Uma das dúvidas mais comuns de quem está planejando a primeira cicloviagem é saber o que realmente vale a pena levar. Quantas roupas são necessárias? Como calcular a quantidade de alimentos? O que é indispensável e o que só vai adicionar peso à bagagem?
A primeira dica da cicloviajante Susi Saito, uma das 50 mulheres entrevistadas no livro Mulheres na Natureza – Práticas, inspiração e acolhimento em atividades ao ar livre, é priorizar equipamentos leves e compactos, que facilitem a pedalada e caibam nas bolsas da bicicleta, evitando improvisos, como pendurar sacolas extras pelo caminho.
Mas, para ela, o principal item da bagagem é o desapego. Tudo começa antes mesmo de sair de casa, com escolhas conscientes sobre o que realmente será necessário. Para uma cicloviagem de fim de semana, uma troca de roupa para pedalar, outra para dormir, um agasalho para a noite, sapatilha ou tênis e outro calçado para usar depois do banho costumam ser suficientes. Se preferir trocar a roupa de pedal a cada dia, tudo bem, mas saiba que, muitas vezes, basta lavar a camisa à noite para que ela esteja seca na manhã seguinte.
“Em uma viagem, levar roupa a mais para ‘ficar diferente na foto’ só aumenta o peso da bagagem. Troque a bandana, por exemplo. Garanto que isso não vai diminuir o prazer da viagem. Já o excesso de peso, sim. Ultimamente, tenho preferido um modelo de camisa de botão feito com tecido tecnológico e resistente à água, que pode ser usado fechado ou aberto, dependendo da temperatura, seca rápido e ainda oferece proteção UV.”
Na nécessaire, a lógica é a mesma: menos é mais. Leve apenas pequenas quantidades dos produtos de higiene e dispense frascos inteiros. Hoje, existem ótimas opções de shampoo e condicionador em barra. Um pequeno pedaço de cada é suficiente para um fim de semana.
Roupa íntima: conforto e cuidado com o corpo
Para Susi Saito, a escolha da roupa íntima influencia diretamente o conforto durante uma cicloviagem, especialmente em dias com muitas horas de pedal.
“Eu parei de usar calcinha para pedalar. Prefiro cuecas femininas de algodão, sem costura na região da virilha. As costuras, depois de muitas horas pedalando, podem causar bastante desconforto no corpo feminino. Já os tecidos sintéticos costumam assar a pele.”
Ela explica que muitas ciclistas que usam bermudas com forro pedalam sem calcinha, mas, em uma cicloviagem, essa opção pode dificultar a higiene, já que a mesma peça costuma ser usada por mais tempo. Outra recomendação é substituir o sutiã por um top esportivo. Além de proporcionar boa sustentação, ele facilita a troca de roupa em qualquer lugar durante a viagem.

Roupas para os dias frios
Quando a previsão é de frio, um casaco de pluma é a melhor opção. Além de leve, ocupa pouco espaço na bagagem. Se não for possível investir em um, uma blusa de fleece também cumpre bem a função. Susi não recomenda roupas de lã convencional, por serem volumosas e, se molharem, ficam pesadas e demoram a secar. O corta-vento deve sempre fazer parte da bagagem, mesmo em dias sem temperaturas muito baixas. Ele faz enorme diferença durante as descidas ou quando o vento aumenta.
Jamais utilize calças jeans! Prefira calças de tecidos sintéticos, que secam rapidamente. Os modelos usados em montanhismo, que se transformam em bermuda, são bastante funcionais, pois oferecem duas opções em uma única peça. Já as leggings podem ser confortáveis para pedalar, mas costumam demorar mais para secar.
“No meu caso, também optei por não usar bermuda com forro de gel. Embora seja confortável, considero pouco prática para viagens, já que demora mais para lavar e secar. Preferi investir em um selim de boa qualidade, que oferece conforto. Também não recomendo o macaquinho. Imagine a trabalheira de ter de fazer xixi na estrada, no estilo ‘no mato’?”, conta Susi.
Esteja preparada em caso de chuva
Mesmo que a previsão não indique chuva, nunca saia de casa sem uma jaqueta impermeável. Dê preferência aos modelos com capuz, zíper frontal e, se possível, aberturas com zíper sob as axilas, que ajudam na ventilação e reduzem a umidade acumulada por dentro da roupa.
Se a pedalada for longa e em uma região fria, vale acrescentar uma calça impermeável e polainas para proteger as pernas e os pés.
“Na falta de polainas, uma solução simples e eficiente é colocar uma sacola plástica de mercado sobre uma meia seca, por dentro do calçado e por baixo da calça impermeável.”
Atenção especial às meias
Manter os pés sempre secos é um cuidado indispensável em uma cicloviagem. Pedalar por horas com meias molhadas, seja por causa da chuva, de um banho de cachoeira ou da travessia de um rio, favorece o surgimento de bolhas e, em dias frios, pode até contribuir para um quadro de hipotermia.
Por isso, incluir alguns pares extras na bagagem é um investimento pequeno em peso, mas grande em conforto e segurança ao longo da viagem. Leve pelo menos três pares de meias, assim você sempre terá um par seco para trocar ao longo da viagem.
Checklist:
- Uma ou duas trocas para pedalar (camisa, bermuda ou calça, meias, top, cueca feminina) e calçado para pedalar
- Uma troca pós banho para dormir (uma blusa macia e shorts ou calça, agasalho, um chinelo ou Crocs)
- Uma toalha sintética, que seca fácil
- Kit higiene: frascos pequenos (ou pedaços pequenos de barras) de shampoo, condicionador e sabonete. Hidratante, filtro solar, repelente de inseto, escova e pasta dental e pinça
- Kit primeiros socorros: analgésico, anti-inflamatório, antitérmico, antisséptico, curativos, faixa, gaze e álcool
- Acessórios: luva, manguito, duas bandanas (para o pescoço e para a cabeça) boné, cap ou viseira. Óculos de sol e para a noite (lentes brancas para se proteger de insetos).
No fim das contas, minimalismo não significa abrir mão do conforto, e sim carregar apenas o que realmente faz diferença na experiência, deixando a bicicleta mais leve e a viagem mais prazerosa.
Como planejar a alimentação
Antes de montar a bagagem, faça uma escolha simples: você pretende cozinhar ou fazer apenas lanches? A resposta define boa parte do que será levado.
Se a ideia for cozinhar, monte um kit compacto: fogareiro, panela pequena que também sirva de prato, caneca, talheres, além de isqueiro ou fósforo e um abridor de latas. Em uma cicloviagem, cada item precisa justificar o espaço que ocupa.
Uma estratégia bastante usada pelos cicloviajantes é preparar uma quantidade maior de comida à noite e guardar parte em um recipiente hermético para o almoço do dia seguinte. Assim, evita-se cozinhar duas vezes. Em dias muito quentes, porém, parar no meio da jornada para preparar uma refeição também pode ser uma ótima desculpa para descansar antes de seguir pedalando.
“Entre as refeições mais práticas, o clássico continua sendo o macarrão com atum ou sardinha: rápido, nutritivo e fácil de preparar. Vale trocar o macarrão instantâneo pelo tradicional, que oferece melhor valor nutricional. Para quem viaja sozinha, meia embalagem costuma ser suficiente”, conta Susi.
Outra opção sugerida pela cicloviajante é o “arroz mistureba”, preparado com o que estiver disponível: milho, ervilha, cenoura, lentilha ou outros ingredientes. O importante é montar uma refeição completa e nutritiva.
Alguns alimentos são ótimos aliados por serem leves e fáceis de transportar, como proteína de soja, shiitake desidratado, chia e ovos cozidos, que podem ser levados com casca e costumam resistir bem por algumas horas fora da geladeira.

Nos potes herméticos de Susi, ovos, cuscuz e proteína de soja
Para os lanches durante a pedalada: frutas secas, castanhas, banana-passa, paçoca, rapadura e chocolate fornecem energia rápida. Sanduíches com atum, sardinha ou ovo cozido também funcionam muito bem. Em dias de muito calor e suor intenso, vale incluir alimentos ricos em sódio, como sachês de azeitonas sem caroço ou alcaparras, para ajudar na reposição de sal.
A hidratação merece atenção constante: planeje os pontos de abastecimento e reabasteça a água antes que ela acabe. Mochilas de hidratação facilitam bastante o consumo durante o pedal, mas duas caramanholas (squeeze) bem distribuídas na bicicleta também resolvem o problema.
Quanto aos suplementos, a regra é simples: use apenas aquilo que seu organismo já conhece. A cicloviagem não é o momento para experimentar novos produtos. “Eu costumo levar sachês de gel de carboidrato, eletrólitos e sais de reidratação para situações específicas, mas eles complementam a alimentação, nunca a substituem”, explica Susi.
Uma dica para aprender a planejar, organizar e preparar receitas nutritivas e criativas é participar do curso Cozinha Outdoor, que ensina técnicas para quem acampa, caminha e pedala.
Cada um é cada um
Lembre-se de que não existe uma única forma de se alimentar durante uma viagem. Cada pessoa encontra o que funciona melhor para o próprio corpo. Sempre que surgir a oportunidade, aproveite um prato feito em um restaurante local, desde que seja uma comida com a qual você já esteja acostumada e de fácil digestão. E se encontrar frutas pelo caminho, aceite o convite da natureza.
“Pedir água no caminho (mesmo que ainda tenha) é sempre uma boa desculpa para iniciar uma boa prosa e conhecer a história das pessoas. E não se esqueça: a viagem começa pela busca de lugares, mas é sempre sobre pessoas. As que você já carrega dentro de si e as que encontra pelo caminho”, finaliza Susi Saito.
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