Muito perto da portaria capixaba do Parque Nacional do Caparaó, o Sr. Sapico organizou um camping no quintal de sua casa. O local fica na margem capixaba do pequeno e frio rio Preto, de onde se pode avistar o estado de Minas Gerais, no outro lado. Era bem aí que eu ia acampar no final da década de 1990.
Naqueles dias, na hora do café da manhã, todos se encontravam no barracão, ao lado da casa do anfitrião. Como o camping recebia gente de todos os lugares, muitos não se conheciam. Apesar disso, era como se todos já fossem grandes amigos, que estavam juntos há muito tempo. Era incrível.
Existe uma energia diferente e muito boa nos acampamentos. Na verdade existe uma energia muito boa e contagiante sempre no mesmo horário nos acampamentos: na hora do café. E a mesa não precisa estar cheia. No camping do Sapico, o dono da casa nos oferecia algumas bolachas e pão com manteiga. Mas era nessas manhãs especiais que todos se reuniam, aqueles que iriam subir a montanha, quem rumaria para as cachoeiras e os que ficariam um pouco mais, descansando. E era o momento de partilhar ideias e bons sentimentos ao redor das nossas xícaras de café.

Café da manhã no Camping do Sapico, Pedra Menina, ES, Serra do Caparaó. Foto: Rogério Campos
O aroma do café
Sempre quis entender o motivo que faz o aroma do café ser tão prazeroso, por que ele desperta tanto sentimento bom até mesmo em quem não gosta da bebida. Para a minha sorte, conheci uma pesquisadora que se dedica exatamente a saber mais sobre isso.
A Dra. Silvia Oigman, neurocientista e pesquisadora da Unidade Café e Cérebro no Instituto D’Or, desenvolve investigações relacionadas ao consumo de café e seu efeito no sistema nervoso central. Ela utilizou métodos de neuroimagem em sua pesquisa para entender porque o café possui cheiros tão prazerosos para a maioria das pessoas, inclusive para as que não gostam de bebê-lo. Segundo me disse, alguns amantes do cheiro do café foram convidados a participar do estudo e tiveram sua atividade cerebral monitorada utilizando a Ressonância Magnética Funcional (fMRI). Os resultados são muito interessantes: além das áreas cerebrais comumente recrutadas por odores, ela observou uma notável ativação no sistema de recompensa, aquele que envolve áreas responsáveis pela intensa sensação de prazer e bem-estar.
A pesquisa está na fase final e em breve será publicada. Eu acredito que trata-se de um acesso ao que conhecemos como memória afetiva.

Equipamento de Ressonância Magnética do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) utilizado nas pesquisas do Projeto Café e Cérebro. Foto: IDOR.
Um café no Pico da Bandeira
Uma década e meia depois das minhas primeiras manhãs no camping do Sapico, me tornei Condutor do Parque Nacional do Caparaó. Ao mesmo tempo, passei a lidar profissionalmente com o café. Vivo com minha esposa e meus filhos em uma fazenda produtora, o Sítio Santa Rita, na margem mineira do rio Preto. Eu sou o responsável pela torrefação e por uma pequena cafeteria.
Ainda que a nossa mesa seja mais farta do que aquela da adolescência, eu ainda sinto a mesma energia toda manhã. É o aroma do café, mas também do enorme Caparaó, entrando pela janela. Talvez seja também a montanha chamando, os visitantes alegres e ansiosos, repletos de boas ideias e bons sentimentos.
Cada ida ao Parque Nacional do Caparaó, é uma nova oportunidade para preparar um bom café, seja no cume do Pico da Bandeira, do Cristal, do Calçado ou nas inúmeras cachoeiras.

Pico do Cristal. Foto: Fred Ayres
Para chegar no alto do Pico da Bandeira pelo acesso capixaba do Parque Nacional é preciso fazer um trekking de 4,5 km, com nível médio de dificuldade. Só chegam ao topo aqueles que estiverem preparados fisicamente e mentalmente. Começamos a nos organizar no dia anterior, preparando os lanches, os equipamentos e, claro, os utensílios para o preparo do café. Logo cedo, às 7h, já passamos pela portaria do Parque Nacional e percorremos aproximadamente 9 km de carro até o acampamento Casa Queimada. Deste ponto, começamos a caminhada.
Já no início da trilha, avistamos lindamente o Pico do Cristal e o Pico do Calçado. Por grande parte do percurso, eles nos acompanharam, nos enchem de motivação. Após 3 horas de caminhada e escalaminhada, conquistamos os 3.892 metros de altitude da 3ª maior montanha do Brasil.

Pico da Bandeira. Foto: Fred Ayres
O tapete de nuvens nos encanta, nos dá uma sensação de estarmos no topo do mundo, do nosso mundo. Após decidir pelo melhor local para a nossa cozinha, acendo o fogareiro e espero a água ferver. Basta abrir o pacote e moer os grãos para a magia comece a acontecer, o aroma nos contagia e nos abraça. Quando café é servido, partilho com os visitantes todos aqueles bons sentimentos que venho experimentando desde aqueles dias, no camping do Sapico.

Detalhe do preparo do café no cume do Pico da Bandeira. Foto: Fred Ayres

Preparando café no cume do Pico da Bandeira. Foto: Fred Ayres
