Imagine que você está caminhando em um ambiente natural. De um lado, você avista uma plantação tradicional de café ou soja. Do outro, predomina o verde da floresta e cores diversas de tomate, banana, mandioca, milho e mamão.
A biodiversidade é uma das características da agrofloresta, mas não a única. Diferentemente da agricultura tradicional, baseada no monocultivo e dependente de agrotóxicos e insumos externos, a agrofloresta promove a harmonia na natureza, criando um sistema mais equilibrado ao integrar a produção de alimentos ao plantio de árvores.
Angélica Martins Facirolli e Anderson Arcanjoleto, de Franca, interior de São Paulo, nunca haviam plantado até 2014, quando conheceram a agrofloresta. Começaram em uma horta urbana e plantaram em áreas de amigos até conquistarem seu espaço próprio, o Sítio Santa Terra, em 2017.
Hoje, a antiga área de pasto conta com 30.000 árvores plantadas por eles e mais de 70 espécies comercializadas em cestas. Entre elas, café, mandioca, alface, ervas, gengibre, inhame, banana, mamão, limão, gergelim, quiabo, jiló, berinjela, amendoim e framboesa.

Angélica e Anderson do Sítio Santa Terra. Foto: Amanda Fortes
Ao adotar a agrofloresta, seja cultivando seus próprios alimentos ou escolhendo consumir de quem produz, somos beneficiados com diversidade alimentar, saúde e ainda colaboramos com a conservação do meio ambiente.
A importância da floresta para a agricultura
A agrofloresta promove uma mudança profunda na forma de compreender o funcionamento do solo e de promover vida. Enquanto o avanço dos monocultivos tem levado à perda de fertilidade, energia e vida no solo, a agrofloresta promove a regeneração, o aumento da biodiversidade e a melhora da infiltração de água. Dessa forma, contribui para o combate à crise climática, à fome e para uma alimentação mais saudável, livre de agrotóxicos.
Em um solo fértil, diversas plantas são cultivadas em conjunto, em um processo chamado de consórcio, e se organizam dentro do conceito de estratificação, por “andares” de luz e ciclos de vida, possibilitando que em uma mesma área, banana, café, ipê, outras frutas e flores coabitem juntas, trocando energia e nutrientes.

Projeto de consultoria do Sítio da Mangueiras

Projeto de consultoria do Sítio da Mangueiras

Projeto de consultoria do Sítio da Mangueiras
Segundo João Victor Borsari, técnico agroflorestal do Sítio das Mangueiras, as florestas conseguem equilibrar a umidade, a retenção de água no ecossistema e a troca de energia. “A partir do momento que praticamos uma agricultura que preserva isso, geramos impactos positivos no planeta”, explica.
Namastê Messerschmidt, especialista em agrofloresta, com mais de 20 anos de experiência, define a agrofloresta como a estratégia da natureza. “Ela cria matéria orgânica, organiza diferentes estratos e mantém o ecossistema em equilíbrio. Assim como os órgãos do nosso corpo funcionam de forma integrada, as plantas também interagem continuamente entre si.”
Baixa dependência de insumos externos
A árvore, com suas raízes profundas, acessa nutrientes em camadas mais baixas do solo e produz matéria orgânica de alta qualidade. Enquanto a agricultura convencional recorre à ureia para acelerar o crescimento das plantas, a agrofloresta aproveita a abundância de nitrogênio — cerca de 78% do ar que respiramos é composto por esse elemento — por meio de processos naturais. As leguminosas, por exemplo, estabelecem uma relação de simbiose com bactérias, fixando o nitrogênio e tornando-o disponível para outras espécies, como a bananeira.
O mesmo ocorre com o potássio. Enquanto a agricultura convencional depende de insumos como o sulfato de potássio, a agrofloresta utiliza espécies que reciclam esse nutriente. A bananeira é um exemplo eficiente nesse processo, assim como as gramíneas, que ajudam a mobilizar o potássio do solo e distribuí-lo entre as plantas.
Sequestro de carbono
O carbono é um dos principais elementos ligados ao efeito estufa. Diferentemente da monocultura, que geralmente não consegue fixar carbono no solo de forma eficiente, o sistema agroflorestal mantém esse processo de captura de maneira contínua. A matéria orgânica proveniente de podas, galhos, folhas e frutos depositados no solo incorpora esse carbono à terra. Com a ciclagem de nutrientes, ele retorna para as plantas, alimentando novamente o sistema e fortalecendo a fertilidade do solo.
Regeneração da água e dos rios
As raízes das árvores exercem um papel importante na dinâmica hídrica do solo. Além de crescerem em direção a áreas com maior disponibilidade de água, elas ajudam a puxar e reter a umidade nas camadas subterrâneas, formando bolsões de água no solo. Quando há córregos ou nascentes próximos, as raízes contribuem para aumentar a infiltração da água da chuva e manter essa umidade mais próxima da superfície.
“Com mais água disponível e um solo regenerado, o ambiente passa a recuperar gradualmente seus fluxos naturais, favorecendo o reaparecimento de rios e nascentes”, explica João.
Proteção contra secas e calor
A presença de árvores cria sombra, reduz a temperatura do solo e diminui a evaporação da água. Esse microclima mais equilibrado aumenta a resiliência do sistema produtivo frente a eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e ondas de calor.
Como começar a agroflorestar
Em seus cursos e nas redes sociais, Namastê incentiva as pessoas a começarem até mesmo em locais pequenos, apostando no avanço de técnicas simples para complexas.

Alimentos produzidos na agroflesta da Namastê
– No pequeno quintal de casa: comece com combinações agroecológicas para seus canteiros, como flores com hortaliças. Não se esqueça de apostar em consórcios, como a integração de tomate, manjericão e tagete, por exemplo.
– Em um apartamento com mínimo de 4 horas de luz solar: plante temperos, hortaliças e frutas, como cebolinha, hortelã, morango, tomate, flores e ervas medicinais. Em uma sacada de apartamento, é possível começar com um vaso de 50×50. “As hortaliças geram resultado rápido. Em 30 dias você colhe rúcula, em 45 dias, alface. Elas também geram aprendizados rápidos”, explica Namastê.
– Em um sítio com espaço para horta: aqui, Namastê recomenda duas possibilidades. Plantar a horta entre as frutíferas enquanto elas crescem ou manter a horta fixa, mas apostar em cerca-viva de flores e plantar frutíferas na proximidade.
– No espaço para agrofloresta: em sintonia com a região, você pode combinar espécies de ciclos, necessidades de luz solar direta e de tempos de vida diferentes. “O ideal é começar com plantas anuais, como arroz, feijão, milho, abóbora, melancia, gergelim e grão-de-bico. Na horta, entram tomate, brócolis, alface e rúcula.”
Livros como Agroflorestando o mundo de facão ao trator e A Arte de Guardar o sol e publicações disponíveis no site Cooperafloresta, ajudam a dar o primeiro passo.
Além disso, é fundamental visitar agroflorestas e conversar com os agricultores. O Sítio Terra de Ganesh, mantido pelo Namastê, e o Sítio Santa Terra, por exemplo, estão abertos para visitação, além de realizar cursos.
A agrofloresta e a promoção do bem-estar social
Um sistema diverso, como o agroflorestal, também reflete diretamente em uma sociedade diversa. Por isso, é importante que a agrofloresta esteja presente em praças, parques urbanos e outras áreas comunitárias.
O coletivo Cangaço Cultural, formado pela associação de moradores da periferia de Araraquara, em São Paulo, mantém, em um espaço cedido pela prefeitura, um sistema agroflorestal com cerca de 1.500 m² de área plantada, que beneficia a comunidade com mais de 50 tipos de frutas, leguminosas, hortaliças e espécies como ipê, jacarandá e jequitibá, bem como biomassa e outros cultivos. Além disso, foram implementadas hortas em 160 casas de moradores locais.
“A agrofloresta tem uma função social muito importante de reabrir a discussão sobre o plantar dentro das periferias. É muito comum ver a agroecologia sendo debatida em espaços rurais ou por pessoas em melhores condições financeiras. Nossa inquietação é trazer esse debate relacionado à questão da fome e da insegurança alimentar. É difícil vender um sonho, mas estamos mostrando que é possível”, conta Flavio Rodrigues.
Sistema agroflorestal no Centro de Treinamentos Gear Tips
A partir de julho, os participantes de alguns treinamentos do Programa CAPACITAR Gear Tips terão acesso a um sistema agroflorestal que está sendo implementado para promover alimentação saudável e educação ambiental.
Instalada na centenária Fazenda da Glória, na Serra da Bocaina, em Arapeí (SP), a agrofloresta está em fase inicial e foi planejada para produzir alimentos, ampliar a biodiversidade, regenerar o solo e fortalecer uma relação mais próxima com a natureza.
No Sistema Agroflorestal (SAF) em desenvolvimento, já foram plantados hortaliças, abacate, figo, ora-pro-nóbis, banana, araucária, cacau, cambuci, feijão e diversas outras espécies. A Fazenda já cultiva amora, caqui, limão e tangerina.


Agrofloresta no Centro de Treinamento Gear Tips
Na agenda de cursos, já estão programados Orientação e Navegação em Ambiente de Montanha (CONAM), nos dias 29 e 30 de agosto, e Leave No Trace – Instrutor Nível 1 nos dias 01 e 02 de setembro.
