Adventure Sports Fair: a feira que abriu as portas para o mercado outdoor no Brasil

Quem é das antigas no universo de atividades na natureza, certamente sente certa nostalgia ao lembrar-se da Adventure Sports Fair. A maior feira de esportes e turismo de aventura da América Latina – para não dizer do mundo! – estreou em 1999. Já em sua primeira edição, reuniu mais de 40 mil pessoas na Bienal de São Paulo, uma surpresa para Sergio Franco, um dos idealizadores do evento, hoje com 74 anos.

O objetivo do profissional e de seu sócio, amigo e xará Sergio Bernardes, que já trabalhavam na área de feiras e eventos, era promover o encontro de pequenas tribos que até então eram dissipadas. Porém, eles deixaram um legado muito maior: inauguraram e organizaram o mercado outdoor no Brasil.

A ideia nasceu após descobrirem, em 1997, por meio de uma pesquisa, uma tendência mundial: a valorização da vida ao ar livre. Sergio Franco identificou que essa era uma oportunidade não somente para o mercado de turismo, mas para toda a cadeia do segmento outdoor:

“Muitas empresas já utilizavam o espírito de aventura para vender produtos, como a The North Face. Os mercados de bike e 4×4 começavam a crescer, assim como a atividade de rafting, entre outras, que se fortalecia com diversas empresas espalhadas. Apesar disso, as pessoas do mercado de ecoturismo e de equipamentos não se conheciam. O mercado era pequeno, mas enxergamos que tinha potencial.”

Um dos primeiros entusiastas a abraçar a ideia foi Amyr Klink, personalidade frequente na feira. Acionado ainda em 1997, quando a ideia da feira ainda estava no papel, o navegador brasileiro ficou encantado com a possibilidade de expor seu barco e compartilhar suas histórias. Junto a ele, ao longo dos anos, outros profissionais de diversos ramos e entusiastas também puderam realizar sonhos.

Balonismo na Adventure Sports Fair

Primeira feira de experiências do Brasil

Ao longo das 19 edições – interrompidas pela pandemia da COVID-19 – a Adventure Sports Fair trouxe a oportunidade para as empresas falarem pela primeira vez com o grande público, de forma criativa e com ações inusitadas, além de dar visibilidade para que cada grupo enxergasse o outro como parceiro e construíssem juntos o mercado de atividades ao ar livre.

Diferentemente de outras feiras, o evento oferecia experiências para quem sonhava estar na natureza – seja em terra, na água ou no ar – mas nunca teve a oportunidade. Um tanque de mergulho era montado para oferecer aulas, além de pistas para a prática de corrida, bike, esqui e test drive de carros off-road. O espaço também oferecia parede de escalada, circuito de arvorismo e até a possibilidade de fazer um salto simulado de paraquedas. O potencial criativo e de visibilidade da Adventure Sports Fair era algo nunca visto, até então, no país.

A maior inovação, no entanto, foi proporcionar experiências na neve em pleno território tropical! A partir da ideia e da colaboração de autoridades argentinas, a feira criou uma espécie de “geladeira humana” com gelo proveniente de Perito Moreno, região que sofria com o derretimento provocado pelo aquecimento global.

“Dois caminhões frigoríficos eram transportados de navio para a instalação de uma geladeira gigante, onde as pessoas andavam sobre o gelo. Durante quatro anos, trouxemos 40 toneladas de gelo da Argentina para proporcionar a experiência. Após a feira, ele era derramado no Rio Tietê, em uma ação simbólica realizada pela SOS Mata Atlântica.”

Tanque de mergulho na Adventure Sports Fair

Tanque de mergulho na Adventure Sports Fair

Canoagem na Adventure Sports Fair

Experiência de canoagem na Adventure Sports Fair

Além das experiências, a feira contava com palestras, espaço de exposição de equipamentos, vestuários para esportes de aventura, veículos como barcos, aviões e jipes, e de destinos turísticos. Todas essas atrações reunidas em um único evento tomaram conta da mídia brasileira e internacional ao longo de quase duas décadas. Enquanto canais de televisão faziam coberturas ao vivo, mais de 30 revistas parceiras registravam a repercussão.

A ESPN, por exemplo, fazia uma ampla cobertura, conversando com os melhores atletas e profissionais do ramo. As matérias eram veiculadas na ESPN Brasil em um programa diário chamado EXPN, conforme relembra a jornalista, vereadora da cidade de São Paulo e criadora do Bike é Legal Renata Falzoni, que também mantinha um stand do “Aventuras com Renata Falzoni” na feira:

“Todo esse material, e o bruto que não havia entrado nas pílulas diárias, era editado por mim, como um resumo bem editado, veloz, com o ‘filé do filé’ do que havia rolado na feira, aproveitando também, imagem dos próprios montanhistas e atletas, quando o assunto era ‘o que cada um estaria aprontando mundo afora’”.

Tamanho burburinho, além de atrair entusiastas e profissionais de atividades ao ar livre, chamou a atenção de outros países, extrapolando o objetivo inicial de promover um encontro nacional. Sergio foi sondado para realizar edições em países como Espanha e China. “A gente falava que era a maior feira de esporte e turismo de aventura da América Latina, porque tinha vergonha de falar que era do mundo. Mas não existia nenhum evento igual.”

Marcos da Adventure Sports Fair para o mercado de atividades ao ar livre

A Adventure Sports Fair manteve seu sucesso ao longo dos anos, reunindo cada vez mais profissionais e praticantes de variadas atividades ao ar livre. Além de fazer as empresas de turismo, equipamentos e outros segmentos se enxergarem como parte de um mercado único que estava nascendo, a feira atraiu outras organizações que começaram a visualizar um mercado potencial.

Off-road na Adventure Sports Fair

Off-road na Adventure Sports Fair

5 marcos apontados por Sergio Franco durante as 19 edições:

1. Visibilidade para as corridas de aventura e outras modalidades: incipientes na época, as corridas de aventura, assim como outras atividades, ganharam força nas edições da Adventure Sports Fair. Os organizadores começaram a enxergar a feira como uma oportunidade para divulgar os esportes e atrair o grande público, saindo de um nicho pequeno para conquistar novos praticantes que olhavam as modalidades de longe e não imaginavam que fossem para eles.

“A Adventure Sports Fair começa no momento super sincronizado com o início das corridas de aventura no Brasil, no final do século passado, com o boom desse tipo de esporte outdoor. A feira consegue, principalmente no começo, trazer um cenário bastante diverso de atividades de montanha”, conta Renata Falzoni.

2. Criação de associações como a Aliança Bike: o crescimento do mercado de bicicletas reforçado pela feira motivou a criação da Aliança Bike, unindo os fabricantes de bicicletas. Durante as edições, outras associações foram criadas.

3. Abertura e profissionalização do mercado de turismo de aventura: a visão de que o Brasil era um destino propício e farto para a prática dos esportes de aventura despertou a criação de sonhos na cabeça das pessoas e fez com que elas se unissem. Na Adventure Sports Fair, a ABETA (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura) começou a ser idealizada para pensar o futuro do mercado e as possibilidades para o seu crescimento, assim como o projeto Aventura Segura, que criou normas de segurança com alcance internacional, desenvolvido pela ABETA em parceria com o Ministério do Turismo e o Sebrae Nacional, em 2006.

Para Renata, esse foi um dos grandes marcos da feira para o mercado outdoor: “Um efeito colateral maravilhoso e super importante nascido dentro da Adventure Sports Fair é a Abeta Summit, o encontro de operadores de esportes de ecoturismo e turismo de aventura. O encontro ganhou força, mudou o mercado, normatizou a atividade, e colocou uma ordem na exploração do ecoturismo como um todo no Brasil.”

4. Promoção de novos destinos: em uma época em que Bariloche era o principal destino de turismo de aventura dos brasileiros, a Adventure Sports Fair trouxe visibilidade para locais como Ushuaia, Salta e Mendoza, o que aumentou consideravelmente a presença de brasileiros na Argentina. O mesmo aconteceu com destinos chilenos.

“Tivemos o papel de integrar os países sul-americanos e vendê-los como um destino turístico único, como quem vai para a Europa e visita vários países. Um grande marco foi quando, juntos com o Chile, Argentina, Peru e Bolívia, fizemos um estande único representando a América do Sul nas feiras internacionais. Hoje, o Brasil é considerado um destino importante nesse cenário de turismo de aventura.”

5. Lançamento da primeira linha de aventura da Fiat: ao idealizar a feira, Sergio conversou com os executivos da Fiat sobre a possibilidade de desenvolver um carro com espírito de aventura. O Palio Weekend Adventure foi lançado durante a Adventure Sports Fair e incentivou que outras montadoras seguissem o mesmo caminho, trazendo o espírito de aventura para o cotidiano das pessoas.

Além das recordações de Sergio, a feira teve um papel importante no lançamento e fortalecimento de marcas de atividades ao ar livre. Foi durante a Adventure Sports Fair que a deuter foi lançada no Brasil. Pedro Lacaz Amaral, CEO do Gear Tips, que representava a marca no país ao lado de Kiko Araújo, relembra esse momento:

“Participamos da feira pela primeira vez em 2002. Foi o grande lançamento da marca. Apesar de ter mais de 100 anos na época, a deuter era muito pouco conhecida no Brasil. Kiko e eu havíamos começado a importar e distribuir a marca havia menos de um ano, e vimos na feira uma oportunidade de mostrar os produtos inovadores para o mercado brasileiro, tanto para lojistas quanto para o consumidor final. Foi um sucesso!”

deuter na Adventure Sports Fair em 2002

Estande da deuter na Adventure Sports Fair 2002

Oportunidade para todos

Outro marco importante foi pensar a acessibilidade no turismo de aventura, em um momento em que o mercado não estava preparado para receber alguém com qualquer tipo de deficiência e problemas de mobilidade.

A Adventure Sports Fair era totalmente acessível e todos conseguiam participar das atividades propostas pela feira. Em um depoimento marcante que Sergio se recorda até hoje, um tetraplégico contou que o evento mudou a sua vida. Ele passou a vivenciar experiências adaptadas de rafting, em Socorro (SP), cavalgada especial e rapel com cadeira de rodas.

A fala despertou um olhar sensível em Sergio e seu irmão, José Fernandes, fundador da Rede de Sonhos, composta por cinco hotéis na natureza. Juntos, eles começaram a desenvolver no Parque dos Sonhos atividades de aventura, como o rafting, cavalgada, tirolesa e rapel.

Meio ambiente: primeira feira sustentável do Brasil

A feira também teve um papel importante de ressaltar, por meio de experiências e ações, a importância do cuidado com o meio ambiente, em uma época em que começava a surgir a preocupação com a sustentabilidade.

A Adventure Sports Fair foi a primeira feira sustentável brasileira. Na época, calculava-se, segundo Sergio, a sobra média de 20 toneladas de lixo em montagens e desmontagens de eventos. Mais uma vez, a criatividade foi colocada em prática.

“Tivemos a oportunidade de nos conectar com o Mario Mantovani, que atuava na SOS Mata Atlântica, e enxergou na feira uma oportunidade para falar sobre meio ambiente de forma lúdica e educativa. Paula Arantes, empenhada na questão da reciclagem de lixo, sugeriu que a feira se tornasse um espaço sustentável. Montamos no centro do espaço de exposição uma área onde todo o lixo era prensado e transformado em obras de arte. Depois disso, surgiu uma lei municipal estabelecendo que todas as feiras fossem mais sustentáveis.”

A construção de um legado que atravessa gerações

Aos 74 anos, Sergio Franco continua trabalhando com seu irmão na rede de hotéis, envolvido com as atividades na natureza. Com uma história valiosa no mercado de atividades ao ar livre, ao olhar para sua trajetória, ele se emociona:

“O meu maior mérito foi permitir que as ideias desses sonhadores pudessem ter um espaço para discussão e para se mostrar. Quando eu olho para o passado, eu não me sinto o dono da feira, porque ela foi feita da junção de um monte de sonhos. Foi muito maior do que imaginei e muito mais emocionante. Quando você acredita que é possível, vai para a frente.”

Hoje, sua reflexão gira em torno da importância do mercado para a geração de jovens, em uma época em que as telas tomaram conta de suas vidas. Ele compartilha essa preocupação com todos os profissionais de atividades ao ar livre:

“Me assusto ao ouvir os jovens dizerem que suas vidas são uma aventura que acontece no computador. É claro que o mundo também evolui pelas contradições, mas isso, em algum momento, vai gerar a necessidade de um retorno à natureza. Me pergunto: qual é o meu papel nesse processo? Todos nós temos que nos perguntar. As atividades na natureza terão uma importância ainda maior no futuro.”

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Isabelle de Paula

Isabelle de Paula é jornalista, sócia-fundadora da DePaula Comunicação. Apaixonada por ouvir e contar histórias, atua como ghostwriter, escrevendo livros e conteúdos para diversas plataformas, e assessora de imprensa, propagando narrativas e trajetórias de pessoas, marcas e empresas. Parceira do Gear Tips, assina projetos especiais e ajuda a empresa a ganhar visibilidade na mídia.

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