Radiocomunicação: serviço acessível amplia a segurança em áreas remotas

Em áreas remotas, ter um meio de comunicação confiável é essencial para lidar com imprevistos e emergências, garantindo apoio rápido, tomada de decisão mais segura e redução de riscos. Bastante populares na Europa e nos Estados Unidos, os radiocomunicadores ainda enfrentam resistência por praticantes de atividades na natureza no Brasil. Entre os principais motivos estão a falta de informação e educação sobre o uso do equipamento e a percepção de alto custo, apesar de já existirem opções acessíveis no mercado.

Ao mesmo tempo, o debate sobre a eficiência de meios alternativos de comunicação em áreas sem sinal de celular vem se intensificando quando o assunto é segurança e redução de riscos, especialmente após casos recentes como os de Roberto Farias, Juliana Martins e tantos outros.

É nesse contexto que se insere o trabalho de Marcio Grassi Salvatti, que desde 2021 atua ao lado de um grupo de colegas radioamadores na conscientização e disseminação de conhecimento sobre o uso correto do rádio entre praticantes de atividades ao ar livre. Em 2025, o grupo lançou o aplicativo Manual do Rádio, um guia de consulta rápida sobre legislação, ética e técnica operacional, com o objetivo de popularizar o serviço de radiocomunicação de uso geral e torná-lo mais acessível a todos.

Marcio Grassi Salvatti

“Criamos grupos de WhatsApp para debater sobre as possibilidades de comunicação em áreas remotas, além do serviço satelital comercial, que pode ser complexo e caro para a maioria das pessoas. Ao nos depararmos com um limbo, descobrimos o radiocomunicador convencional e passamos a investigar e estudar a fundo a radiocomunicação de uso geral, que é mais simples”, conta Marcio.

O profissional atua como coordenador do Serviço de Radiocomunicação da Associação Trilha Transmantiqueira, é sócio honorário da Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão e radioamador diplomado pela Defesa Civil e pela American Radio League (ARRL).

Radiocomunicação - Manual do Rádio

Radiocomunicação de uso geral: a porta de entrada

Quando falamos de radiocomunicação, existem dois tipos de serviços: a radiocomunicação de uso geral e o serviço de radioamador, mais técnico, complexo e burocrático, indicado para quem deseja se especializar.

Para praticantes de atividades na natureza que buscam segurança, a radiocomunicação de uso geral é suficiente, segundo Marcio. Ela não exige habilitação, autorização ou licença, nem conhecimento aprofundado sobre frequências, fator que muitas vezes afasta as pessoas dessa solução. Ainda assim, como qualquer equipamento, o radiocomunicador deve ser estudado e testado antes de ser utilizado em trilhas e ambientes remotos.

A radiocomunicação de uso geral utiliza rádios simples, sem teclado e sem display, de fácil acionamento, com 16 ou 26 canais. Em caso de eventualidades, basta girar o botão para o canal 9, frequência de encontro utilizada para emergências, e seguir o protocolo de áreas remotas disponível no Manual do Rádio, que deve ser estudado com antecedência.

“Nós elegemos o canal 9 na radiocomunicação de uso geral como frequência nacional de chamada (FNC) e de emergência, o que facilita a comunicação de pessoas que não sabem qual canal utilizar. Por enquanto, essa é uma convenção que não consta ainda nas normas da Anatel, mas está em funcionamento. Se você está com o seu rádio em uma área remota e conhece o protocolo, pode acionar o canal 9. As pessoas que receberem a informação sobre o incidente entrarão no mesmo canal e começarão a operar a comunicação.”

Para que isso aconteça de forma mais eficiente, como já destacamos em outras matérias sobre segurança, é fundamental compartilhar o itinerário com familiares, amigos e também com os responsáveis pelo local onde você estará hospedado antes de partir para as trilhas. Essa prática facilita a tomada de decisão e agiliza ações de busca e resgate em caso de necessidade.

O anúncio do serviço de emergência foi comunicado no final de 2024, no e-book Manual do Serviço de Radiocomunicação. Marcio afirma que, desde então, há diversos relatos nas redes sociais de pessoas que utilizam o serviço.

Canal 9 - emergência rediocomunicação
Protocolo de emergências - Radiocomunicação

Quem vai receber a minha comunicação?

Diferentemente do serviço pago disponibilizado pelo SPOT X, por exemplo, que por meio do acionamento do botão SOS envia, via satélite, informações e coordenadas para uma central de resgate especializada, a rede de radiocomunicação de uso geral funciona de forma descentralizada, apoiada por um grupo de radioamadores voluntários. Ao acionar o serviço de emergência, todos os integrantes da rede que recebem o chamado podem se mobilizar.

Marcio explica que no recente caso de Roberto Farias, perdido no Pico Paraná, as buscas poderiam ter sido encurtadas caso ele estivesse portando um radiocomunicador. “O Corpo de Bombeiros foi acionado cerca de duas horas depois, devido à instabilidade do sinal de celular. No entanto, nossos amigos radioamadores estavam na região. Havia mais de dez voluntários ali naquele momento, e o tempo de resposta poderia ter sido significativamente menor.”

Quem deve utilizar o serviço?

Todas as pessoas que frequentam trilhas e montanhas em áreas sem sinal de celular. Segundo Marcio, o serviço de radiocomunicação de uso geral é uma alternativa acessível ao serviço satelital comercial e está disponível gratuitamente para todos.

“O visitante esporádico geralmente não contrata serviços via satélite e não pode ficar no limbo da comunicação em áreas remotas. Hoje, essa é a solução mais viável. Por isso, é importante viralizarmos essa campanha de conscientização. O rádio é prevenção, e precisamos superar esse déficit.”

Além dos praticantes de atividades na natureza, o esforço de Marcio também busca mobilizar parques e equipes de busca e salvamento para a adoção desse padrão de prevenção e socorro em áreas sem cobertura de celular, um movimento que já começa a ganhar força em locais como o Parque Nacional de Itatiaia, no Rio de Janeiro.

Ele destaca ainda que a inclusão da Frequência Nacional de Chamada (FNC) em placas de sinalização de Trilhas de Longo Curso, rampas de voo e áreas de aventura é fundamental para ampliar a segurança dos praticantes. Da mesma forma, a integração de bombeiros e demais órgãos de segurança pública a essa rede é essencial para agilizar o atendimento à população em operações de busca e salvamento.

Por que adotar a radiocomunicação de uso geral

  • Indispensável para a segurança: atua tanto na prevenção quanto no socorro em áreas sem sinal de celular.
  • Simplicidade: equipamento descomplicado, intuitivo, de baixo custo e acessível.
  • Sem burocracia: dispensa licença, habilitação ou autorização. Ainda assim, é fundamental conhecer o Protocolo de Áreas Remotas e o canal 9, a Frequência Nacional de Chamada. O acesso ao aplicativo Manual do Rádio é parte essencial desse processo.
  • Modelos disponíveis: fabricantes como Motorola e Intelbras oferecem modelos simples, como o Motorola Talkabout T110BR, Motorola Talkabout T470, Intelbras RC 3002 G2 e o Intelbras RC 4002. Marcio também destaca o custo-benefício da Aquário, marca brasileira que disponibiliza opções mais acessíveis ao público, como o Rádio Portátil Easy Talk.

Alguns exemplos de rádio que não necessitam licença para uso
Alguns dos rádios mencionados acima (da esqueda para direita: Motorola Talkabout T470, Intelbras RC 4002, Intelbras RC 3002 G2 e Aquário Easy Talk)

E o serviço de radioamador?

Diferente da radiocomunicação de uso geral, o serviço de radioamador é voltado a operadores mais experientes e apaixonados por tecnologia e comunicação via rádio. Ele é frequentemente utilizado por grupos como a Defesa Civil, escoteiros e voluntários em situações de emergência.

  • Perfil: serviço técnico e especializado, também praticado como hobby.
  • Requisitos: exige habilitação e licença da Anatel — o processo inclui prova teórica e prática, como ocorre na obtenção de uma carteira de motorista.
  • Equipamentos: mais potentes e complexos, operam em faixas de frequência distintas das dos rádios de uso geral.
  • Segurança: as exigências regulatórias existem para garantir o uso responsável das frequências e da potência de transmissão.
  • Rede ativa: o aplicativo Manual do Radioamador reúne informações úteis, como uma rede social na qual operadores compartilham e mapeiam repetidoras em todo o país.

Nós apoiamos a campanha de conscientização sobre o uso correto de radiocomunicadores em áreas remotas e convidamos não apenas praticantes de atividades ao ar livre, mas também parques, pousadas, hostels e outros serviços que recebem visitantes em regiões de trilhas para adotar essa iniciativa.

O acesso à informação, a implantação de práticas seguras e a construção de redes de apoio são fundamentais para garantir experiências mais seguras para todos nós.

Segurança é essencial, e recomendamos que você leia também a matéria Como minimizar riscos em atividades na natureza.

Avatar photo
Isabelle de Paula

Isabelle de Paula é jornalista, sócia-fundadora da DePaula Comunicação. Apaixonada por ouvir e contar histórias, atua como ghostwriter, escrevendo livros e conteúdos para diversas plataformas, e assessora de imprensa, propagando narrativas e trajetórias de pessoas, marcas e empresas. Parceira do Gear Tips, assina projetos especiais e ajuda a empresa a ganhar visibilidade na mídia.

Artigos: 131

Deixe um comentário

This site is registered on wpml.org as a development site. Switch to a production site key to remove this banner.