Neste artigo, faremos uma avaliação aprofundada sobre a escolha do tênis para trail running, mas é importante que você conheça todos os itens necessários antes de escolher qual é o modelo ideal para você.
Ao buscar um tênis para trail running, é bem possível que você se perca em meio a tantas opções. O mercado de tênis para a corrida em trilha vem crescendo muito nos últimos anos para atender um público cada vez maior de praticantes e as particularidades de provas disponíveis. Novas tecnologias também são lançadas com frequência por marcas como Salomon, HOKA, Columbia, The North Face, entre outras, que oferecem um leque de opções.
Em meio a tantas variedades, um dos quesitos iniciais para a escolha de um tênis que traga conforto e segurança, deve ser o mesmo em relação a qualquer prática esportiva: o tipo de pisada e a adequação à modalidade. Porém, para a escolha do calçado ideal para trail running, você deve levar em consideração questões mais complexas, como o tipo de terreno e altimetria, além da distância que deseja percorrer.
André Medeiros, atleta e treinador, costuma fazer uma analogia com as corridas de Fórmula 1 para que seus alunos entendam as escolhas que envolvem o tênis ideal para o trail running: “Os carros vão correr na mesma pista, que é igual para todos, e dependendo da temperatura do dia, do clima, cada carro vai se adaptar à situação e utilizar um tipo de pneu. O mesmo acontece com o tênis de corrida. É preciso saber onde ele vai rodar”, explica André.
Considerando esses fatores, portanto, o primeiro passo é se perguntar: qual o meu objetivo? Que tipo de provas de trail running pretendo fazer?
Características das provas de trail running
Três fatores principais que norteiam os treinos e as competições das corridas em trilha:
Tipo de terreno
Durante as provas, você pode percorrer estradas de terra, areia, terrenos técnicos, com muitas pedras, trilhas fechadas, buracos, travessia de rios, além das tradicionais subidas e descidas.
Distância das provas
Assim como o terreno, a distância também deve ser levada em consideração na hora de escolher o tênis. No caso de corridas longas, o amortecimento, por exemplo, é fundamental para garantir conforto e evitar lesões.
Clima e temperatura
É comum que você enfrente terrenos pesados em provas no Brasil, com muita lama ou até mesmo encare chuva durante o percurso, o que pode requerer um tênis com uma aderência melhor para garantir segurança. Em provas fora do país, você pode enfrentar, inclusive, neve no trajeto.
O que levar em consideração na escolha do tênis para trail running
1. Conforto
Tanto nas provas de curta distância quanto longa distância, estar com os pés confortáveis é fundamental para enfrentar os terrenos irregulares característicos das provas de trail running. Nesse quesito, a recomendação é avaliar a malha do tênis, seu cabedal, costuras, além da forma, que pode variar de uma marca para outra.
Virginio, atleta e treinador
André Medeiros costuma fazer as seguintes perguntas para seus alunos: com qual tênis você corre no asfalto? Qual a marca de sua preferência? “Se a pessoa responde que gosta da Nike, por exemplo, se é uma marca que traz conforto para o pé dela, acho que vale a pena buscar os tênis específicos para trail running da Nike, porque o perfil e a geometria não mudam muito”, explica.
Outra característica que deve ser avaliada para garantir conforto é o mesh (malha) do tênis. “Ele deve ser respirável para evitar o superaquecimento do pé, considerando o clima que vivemos no Brasil. É importante avaliar também se a lama e outras sujeiras saem fácil do tênis, evitando ganho de peso. Recentemente, fiz uma prova em Passa Quatro, Minas Gerais, com muita lama. Eu estava com o tênis Vectiv Enduris 3, da The North Face, e a lama saiu todinha quando eu bati o pé. Terminei a prova sem nada grudado no tênis”, conta Rosália Camargo, ultramaratonista. Esse ponto também é observado pela atleta gaúcha Ivania Rambo: “Avalio bastante o tênis na hora de pisar na lama para ver se ela ficará grudada. O objetivo é que ela solte fácil para não prejudicar o nosso desempenho na corrida.”

O tênis também deve ser escolhido para que seja resistente, mas sem machucar dedos e unhas e provocar bolhas. “Tênis muito duros prejudicam os pés. Em descidas muito longas — em algumas provas elas chegam a ter 10 km —, o impacto nos seus dedos na parte da frente do tênis é enorme. Se você não tomar cuidado, pode chegar com os pés destruídos”, alerta Isadora Martins. Segundo a atleta e treinadora, o ideal é avaliar também as costuras dos tênis, assim como o tamanho escolhido. “Uma prova de 50 km, às vezes, pode durar de 10 horas a 14 horas. É muito tempo de exposição, e o seu pé vai inchar. Portanto, você tem de tomar cuidado também para não comprar um tênis no tamanho certinho. É recomendável optar por pares com meio ou até um número maior”, complementa Isadora.
2. Solados com grip
Rosalia Camargo
Um dos principais diferenciais dos tênis de trail running em comparação com os tênis de asfalto são os solados antiderrapantes que contêm uma espécie de garras ou cravos, chamados de grip, que variam de acordo com o tamanho e a altura: o grip mais baixo está presente principalmente em tênis chamados de híbridos, que servem tanto para trilhas quanto terra batida, enquanto o médio é indicado para quem percorre terrenos técnicos. Já os maiores são voltados para terrenos mais severos, com predominância de grandes trajetos enlameados.
Escolher o tênis levando em consideração o grip e o tipo de prova interfere diretamente no desempenho durante as corridas. “Um tênis sem a devida aderência pode levar à falta de confiança de avançar na velocidade, ou à insegurança em uma descida, por exemplo, deixando a corrida mais lenta. O inverso também se aplica: estar com um tênis muito robusto com travas mais altas em provas que não exigem tais características pode tornar a corrida mais travada”, explica Virginio.
A dica de Isadora Martins para as pessoas que participarão de provas bastante procuradas, como a INDOMIT ou La Mission, que têm terrenos mais exigentes, é investir em um tênis com bom grip médio. A treinadora recomenda para os seus alunos o Columbia Feminino Montrail™ Trinity™ FTK, também disponível no modelo masculino: Columbia Masculino Montrail™ Trinity™ FTK.
Isadora faz, ainda, um alerta em relação à escolha dos tênis híbridos, que apresentam grip baixo. “O modelo foi idealizado para ir bem no asfalto e na montanha, porém correr com esses tênis na rua pode prejudicar o grip, o que impactará negativamente a sua corrida em terrenos com muitas pedrinhas soltas, lama etc. Agora, se você gosta de fazer mais provas só de estradão, que não tem terrenos tão técnicos, vale a pena investir em um tênis que seja mais híbrido.”
No Brasil, segundo os atletas, é muito comum a realização de provas com a presença de lama em excesso, após períodos intensos de chuva. Nesses casos, o atleta Chico Santos recomenda os tênis que possuem poucas travas, porém altas, espalhadas pelo solado. “Nos últimos três ou quatro anos, a INDOMIT, que acontece na Pedra do Baú, contou com muita lama. Estar com um tênis adequado, com grip alto, faz toda a diferença. Se você estiver com um tênis de travas baixas, não estará seguro. Onde você pisar, corre o risco de escorregar. Além disso, a força que você fará para se equilibrar e não cair é muito grande, então, o desgaste em uma prova de 50 km pode ser muito grande. Se você tiver com tênis de lama, você vai ganhar entre 15 e 20 minutos em deslocamento”, recomenda Chico, que utiliza atualmente o S/LAB SPEED 2, da Salomon, para enfrentar os terrenos mais severos.
3. Amortecimento
O amortecimento é um forte aliado do conforto, principalmente quando você escolhe provas de longa distância que apresentam terreno com muita pedra e com trechos de asfalto. Ele é responsável por evitar lesões, torções e proteger os pés do excesso de atrito provocado nas corridas de longa duração.
Já no caso de provas mais curtas, segundo o atleta Chico Santos, um tênis mais minimalista pode ter um desempenho melhor. “Quando você busca mais performance em alta velocidade no solo, você tem uma resposta melhor ao usar tênis com amortecimento menor. Atualmente, temos as provas de VK (quilômetro vertical), por exemplo, em que você corre entre 5 e 6 km, com 1 km de subida. Nesse caso, é recomendável um tênis que te responda o mais rápido possível”, explica.
Dica: No site da Hoka, os tênis trazem em sua especificação, a descrição do amortecimento, classificando entre equilibrado, responsivo e macio.
Escolher o tênis de trail running certo é uma forma de evitar lesões
Além das bolhas e quedas de unha pontuadas por Isadora Martins, que podem acontecer com a escolha de um tênis muito duro, é preciso ter atenção ao risco de lesões mais sérias provocadas pela escolha do calçado inadequado.
Quando começou a praticar o trail running, Ivania Rambo optou por utilizar um modelo de tênis com pouco amortecimento, o que lhe rendeu complicações. “No começo, eu achava que tinha que usar um tênis leve para render mais, buscar a melhor performance. Estava focada em pace. Então, participei de uma prova com um tênis bem baixo que me machucou bastante. Ele era levíssimo e eu havia me adaptado bem a ele, mas as lesões começaram a chegar por falta de amortecimento. Passei a fazer fisioterapia duas vezes por semana e nada de melhorar. Então, o fisioterapeuta pediu que eu levasse o meu tênis para ele e me propôs a troca por um modelo mais pesado, com mais amortecimento. Era ele ou mais lesões!”, relembra a atleta.
Já em André Medeiros, as complicações apareceram por não levar em consideração o seu tipo de pisada. “Eu comprei um modelo de tênis que favorece a pisada pronada, sendo que a minha é supinada. Conforme iniciei os treinos pesados, comecei a sentir uma dor muito forte na tíbia. Quando eu fui ver, estava com uma lesão, fratura por estresse.” Assim como no caso de Ivania, a descoberta veio por meio do seu fisioterapeuta. “Ele me propôs trocar de tênis, correr e depois ligar para ele para contar. Mudei para um tênis da Salomon com característica de pisada neutra e nunca mais tive problemas”, alerta André.
Se possível, tenha mais de um par de tênis
Chico Santos
Investir em diversos pares de tênis para trail running, levando em consideração a adequação do tipo de terreno, de prova e o clima, pode não ser acessível para todos, mas a recomendação dos atletas é que façam isso, se possível.
“O ideal é você investir em dois tênis, um muito bom para você fazer as provas e treinos de preparação, e um tênis para bater nos treinos do dia a dia, que pode ter um preço mais acessível. Eu sei que nem todos conseguem, mas acho que essa é uma excelente estratégia, inclusive para não desgastar os tênis de provas”, conta o treinador e atleta André Medeiros.
Outra questão relevante referente ao revezamento dos tênis é a preservação do grip, que pode ser prejudicado se usado com frequência no asfalto. “Eu fiquei uma temporada usando só o tênis de trilha para correr na rua, o que estava acabando com o grip. Então, acho que um cuidado que você tem de ter é deixar o tênis de trilha só para trilha”, conta Isadora Martins. Uma alternativa proposta pela treinadora e atleta é aproveitar os tênis que já foram utilizados em provas e que estão com o grip mais desgastado, porém em boas condições gerais, para usar no asfalto.
Para Virginio, é importante que o praticante de trail running saiba que os tênis se deterioram mais rápido em comparação aos usados em corrida de asfalto. “O ideal é ter um tênis de entrada para quem está chegando, mas pensar também em um modelo de boa qualidade e tecnologia para as provas. Eu uso o S/LAB Ultra 3, da Salomon, que me atende na montanha. É um tênis bastante confortável para mim”, recomenda o atleta.
Rosalia Camargo conta que a estratégia de ter mais de um par de tênis também a ajuda nas provas. “Recentemente, fiz uma prova de 100 milhas em que revezei três tênis da The North Face, dois do modelo Vectiv Enduris 2 e um Vectiv Enduris 3. Gosto de fazer isso em provas longas porque, às vezes, quando o tênis começa a pegar um pouco no dedinho do lado esquerdo, você troca o tênis e muda a área de contato de atrito com os seus pés”, conta.
Conheça os tênis recomendados pelos atletas

Ivania Rambo
Campeã gaúcha de ultramaratona que conquistou as melhores pontuações ITRA (International Trail Running Association) em 2023.
“Para distâncias muito grandes, como no caso das ultramaratonas, temos que priorizar muito o amortecimento e o conforto. Hoje, eu tenho seis pares do mesmo modelo, o Columbia Montrail Trinity FKT, que uso para tudo. Ele consegue aderir a todos os terrenos, segura bem onde tem que segurar.”

Isadora Martins
Ultramaratonista, personal trainer, professora de yoga e treinadora de corrida na assessoria esportiva Projeto SANA. Idealizadora do projeto Elas na Trilha.
“Uso o Columbia Montrail Trinity FKT há anos. Nunca tive uma bolha. Ele me traz o conforto ideal para as corridas. Indico para todos os meus alunos. Ele atende bem as provas mais procuradas.”

Rosalia Camargo
Ultramaratonista, campeã de diversas provas nacionais e internacionais. Autora dos livros Pelas Trilhas e 100 Milhas.
“Em provas de até 50 km, eu uso o Vectiv, da The North Face, com placa de carbono. Ele proporciona velocidade, ao mesmo tempo em que o tecido é ótimo porque não gruda sujeiras, areia, além de ser altamente respirável. Já em provas mais longas, eu uso o Vectiv Enduris 3, que tem mais amortecimento e me traz mais conforto.”

Chico Santos
Atleta de corrida de montanha, com larga experiência em competições de 50 até 130 km, e fundador da CS Experience, voltada ao turismo esportivo.
“Atualmente, estou usando o Tênis Hoka Torrent 2 Masculino, que conta com bom amortecimento. Para provas com lama, eu uso o S/LAB SPEED 2, da Salomon, há bastante tempo, e me sinto seguro com ele. Eu já usei também a marca La Sportiva, que é menos acessível no Brasil. Sua principal característica é a durabilidade. Seus tênis são resistentes em terrenos que possuem muitas pedras e lama.”

Virgínio
Campeão de diversas provas nacionais e internacionais. Especialista em treinamento para corredores de montanha, é diretor técnico da JVM Trail Run.
“Eu vario bastante de tênis conforme os terrenos e outras características de cada prova. Em estrada de terra, eu uso o modelo Trail, da Olympikus; quando ela está molhada, uso o modelo Flow 2, da Salomon. Em trilha técnica seca, o S/LAB – 8, da Salomon, e o Ultra Vertical, da The North Face, quando está molhada. Em trilhas com pedras e estradas, prefiro o S/LAB Ultra 3, da Salomon.”

André Medeiros
Atleta, guia de turismo nacional e gestor da assessoria CamelBak Outdoor Sports.
“A Hoka é a marca que mais utilizei nas últimas provas do UTMB. Ela proporciona para mim, que tenho 50 anos, muito conforto. Seus tênis são visualmente grandes, parecem pesados, mas são muito leves. A marca trabalha com um solado, o Vibram, que traz muita segurança para terrenos com pedras. Destaco os modelos Mafate Speed 4, Speedgoat 5 e Challenger 7. Outra marca que gosto muito é a Altra, famosa na América do Norte e que está crescendo na Europa também. Os tênis possuem uma forma próxima à de nossos pés, que deixa os dedos mais livres. Indico os modelos Timp 5 e Mont Blanc Carbon.”
André destaca, ainda, os modelos Cascadia 17 e Catamount 3, da Brooks; e Gel Trabuco 12 eTrabuco Max, da Asics; além do Fresh Foam X Hierro V8, da New Balance.
Recomendações e dicas práticas para você escolher seus tênis para trail run
Checklist para a escolha do tênis de trail running
- Avalie o conforto e o amortecimento;
- Leve em consideração o seu tipo de pisada;
- Opte por tecidos respiráveis;
- Escolha o grip que atenda ao tipo de terreno e condições climáticas da prova de sua preferência.
Teste o tênis antes de qualquer prova
Os atletas alertam que testar o tênis antes das provas é fundamental para garantir um bom desempenho e tranquilidade durante a corrida. O primeiro passo é comprar os tênis em lojas físicas, e não pela internet. “Perdemos o hábito de fazer isso, mas é fundamental ter uma avaliação mais completa antes da compra”, conta Isadora Martins.
O segundo passo é colocar o tênis para rodar. O tempo de teste pode variar de corredor para corredor. Para Ivania Rambo, por exemplo, são necessários pelo menos 4 ou 5 vezes de uso, em terrenos diferentes. Já Chico Santos, atleta acostumado a correr longas distâncias, gosta de testar o tênis por 50 km ou até 100 km, quando não conhece o modelo, para verificar se ele realmente atende a todas as suas necessidades. “Atualmente, os tênis são muito confortáveis, então, talvez, você não precise dessa quilometragem toda. Mas eu gosto de testar dessa forma para sentir toda a parte expansível do tênis em relação ao que eu quero”, explica.
4 dicas para conservar seus tênis de trail running
Correr em trilhas com pedras, raízes e outras interferências da natureza provoca um desgaste maior no tênis do que a corrida no asfalto, mas alguns cuidados essenciais ajudam a preservar os calçados. Confira 4 dicas:
1. Não lave os tênis em máquinas de lavar
Apesar de parecer mais prático, lavar os tênis em máquinas de lavar pode danificar o calçado e diminuir sua vida útil. Opte por lavar à mão, com sabão neutro.
2. Avalie se está no momento certo de lavar os seus tênis
O principal objetivo de lavar os tênis é extrair o suor, que prejudica os calçados, além de tirar algumas sujeiras acumuladas. Mas é importante avaliar, após cada treino, se é necessário expor os tênis à água. “Durante a semana, eu faço uma boa limpeza no tênis, sem encharcá-lo. Aos finais de semana, após treinos longos, eu lavo por dentro e por fora, com água e detergente”, conta Ivania Rambo.
3. Escolha um local arejado para guardar os tênis
Os tênis precisam respirar para evitar fungos e bactérias. Portanto, evite guardá-los dentro de caixas ou armários. Após a lavagem, os tênis também devem ser secos ao ar livre, mas evite deixá-los expostos ao sol por muito tempo.
4. Aproveite o banho pós treino ou prova para lavar os tênis
“Quando acabo uma prova, eu levo os tênis para o chuveiro, tiro a palmilha e esfrego com um escovão”, conta Rosalia Camargo.
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