A urgência de promover conexões de crianças e adolescentes com a natureza

Quais lembranças afetivas você carrega da sua infância? Para muitos adultos, a conexão com a natureza faz parte dessas memórias. Desde o brincar ao ar livre, da sensação de subir em uma árvore pela primeira vez, até dezenas de atividades com elementos naturais. Experiências que, infelizmente, estão cada vez mais extintas, afastando os jovens da natureza e dificultando que eles construam lembranças assim.

A substituição de experiências na natureza pelo emparedamento e pelo uso excessivo de telas gerou uma transformação radical no estilo de vida de crianças e adolescentes. Segundo a ONG Children and Nature, jovens inseridos em contextos urbanos assistem a mais de cinco horas de TV por dia e passam 90% do tempo em ambientes fechados. O tempo gasto com o brincar fora de casa é de apenas uma hora por semana.

Para Maria Isabel Barros, especialista em infâncias e natureza no Instituto Alana, o emparedamento interrompeu um processo natural de desenvolvimento. “Esse confinamento ao qual as crianças estão submetidas é muito recente e tem impactos graves na sua saúde e no desenvolvimento integral das pessoas. Nós, como espécies, evoluímos do lado de fora, não apenas brincando, mas convivendo com as áreas naturais. Essa necessidade está no nosso DNA”, explica.

Marina Mello, pedagoga, sócia do Colégio Ética São Carlos, no interior de São Paulo, e coordenadora de programas escolares da Outward Bound Brasil (OBB), ressalta a urgência de resgatarmos o senso de pertencimento como agentes da natureza. “Precisamos compreender que a natureza não é um recurso, a natureza somos nós.”

Crianças na natureza durante o Programa OBB Kids. Foto: Outward Bound Brasil
Crianças na natureza durante o Programa OBB Kids. Foto: Outward Bound Brasil

Como a desconexão com a natureza afeta crianças e adolescentes

Os impactos profundos do afastamento na natureza para a saúde física, emocional e social de crianças e adolescentes levou o jornalista Richard Louv a cunhar o termo Transtorno de Déficit de Natureza, apresentado em seu livro “A última criança na natureza”.

Entre os malefícios dessa desconexão estão o sedentarismo, o aumento de ansiedade e depressão, além do atraso no desenvolvimento cognitivo e emocional.

Impactos físicos do afastamento da natureza

Segundo Maria Isabel, estamos vivendo uma epidemia de miopia nas infâncias, associada a falta de oportunidade de olhar para o horizonte. Um terço das crianças brasileiras estão com sobrepeso ou já são consideradas obesas. “O esporte não é a única forma das crianças praticarem atividades físicas. Ao ar livre elas brincam, se movimentam, e isso representa uma forma importante de estarem saudáveis.”

Outro problema físico acarretado pelo uso excessivo de telas diz respeito à interferência na postura de crianças e adolescentes.

Prejuízos cognitivos

As crianças estão mais hiperativas, menos focadas, o que afeta o sono, traz irritabilidade, além de perdas de vínculos sociais, já que o brincar do lado de fora é mais criativo.

A psicóloga, neuropsicóloga, doutora e mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP Andrea Lorena da Costa Stravogiannis ressalta que o excesso de telas provoca atrasos no desenvolvimento cognitivo, principalmente nas interações sociais das crianças. “Quanto mais tempo se passa nas telas, menos repertório social a criança adquire, por ser uma atividade passiva.”

A aquisição da linguagem e a manutenção do foco atencional, segundo a profissional, também são impactados. “Ficar preso a telas limita o vocabulário das crianças, além de dificultar a leitura de um livro ou a realização de outras atividades que exigem mais concentração”, explica Andrea.

Impactos na saúde mental e no desenvolvimento emocional

A falta de interação com a natureza pode elevar o risco de problemas de saúde mental, incluindo ansiedade e depressão. “A partir dos anos 80, as crianças foram cada vez mais criadas em uma redoma de vidro, se afastando do brincar do lado de fora. A partir de 2010, com todas conectadas aos seus smartphones, a saúde mental ficou bastante prejudicada, trazendo questões como automutilação, depressão e tentativas de suicídios”, conta Andreas Martin, diretor executivo da Outward Bound Brasil (OBB), ONG que faz parte de uma rede mundial de escolas de Aprendizagem Experiencial ao Ar Livre.

A nova – e triste – realidade fez com que a OBB, que chegou ao Brasil em 2000, tivesse de repensar algumas práticas aplicadas em seus programas. “Observamos que não conseguimos mais utilizar distâncias e pesos que praticávamos há 10 anos. Hoje, o vigor físico e a resiliência dos jovens são menores. Eles também estão mais fracos emocionalmente e se frustram rapidamente.”

Benefícios de experiências reais de crianças na natureza

Em seu livro, Richard Louv também argumenta que experiências na natureza são fundamentais para um desenvolvimento saudável, tanto emocional quanto físico.

As atividades mais simples, como brincar na praça com a terra, areia e outros elementos naturais, além de promoverem bem-estar físico e mental, estimulam a criatividade, a imaginação, a integração com outras crianças, e ajudam a evitar casos de ansiedade e depressão.

Criança na natureza durante o Programa OBB Kids. Foto: Outward Bound Brasil
Criança brincando na natureza durante o OBB Kids. Foto: Outward Bound Brasil

“Quando vamos com o nosso corpo para a natureza, o levamos para o ambiente para o qual ele foi desenhado. Os japoneses começaram a estudar, desde a metade dos anos 80, o que acontece fisiologicamente quando passeamos no parque ou vamos para uma floresta. Todos os indicadores de estresse, o nível de cortisol, a pressão sanguínea e a frequência cardíaca diminuem”, conta Andreas, da OBB.

Desenvolvimento de habilidades socioemocionais através das experiências na natureza

As experiências reais e desafiadoras vivenciadas na natureza têm o potencial de despertar o potencial integral de crianças, adolescentes e adultos, e a Outward Bound é uma referência mundial no assunto.

A organização não governamental foi fundada em 1944, está presente em 35 países e atende anualmente cerca de 150 mil pessoas. Seu fundador, Kurt Hahn, foi o pioneiro da educação experiencial, unindo educação e formação para desenvolver os jovens de uma maneira holística. “Ele dizia, já em 1920, que os adolescentes trazem muito mais habilidades e capacidades do que a sociedade os deixa desenvolver”, conta Andreas.

No Brasil, a OBB já atendeu mais de 24 mil pessoas. Na metodologia de ciclo de aprendizagem experiencial, o ponto de partida é a experiência na natureza. Primeiro, vem a prova, depois vem a teoria. “Explicamos o que precisa ser feito, e deixamos as crianças e jovens fazerem. Haverá erros, acertos e testes até dar certo. A educação experiencial, na minha opinião, é poderosa justamente porque você está imerso nessa experiência. Se você consegue atrelar emoções ao aprendizado, ele acontece mais rápido e de forma mais profunda”, explica Andreas.

Crianças fazendo trilha. Foto: Outward Bound Brasil

Nos programas da OBB, após as experiências desafiadoras na natureza, que ajudam a desenvolver habilidades interpessoais, há o momento de reflexão com base nos fatos e nas emoções. “Se nós trabalhamos bem em equipe e nos comunicamos bem, agora isso é um fato, conseguimos fazer isso. Como podemos levar essa experiência para a escola, para o ambiente de trabalho, para a comunidade e para dentro da família?”

Marina Mello, coordenadora de programas escolares da OBB, explica que a partir da metodologia de aprendizagem experiencial, é mais fácil compreender as emoções. “Depois de ajudar uma amiga que estava em pânico durante alguma atividade na natureza, se conectando a ela, a criança entende o que é compaixão e empatia. Ela consegue, inclusive, apontar no corpo onde sentiu essa emoção, assim como o medo e a raiva. A vivência do corpo vem antes da compreensão.”

Para a pedagoga, estar na natureza é um facilitador para trabalhar com as habilidades socioemocionais, o que às vezes é difícil na escola, por conta de regras e falta de tempo. “A natureza nos protege do tempo urbano, ela cria uma bolha. Ali, nada mais importa a não ser aquilo que eu estou fazendo naquele momento. As vivências são reais: sinto medo ao ver uma montanha, acho que não consigo subir e, quando eu chego lá no alto, descubro que eu era capaz. A natureza te dá esses feedbacks sozinha.”

Aumento da autonomia e reforço do vínculo familiar

Durante o programa OBB Kids, voltado para famílias com crianças de 3 a 6 anos, os pais são naturalmente estimulados a refletir sobre como a privação de experiências ao ar livre impacta o desenvolvimento das crianças. “No primeiro dia, eles ficam bem próximos, zelando pelos filhos na trilha. No segundo dia, as crianças já ficam mais soltas porque os próprios pais estão mais relaxados. Elas fazem um acqua trekking, caminhando em um riacho com água que pode chegar à cintura”, conta Andreas.

O experimentar livre muda a percepção dos pais sobre a capacidade de seus filhos. “Eles entendem que em vez de falar para as crianças o que precisa ser feito, podem deixá-las experienciar, dando suporte quando necessário, e encorajando-as a tentar diante dos obstáculos. No momento do brincar livre, são as crianças que decidem o que querem fazer, exercendo a autonomia.”

Eric Fonseca e sua filha Luiza, de 6 anos, participaram do OBB Kids. O objetivo do pai era atender ao desejo da filha de acampar, mas a imersão no programa superou as suas expectativas. “Em pouco tempo de interação com as outras crianças e com a natureza, Luiza já estava confortável, querendo explorar o ambiente. Ao avistar um cipó, ela não só quis experimentar, como mostrou a descoberta para as outras crianças, que formaram fila para se pendurar nele.”

Em outro momento impactante, Eric viu a insegurança de Luiza se transformar em prazer. “Tínhamos que cruzar um pequeno trecho de rio. Após a desconfiança inicial, ela sorria, gritava, pulava na água, transmitindo a mensagem de que estava segura, mas acima de tudo, se sentia à vontade de estar ali.”

Eric também ressalta o vínculo intenso criado com a filha durante a experiência, além da percepção de ganho de autonomia ao vê-la ajudar a montar a barraca, desbravar a trilha e a explorar a fogueira. “Fiquei observando de longe ela interagir com a fogueira, colocando mais madeira e descobrindo que a pedra apaga o fogo. Quando voltamos do acampamento, Luiza já estava liderando a construção de uma fogueira com as primas.”

Eric e Luiza no OBB Kids
Eric e Luiza
Crianças e adultos no programa OBB Kids
Crianças e pais no OBB Kids

Andreas explica que em outro programa, o Pais & Filhos, voltado para famílias com filhas e filhos entre 7 e 14 anos, apenas as crianças e os adolescentes recebem ensinamentos sobre técnicas de orientação e navegação. “Desta forma, invertemos os papéis de quem guia quem. Fazemos a mesma coisa com a preparação de alimentos: os filhos preparam para os pais.”

A inversão de papéis desperta a percepção dos pais de que é possível delegar tarefas, dando mais autonomia aos filhos e deixando que eles experimentem livremente. “As reações são surpreendentes quando os pais veem os filhos caminhando no meio do mato, superando os desafios, cozinhando, carregando peso. Se eles estão tirando de letra com recursos escassos, imagina o quanto isso impacta na volta para o ambiente urbano?”, conta Andreas.

Adolescentes aprendendo técnicas de orientação e navegação  com mapa e bússola. Foto: OBB
Adolescentes aprendendo técnicas de orientação e navegação com mapa e bússola. Foto: OBB

Consciência ambiental das crianças e adolescentes através do vínculo com a natureza

Uma questão de extrema importância destacada por Maria Isabel, do Instituto Alana, proveniente de uma infância ao ar livre, é o vínculo afetivo que as crianças formam com a natureza e com as áreas abertas. “As pesquisas mostram claramente que elas carregam por toda a vida um comportamento em prol da conservação da natureza e dos ambientes naturais. Diante das crises socioambientais, precisamos fomentar esse tipo de vínculo. Nós só preservamos aquilo que conhecemos, e só conhecemos vivendo, experienciando no corpo.”

Marina Mello compartilha da mesma opinião: “Temos uma cegueira da natureza. Antes, eu olhava a floresta e via somente uma floresta. Com essas experiências, aprendemos e enxergamos coisas que sempre estiveram ali, mas que não tínhamos capacidade de enxergar. Isso traz um cuidado diferente, que automaticamente será transferido para a nossa vida diária.”

Uma experiência que impacta os participantes dos programas da OBB é o despertar da consciência sobre a quantidade de lixo que acumulamos. “Uma coisa é a gente ver fotos de lixão nos livros didáticos, outra é ter de carregar o próprio lixo durante as expedições. Na natureza, os jovens aprendem a reduzi-lo, a tratá-lo de maneira adequada, limpar e secar o lixo contaminado antes de ir para a reciclagem, além de compactar aquele que será carregado até o fim da viagem”, conta Marina.

Crianças aprendendo sobre a gestão do lixo na natureza. Foto: OBB

Conheça os programas da OBB

São diversos os programas oferecidos pela OBB, mas o objetivo é sempre o mesmo: despertar o potencial das pessoas através de experiências desafiadoras na natureza e fazê-las se enxergarem de uma maneira diferente: “Um dos maiores fatores limitantes no desenvolvimento de uma pessoa é a falta de crença em si mesmo. Quando você vira essa chave, você entra num ciclo virtuoso de desenvolvimento”, conta Andreas Martins.

OBB Kids: voltado para famílias com crianças de 3 a 6 anos. O programa promove uma experiência de acampamento de fim de semana em uma linda floresta a apenas uma hora de São Paulo.

Pais & Filhos: experiência de acampamento para famílias com filhas e filhos entre 7 e 14 anos na belíssima natureza brasileira.

OBB GO!: desenhado para pré-adolescentes entre 11 e 14 anos, o GO! é uma introdução segura e divertida ao universo do aprendizado experiencial ao ar livre. “São 5 dias durante as férias, com diferentes modalidades: escalada, trekking, canionismo e canoagem”, conta Andreas.

Desafio OBB: focado em jovens de 15 a 18 anos, o Desafio OBB é um convite ousado e certeiro para mergulhar no mundo do aprendizado experiencial. São 10 dias na Serra do Papagaio.

A OBB também oferece programas exclusivos para adultos, além de projetos voltados para empresas, escolas e ONGs. Assinantes do Gear Tips Club têm descontos exclusivos nos programas da OBB.

Outros programas que levam bebês e crianças para experiências na natureza

Quando o exemplo vem de casa, os filhos são acostumados a conviver desde cedo com a natureza, o que inspira outras famílias a trilharem o mesmo caminho. Conheça três iniciativas que transformaram experiências pessoais na natureza em oportunidades transformadoras para as famílias.

Natureza de Criança: programas feitos à mão em lugares de extrema beleza natural do Brasil

Isabela Abreu uniu sua vivência na natureza com suas experiências profissionais e com a maternidade para fundar o Natureza de Criança. Seu propósito é auxiliar famílias com crianças a vivenciarem experiências memoráveis em lugares de extrema beleza natural do Brasil, como Amazônia e Maranhão, por exemplo.

Ao longo de sua trajetória profissional, Isabela trabalhou em uma agência de turismo de luxo, levando pessoas a lugares remotos no Brasil, e se formou como instrutora da OBB, onde ajudou também a criar o programa OBB Kids, após o nascimento de sua filha, Clara, em 2011.

“O universo ao ar livre sempre me pertenceu e eu queria que ele fizesse parte da vida da Clara também. Queria que a minha filha vivesse o que eu já vivia na natureza: acampar, brincar, remar. Fui criando oportunidades para que ela vivesse histórias e chamando amigos para fazer isso junto, o que acabou tomando corpo e gerou grande boca a boca.”

Socialização com a comunidade local

Todos os roteiros são desenvolvidos pela própria Isabela, que já frequenta os destinos há mais de 20 anos, o que proporcionou a criação de histórias de afeto com a comunidade local. “No Natureza de Criança, reunimos um grupo de crianças e adultos que vivenciam juntos o contato com pessoas em locais remotos. É uma experiência única.”

Um dos programas oferecidos na Amazônia é uma viagem de turismo de base comunitária realizada na Comunidade do Tumbira. “Reunimos famílias que têm o desejo de tirar as crianças da bolha, tanto da cidade grande quanto do seu dia a dia, com uma série de atividades com crianças locais, como das comunidades ribeirinhas.” A mesma proposta é aplicada no Maranhão, em Santo Amaro do Maranhão.

Foto: Natureza de Criança
Foto: Natureza de Criança

“Não viajamos somente para ver a beleza da natureza. Valorizamos a beleza das pessoas de forma muito genuína. Na Amazônia, ficamos em uma pousada simples. No Maranhão, fazemos uma noite em rede no meio do Parque Nacional. Esses fatores proporcionam a reunião de famílias que têm afinidade com esse estilo de viagem.”

Para Isabela, sair da bolha faz a criança entender que o Brasil é muito maior do que a cidade grande, a rotina escolar. A relação com a comunidade local fomenta valores do que realmente é importante. “Temos a oportunidade de ver que aquela comunidade é simples, mora em uma casa de tijolo de bloco aparente, e isso também é bom. Não precisamos ter tudo para estar bem. As pessoas ficam muito mexidas. Não é um turismo só para ver e, sim para viver.”

Experiências manuais e sensoriais na natureza

Por ser uma mãe Waldorf, Isabela sempre fez trabalhos manuais e aprendeu a importância dessa experiência para o desenvolvimento cognitivo da criança. Hoje, todos os programas do Natureza de Criança envolvem algum tipo de manualidade com elementos naturais, como a construção de barquinhos e quadro da natureza.

Oficina de Barquinho - Foto: Natureza de Criança
Foto: Natureza de Criança

Outro diferencial dos programas desenvolvidos pelo Natureza de Criança é proporcionar experiências que aguçam todos os sentidos. “Quando estamos na trilha, pedimos para as crianças sentirem a textura das folhas, observarem como cada lado é diferente, abraçar uma árvore e sentir o cheiro do musgo. Não é somente a visão que importa na história da relação da criança com a natureza”, conta Isabela, que também é fundadora de uma ONG voltada para deficientes visuais.

Elementos da natureza. Foto: Natureza de Criança
Foto: Natureza de Criança

Conheça todos os programas do Natureza de Criança, acessando o site deles.

Cria Outdoor: experiências na montanha com bebês e crianças

A Cria Outdoor nasceu organicamente. O casal Marcela e Fernando Tenório Barros já era bastante aventureiro, e as expedições na montanha sempre fizeram parte da vida a dois. Quando se descobriram grávidos da Gabi, decidiram continuar a se aventurar na natureza, fazendo travessias e acampando.

“Passamos a entender que as crianças poderiam estar em qualquer lugar. Fizemos muitas viagens pelo Brasil, até para áreas remotas, e algumas internacionais. Enquanto passávamos por desertos e vilarejos, víamos mães com crianças e casas com roupas infantis estendidas nos varais. A partir dessa observação, levamos a Gabi no canguru durante os seis primeiros meses de vida para travessias e montanhas. Ela foi, inclusive, o primeiro bebê a estar em muitos lugares”, conta Marcela.

Fernando e Marcela, que já compartilhavam suas experiências na natureza no Instagram para amigos e famílias, acabaram chamando a atenção de outras famílias que tinham o mesmo propósito. “Elas queriam fazer montanhismo em nossa companhia para entender a dinâmica de estar nesses lugares com bebês ou com uma criança”, explica Marcela, que hoje tem duas filhas.

Marcela, Fernando e filhas
Fernanda, Marcelo e suas duas filhas

A dupla, então, começou a criar alguns grupos, e incluiu nesta empreitada o engenheiro ambiental Pedro Nogueira, experiente no trabalho com crianças. Assim nasceu oficialmente a Cria Outdoor, em 2022, após a realização de algumas experiências em grupo. “A melhor forma de passar a mensagem de que é possível continuar a se aventurar após a chegada dos filhos era pegando nas mãos das famílias e as levando com a gente. Nos profissionalizamos para seguir esse caminho”, conta Fernando.

Foto: Cria Outdoor
Foto: Cria Outdoor

Desde o início, a Cria Outdoor teve o objetivo de mostrar para as pessoas que o montanhismo em família e a conexão das crianças com a natureza vão além do benefício físico e emocional, gerando ótimas experiências de convivência familiar e relação entre casal. Marcela conta que também recebe depoimentos de muitas mulheres que tiveram a oportunidade de vivenciar um despertar após a maternidade, sentindo-se em plena potência por estarem conectadas à natureza com seus filhos.

Sobre os roteiros

A Cria Outdoor trabalha com roteiros tradicionais aos finais de semana e feriados para Ilhabela, Itatiaia e Paraty, e roteiros especiais, como Patagonia Argentina, Monte Roraima, Chapada Diamantina, com duração maior. “São lugares que a gente já conhecia e sabia que tinha o potencial de gerar experiências incríveis para as famílias, mesmo que não sejam lugares tradicionalmente reconhecidos como destino para bebês e crianças”, conta Fernando.

Comunidade para famílias aventureiras

Além da Cria Outdoor, Marcela mantém a comunidade “Lá fora com eles” no WhatsApp que reúne famílias do Brasil todo e até pessoas de outros países. As trocas de mensagens já proporcionaram encontros presenciais. Em um hotel em Itatiaia, 100 pessoas se reuniram, entre crianças, bebês e adultos, o que mostra que a busca pela conexão na natureza é promissora para todas as idades.

Sua Casa é o Mundo: grupo para famílias com mini montanhistas

Ao se conhecerem, Bia Carvalho e Edinho Ramon logo enxergaram duas paixões em comum: o esporte outdoor e o amor pela natureza. Juntos, lançaram o blog Sua Casa é o Mundo para compartilhar suas experiências ao ar livre. Depois, veio o perfil no Instagram. Na sequência, o casal começou a produzir filmes, pesquisas e artigos científicos sobre o desenvolvimento socioemocional por meio do contato com a natureza, e lançaram um livro. “Sempre trouxemos as nossas experiências como forma de incentivo, mostrando que é possível para todos”, conta Bia.

Com a notícia da chegada da Maya, filha do casal, em 2020, Bia e Edinho continuaram suas experiências na natureza, introduzindo a filha neste universo, ainda bebê.

Após apresentarem um trabalho na Jornada Científica de Montanhismo e participarem de uma roda de conversa com famílias sobre a baixa presença de crianças em atividades na natureza, tiveram a ideia de montar um pequeno grupo para levá-las para a montanha. “O Mini Montanhistas surgiu pelo WhatsApp, entre pais e filhos da escola da Maya, e deu muito certo, expandido para outras famílias. A gente percebeu que só faltava um incentivo para as famílias se sentirem confiantes, o que o grupo proporciona”, conta Bia.

Hoje, o grupo Mini Montanhistas conta com cerca de 200 pessoas, e os encontros acontecem, de forma gratuita, uma vez por mês, no Rio de Janeiro, sempre em locais conhecidos pelo casal.

Passeio na Floresta da Tijuca. Foto: Sua Casa é o Mundo

Além dos passeios mensais, o Mini Montanhistas organiza uma viagem por semestre para destinos de montanha. “No último encontro, reunimos 20 famílias no Parque Estadual dos Três Picos, com poucos alojamentos e uma área de camping. Fizemos roda de fogueira, 9 km de trilha, brincamos, cozinhamos. Todos estavam conectados, mas cada um experimentando a sua maneira de estar na natureza. Em um ano, saltamos de 3 para 20 famílias”, comemora Bia.

Famílias no Parque Estadual dos Três Picos
Famílias no Parque Estadual dos Três Picos

No Gear Tips, você encontra uma série de artigos sobre crianças na natureza, escritos por Edinho Ramon. Além disso, no Gear Tips Club Academy, assinantes têm acesso liberado para o curso online Infância Outdoor, desenvolvido por Bia e Edinho, que visa promover a integração da natureza como um espaço de descoberta, capaz de oferecer recursos que contribuem para o desenvolvimento infantil.

Programas de inclusão que conectam crianças e jovens com a natureza

A OBB desenvolve uma série de programas voltados para a população que não tem fácil acesso às áreas verdes, parques nacionais e estaduais. “Existe um potencial enorme de pessoas nas comunidades que só estavam esperando por uma oportunidade para se reconhecerem e, a partir dali, começarem a encarar a vida de uma forma diferente, serem mais ousados, buscarem mais recursos, não desistir rapidamente”, conta Andreas.

Programa Azimute: gratuito e destinado a jovens que se encontram em situação de vulnerabilidade social e/ou econômica. O objetivo é apoiá-los na superação de seus desafios na vida e no trabalho, oferecendo a oportunidade de desenvolver seus projetos, fortalecer suas competências pessoais, sociais, cognitivas e produtivas, inspirando-os a assumirem um papel de agentes de transformação social.

Programa Azimute
Programa Azimute

Projeto Entorno: voltado para jovens do ensino médio que moram em regiões de grande beleza natural, como São Bento do Sapucaí. Eles saem em expedição para reconhecer que trabalhar na natureza também é uma oportunidade de carreira. Jovens que passam pelo entorno têm maior empregabilidade na cidade, contribuindo para evitar a evasão rural que existe nessas pequenas cidades.

Programa Entorno
Programa Entorno

Além disso, a OBB trabalha com um programa em parceria com o Instituto João Clemente, voltado a jovens e adultos com deficiência intelectual. Trata-se de programa estacionário em área controlada para trabalhar a autoestima e independência dessas pessoas.

No Natureza de Criança, Isabela Abreu mantém um programa inclusivo que reúne crianças com e sem deficiência visual. Em um dia de atividades ao ar livre na natureza, em uma reserva na Mata Atlântica, elas trocam experiências, aprendem a remar, tomam banho de rio, fazem trilha na floresta, participam de contação de história e outras atividades lúdicas na natureza.

O programa tem a chancela do Ministério da Cidadania e o apoio da Lei de Incentivo ao Esporte. As experiências acontecem algumas vezes no ano, de acordo com a captação de recursos.

Natureza de Criança - Programa Inclusivo
Programa Inclusivo – Natureza de Criança

O papel das escolas no aprendizado na natureza

Apesar de a família ter um papel fundamental no estímulo do contato de crianças e adolescentes com a natureza, as escolas têm grande responsabilidade de proporcionar essas experiências. “Muitas vezes, responsabilizamos as famílias, mas nós, do Instituto Alana, achamos que é errado colocar o peso apenas nelas. Existem diversos setores que deveriam, e podem atuar nesse desafio, como as escolas”, conta Maria Isabel.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Alana perguntou às famílias onde as crianças vivenciam experiências como subir em árvores, brincar de comidinha com terra e construir uma cabana com galhos. A resposta foi unânime: na escola! “As famílias depositam muito a expectativa de que as crianças vão interagir com outras crianças e ter experiências de brincar na escola, porque quando elas voltam para a casa, é tudo mais difícil. O tempo é escasso, não há contato com outras crianças, nem acesso ao ar livre, e essas experiências precisam ser diárias”, explica Maria Isabel.

Um trabalho importante realizado pelo Instituto Alana é ajudar as escolas a repensarem seus espaços para que sejam mais naturalizados, trazendo mais elementos naturais e atividades desafiantes. “Trabalhamos para naturalizar os pátios escolares, o que beneficia não somente as crianças, mas a própria escola, que precisa se adaptar diante das questões climáticas, como as ondas de calor, que serão cada vez mais frequentes.”

Outro aspecto fundamental para as escolas, segundo Maria Isabel, é repensar as práticas pedagógicas, no desemparedamento das crianças e em rotinas que maximizem o tempo que as crianças passam ao ar livre, adotando, inclusive, praças e parques próximos como espaços dentro da proposta de educação integral.

Para a pedagoga Marina Mello, utilizar os recursos naturais para o desenvolvimento de crianças e jovens é fundamental. “É importante a gente sair somente do acadêmico e cognitivo e entender a vida como uma confluência de muitas coisas em que o cognitivo é só uma delas. Na nossa escola principal, temos pé de jabuticabeira, de manga e muita grama.”

Em Singapura, os programas da Outward Bound fazem parte do Ministério da Educação. O objetivo do governo é fazer com que todos os jovens do ensino médio passem por pelo menos um programa de 5 dias. “Singapura tem uma cultura muito forte de investimento em pessoas, não só na parte acadêmica, mas na parte socioemocional. São atendidos cerca de 50 mil alunos por ano”, conta Andreas.

No Brasil, a OBB atua com programas em escolas e universidades que buscam, por exemplo, melhorar questões como trabalho em equipe, respeito às diferenças e diminuir o nível de ansiedade dos jovens, inserindo-os na natureza. Além disso, a ONG desenvolve projetos voltados para as escolas públicas. Para isso, conta com o investimento de empresas que desejam ajudar a despertar o potencial integral de crianças e jovens.

Quer saber mais sobre a importância da conexão de crianças com a natureza? No Gear Tips Club, temos diversos vídeos com o Andreas Martin, da OBB.

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Isabelle de Paula

Isabelle de Paula é jornalista, sócia-fundadora da DePaula Comunicação. Apaixonada por ouvir e contar histórias, atua como ghostwriter, escrevendo livros e conteúdos para diversas plataformas, e assessora de imprensa, propagando narrativas e trajetórias de pessoas, marcas e empresas. Parceira do Gear Tips, assina projetos especiais e ajuda a empresa a ganhar visibilidade na mídia.

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