosita-belinky.webp\" alt=\"Aretha Duarte e a parede de escalada sustent\u00e1vel em Campinas. Foto: Rosita Berlinky\" width=\"800\" height=\"800\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34231\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-duarte-parede-escalada-foto-rosita-belinky.webp 800w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-duarte-parede-escalada-foto-rosita-belinky-300x300.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-duarte-parede-escalada-foto-rosita-belinky-150x150.webp 150w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/aretha-duarte-parede-escalada-foto-rosita-belinky-768x768.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">Parede de escalada sustent\u00e1vel em Campinas\/SP. Foto: Rosita Belinky<\/p>\n<p>Em 2024, no m\u00eas da Consci\u00eancia Negra, Aretha conduziu, na Tanz\u00e2nia, uma expedi\u00e7\u00e3o exclusiva para pessoas negras, rumo ao Kilimanjaro. \u201cFoi uma proposi\u00e7\u00e3o para possibilitar que pessoas negras do Brasil possam praticar atividades em alta montanha fora do pa\u00eds, justamente porque eu n\u00e3o queria ser a \u00fanica.\u201d<\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o Sankofa \u2013 que significa \u201cretorno \u00e0 ancestralidade\u201d \u2013 era uma oportunidade n\u00e3o somente de praticar a escalada, mas de dar a oportunidade ao grupo de imers\u00e3o na cultura tanzaniana, uma possibilidade de retorno ancestral \u00e0 sua hist\u00f3ria. \u201cNos sentimos \u00e0 vontade, entre irm\u00e3os, enquanto pessoa negra. Entendemos o valor de identidade, de senso de pertencimento, de beleza. Voltamos realizados, engrandecidos e empoderados, tendo orgulho da nossa hist\u00f3ria, de quem somos.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/kilimanjaro-nov-2024-foto-gabriel-tarso.webp\" alt=\"Expedi\u00e7\u00e3o ao Kilimanjaro em 2024 - Foto: Gabriel Tarso\" width=\"1024\" height=\"683\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34234\" srcset=\"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/kilimanjaro-nov-2024-foto-gabriel-tarso.webp 1024w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/kilimanjaro-nov-2024-foto-gabriel-tarso-300x200.webp 300w, https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/06\/kilimanjaro-nov-2024-foto-gabriel-tarso-768x512.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p class=\"imagem-nota\">No Kilimanjaro, em 2024. Foto: Gabriel Tarso.<\/p>\n<p>Ao inspirar e empoderar as pessoas por meio do seu trabalho e pot\u00eancia, Aretha serve de exemplo para que todos fa\u00e7am a sua parte na promo\u00e7\u00e3o da inclus\u00e3o. \u201cA responsabilidade \u00e9 de todos n\u00f3s. Podemos encorajar as pessoas a sempre fomentar essa pr\u00e1tica do montanhismo da maneira que elas puderem, seja conduzindo uma atividade que j\u00e1 conhece, investindo em projetos sociais, comprando uma caneca, uma rifa para ajudar os projetos, colaborando com um financiamento coletivo.\u201d<\/p>\n<p>Aretha frisa que a inclus\u00e3o e a diversidade trazem benef\u00edcios para toda a sociedade. \u201cAssim, ficamos todos conectados para promover um mundo melhor, garantindo um futuro em que os resultados s\u00e3o coletivos. Portanto, gostaria de chamar todo mundo para essa corresponsabilidade. O mundo e a mudan\u00e7a que queremos dependem de todos n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<h3>\u2018Quero levar a escalada para a Vila Ol\u00edmpica\u2019<\/h3>\n<p>Como mensagem final, o guia e montanhista Ariel Silva incentiva que as pessoas pretas acreditem na enorme for\u00e7a que carregam diante da constru\u00e7\u00e3o de suas trajet\u00f3rias e refor\u00e7a que honrar as suas hist\u00f3rias e esfor\u00e7os di\u00e1rios \u00e9 t\u00e3o importante quanto as habilidades t\u00e9cnicas para estar em atividades na natureza.<\/p>\n<p>\u201cQuando eu estou com alguma dificuldade durante a pr\u00e1tica na montanha, eu fecho os olhos e vejo o quanto sou forte por tudo o que passei e que as pessoas da minha comunidade passam. Consigo me enxergar em todas elas. Minha for\u00e7a est\u00e1 nessas imagens: eu enxergo a favela em que nasci e as pessoas que n\u00e3o consigo levar comigo. Essa energia me move e me faz buscar o que eu quero.\u201d<\/p>\n<p>E o que ele deseja \u00e9 grandioso: levar a escalada para a Vila Ol\u00edmpica e formar guias de periferia. Mas diante do desafio financeiro, ele faz o que pode \u2013 e n\u00e3o \u00e9 pouco. Uma vez por m\u00eas, Ariel ministra um curso de escalada para pessoas da comunidade, al\u00e9m de lev\u00e1-las para a natureza de forma subsidiada dentro dos grupos de clientes que atende.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A montanhista Aretha Duarte ganhou destaque na m\u00eddia em 2021 ao se tornar a primeira mulher negra latino-americana a escalar o Monte Everest. Por tr\u00e1s dessa conquista pessoal desafiadora e grandiosa, Aretha tinha um objetivo: ampliar as oportunidades em atividades na natureza tanto para pessoas negras quanto para mulheres. Criada na periferia de Campinas, Aretha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3586,"featured_media":34238,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1044],"tags":[1710,1709],"class_list":["post-34189","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reflexao","tag-desigualdade","tag-sociedade"],"blocksy_meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3586"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34189"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34244,"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34189\/revisions\/34244"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34238"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/geartips.club\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}