Das bicicletas preparadas especialmente para as cicloviagens às construídas artesanalmente, há muito o que se analisar ao escolher uma bike para cicloturismo.
Desde que descobri que é muito prazeroso e recompensador viajar de bicicleta, percorrer longas distâncias com a possibilidade de curtir melhor locais e experiências que poderiam passar “batidas” em outros meios de condução, uma das perguntas que mais me fizeram foi “Qual é a melhor bicicleta para começar no cicloturismo?“. E, realmente, esse é um bom tema a ser debatido, visto que já ouvi de algumas pessoas que estavam em dúvida se realizariam ou não determinado roteiro “porque não tinham a bicicleta adequada”. Mas será que existe mesmo aquela ideal, aquela que deve ser projetada como a perfeita para sair percorrendo esse mundão em duas rodas? Bora girar o pedivela para explorar melhor esse assunto.

Para os Pirineus, optei pelos pneus 26×2.0, cravos baixos, mas ao encontrar mais pedregulhos do que imaginei que seria, percebi que seria ideal pneus mais largos
Para começar, nada melhor que citar ícones dessa prática no Brasil, Olinto e Rafaela Asprino (@olintoerafaela). Eles já fizeram algumas publicações interessantes sobre a questão, analisando pontos fundamentais para se compreender o que deve ser buscado na hora de definir aquela que será companheira de estradões, trilhas e outros terrenos a serem desbravados por aí. Em resumo, eles defendem a simplicidade e ajuste de acordo com o gosto pessoal de cada um como base para a escolha da bicicleta. Sobre “mais ser menos”, por exemplo, não utilizam suspensão. A substituição por um garfo de alumínio ou carbono deixa o projeto mais leve e, em se tratando de um ritmo de cicloviagem, bem menos intenso do que um giro normal de MTB, a menor redução no impacto faz com que o sistema de amortecimento não seja tão necessário.

No guidão da liberdade, Olinto e Rafaela são referência na personalização e ajuste das suas companheiras de viagem
Outro ajuste indicado por eles é deixar o guidão em posição mais confortável possível, portanto mais alto e em ângulo onde a cabeça fique melhor disposta para contemplar as belezas por onde se pedala. Em relação ao freio, se for a disco o mecânico tem manutenção mais fácil do que o hidráulico, podendo se escolher modelos que têm o sistema de acionamento das pastilhas de forma central e equilibrada, portanto mais eficiente. Quanto ao aro, a opção do casal é pelas 27,5. O motivo: têm o mesmo tamanho das antigas 26×1.2 (da popular Barra Forte), ficando assim mais fácil encontrar pneus em quase qualquer canto do mundo. Mas, vale frisar, sobre tais questões, trata-se de uma preferência deles, não uma regra.

Aro 26, 27.5, 29, freio a disco ou v-brake, suspensão ou não, o ajuste é sempre muito pessoal e de acordo com o bolso de cada um
Vai sentando
No caso do selim, é um ponto muito pessoal. Para quem vai ficar muito tempo na estrada, vale o investimento em tops de linha como os da Brooks, em couro que “se molda ao formato do usuário”. Para cicloviagens mais curtas, ou realizadas em menor frequência, acredito que não há necessidade desse gasto maior e testar bancos “comuns” que deixem mais confortável um dia inteiro de pedal é o caminho.
Uma boa relação para o cicloturismo
Não, não estou falando do seu convívio com a bicicleta. A relação é, resumidamente, a combinação entre coroa e pinhão ou cog. Deve-se dividir o número de dentes da frente pelos da parte de trás. Quanto menor o resultado final, “mais leve” será a marcha, ou seja, ficará mais fácil subir as ladeiras. No caso da minha MTB, por exemplo, a menor coroa (uso duas) é 26 e o maior cog é 42. Fazendo a divisão, dá 0,61. Isso significa que a cada volta completa da coroa, a roda traseira só percorre essa porcentagem – pouco mais de meia volta. Então, quando se fala em andar pesado, fazer menos força é um grande benefício e analisar esse quesito na hora de comprar ou montar a bike é essencial.
Material do quadro da bicicleta
Alumínio, carbono ou cromoly, qual é a sua preferência? Hoje o mais comum é o alumínio, mas há bikes modernas construídas em cromoly e o carbono também pode ser utilizado no cicloturismo. Nesse último caso, porém, é necessário ter mais cuidado na hora de transportar a bicicleta durante os deslocamentos e optar pelas bolsas de quadro no lugar dos bagageiros, pois a fixação dessa estrutura de maneira inadequada e a trepidação somada ao peso da bagagem podem fazer o quadro ruir. Há quem faça adaptações para utilizar esse sistema, com suportes em alumínio ou até aproveitando as furações para freios v-brake em quadros que tenham essa e a opção para freio a disco simultaneamente. Porém, quanto mais gambiarras, mais difícil uma possível manutenção em caso de problema. Também há bagageiros aéreos, presos somente no canote, mas suportam bem menos peso e geralmente não são tão eficientes em terrenos muito irregulares.
O ciclista Nestor Freire, do projeto Giraventura (@projetogiraventura), utiliza uma bicicleta alemã em cromoly, o aço 4130, e destaca que ele tem bom amortecimento e pode ser reparado mais facilmente do que os outros dois materiais. “Vamos nos imaginar na seguinte situação: perdidos e com o quadro da bike danificado no meio de algum povoado em algum canto do mundo. Certamente, se você tiver enrascado em uma situação dessas, provavelmente encontrará algum soldador de fundo de quintal que poderá lhe ajudar; a tecnologia de fabricação do aço é dominada há milênios pela humanidade. Dessa forma, o quadro cromoly não oferece somente dureza e leveza, mas mais durabilidade e segurança dentro das necessidades específicas de uma viagem de bicicleta”, enfatiza.

Nestor Freire, do projeto Giraventura, com sua bike alemã em cromoly e pneus escolhidos de acordo com o terreno a ser percorrido
Existem bikes feitas para cicloturismo
Aliás, a companheira de vida do Nestor é um dos exemplos daquelas construídas justamente para cicloturismo. Outro caso desse é o da paulista Juli Hirata (@juli_hirata), que ficou conhecida pelo projeto “Extremos das Américas” e que atualmente está rodando pela Europa, hoje pedala uma Specialized criada especialmente para ela. Várias marcas oferecem modelos de bicicletas voltados para viagens.

Dos ´Extremos das Américas´ para a Europa, a paulista Juli Hirata com a bike construída especialmente para ela
Gravel
Cada vez mais popular, a Gravel é um modelo que atrai muitos olhares quando se pensa em viajar de bicicleta. Uma espécie de mistura de MTB com Road (nessa hora os “graveleiros” estão me xingando, rs), tem boa relação de marchas e a posição do guidão em um ângulo de ataque que permite maior velocidade, somando-se a essa questão também os pneus mais finos e com cravos mais baixos do que os das mountain bikes e um pouco maiores do que os das “speeds”. Um fator negativo, dependendo do bolso, é que ainda não há bons modelos com “preços de entrada”. No Brasil, uma referência na utilização desse tipo de bicicleta é o goiano Leandro “Léo” (@leopedalandopelomundo), dono de diversos feitos e recordes pelo país e no exterior.

Leandro, o Léo, hoje tem girado o pedivela pelo mundo utilizando uma gravel
Mas qual é a melhor bicicleta para cicloturismo?
Ainda citando o “Léo”, entro na questão que considero mais importante nessa longa discussão. A melhor bicicleta para cicloturismo é a que você tem. Antes de fazer sucesso nas redes sociais, pela grande disposição física e alegria ao pedalar, ele ficou conhecido por obter a sexta colocação na duríssima prova Inca Divide utilizando uma simples aro 26, de aço, com alforges construídos com baldes plásticos e canos em pvc, três coroas e o básico pedal flat… Com a bike “Magia” ele desbancou dezenas de ciclistas com modernos e caríssimos equipamentos. Muitos sequer completaram a prova.
Há vários outros exemplos de sucesso e felicidade em duas rodas girando o pedivela por aí “com o que se tem”. A paulista Nathachi Silva (@nathachi_aventureira), que está há dois anos em viagem solo, explorando principalmente o Sul do Brasil, usa uma clássica Trek aro 26, com o quadro em cromoly molibdênio. O casal Íris e Djoe (@coragemnabagagem) tem atravessado nosso país usando uma antiga Monark Brisa, que recebeu 18 marchas com o pesado pedivela standard, e uma Caloi Aluminum…. Ainda pouco conhecidos nesse meio, mas já com grande número de seguidores, Matias e Luciana (@viajandolargados), também usando simples e antigas aros 26, saíram de Porto Alegre e pretendem chegar ao México.

Natachi Aventureira, paulista que tem explorado os mais belos cantinhos do sul do país com uma clássica bike Trek, dos anos 90
Qual é a minha bike para cicloturismo?
Sigo essa ideia de que “a melhor é a que você tem”, mas essa opção aconteceu naturalmente. Quando me reencontrei através das duas rodas, utilizava uma antiga Caloi em alumínio que me acompanhava há duas décadas. Visando ampliar meus horizontes, investi em uma MTB aro 29 e, desde que ela entrou em minha vida, não saiu mais. Fui apenas atualizando relação de marchas, freios e suspensão e a utilizando tanto para os giros pela minha cidade quanto para o cicloturismo.

A melhor bicicleta para cicloviajar é aquela que você tem… Não se preocupe com a moda, faça seu próprio caminho e seja feliz
O que faço apenas é adequá-la de acordo com cada viagem, trocando o banco que uso nos treinos pelo original, mais confortável, fixando o bagageiro e instalando o descanso (gosto de poder parar a bike em qualquer lugar para fotografar ou contemplar, sem precisar procurar lugares para encostá-la), além de mudar os pneus para melhor girar de acordo com o terreno a ser percorrido. Menos cravos, mais largos, mais finos…. Com o modelo certo, você cansa menos e chega mais fácil, sem esquecer do fator segurança. Para viagens por asfalto, por exemplo, uso um modelo 700×32 que encaixa perfeitamente no aro 29.

As mountain bikes equipadas com pneus 700×32, pois sabíamos que a maior parte do trajeto seria por asfalto
Revise a bicicleta e equipe-se corretamente
Independente da bicicleta escolhida para o cicloturismo, o que elas têm em comum é a obrigatoriedade de realizar uma boa revisão antes de pegar estrada, para assim diminuir as chances de ter problemas. Nos 934 quilômetros do Caminho de Santiago de Compostela, não precisei sequer ajustar as marchas durante a cicloviagem. Outro item obrigatório é saber pelo menos o básico de mecânica, para poder resolver pequenos contratempos e não ficar pelo caminho às vezes por uma coisa simples, como trocar um pneu ou substituir um raio quebrado. Escolher como vai levar a bagagem é outra informação importante, em alforges, bolsas de quadro ou em sacos-estanque. O que não é recomendável é colocar uma mochila pesada nas costas, causando um impacto desnecessário no corpo e suando muito mais por conta desse apetrecho. Ah, não esqueça também de um bom sistema de iluminação, visto que mesmo para os mais experientes algum problema pode atrasar a conclusão de uma etapa e no escuro tudo fica mais lento e perigoso. Então, ajuste sua companheira de viagens e bora pedalar para deixar marcas dos pneus em tantas estradas e trilhas que nos aguardam por aí!

Trocar pastilhas, colar câmera de ar, ajustar as marchas… É preciso saber pelo menos o básico para não ficar a pé com qualquer problema
