Meio Ambiente e atividades ao ar livre: aprenda sobre os solos da sua aventura

Este trabalho dá continuidade à série “Meio Ambiente e Atividades ao Ar Livre“, publicada nos Artigos Exclusivos do Gear Tips. Nos últimos textos, entendemos mais sobre aspectos ambientais relacionados ao ambiente de nossas aventuras, apresentando uma incrível ferramenta que facilita esse processo, o Banco de Informações Ambientais – BDIA do IBGE. Através de sua interface e conteúdo, entendemos como é possível aprender sobre os aspectos geológicos e geomorfológicos de um determinado local. Neste artigo demostraremos, de uma forma bem intuitiva, o mesmo processo de uso da ferramenta trabalhando o tema de pedologia (solos).

Solos

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRABA (2018), em sua publicação “Sistema Brasileiro de Classificação de Solos”, podemos definir solos como uma coleção de corpos naturais, compostos por partes sólidas, líquidas e gasosas, em formatos tridimensionais, dinâmicos e formados por materiais minerais e orgânicos que ocupam a maior parte do manto superficial das extensões continentais do nosso planeta. Segundo a mesma definição, os solos contêm matéria viva e podem ser vegetados na natureza onde ocorrem e, eventualmente, terem sido modificados por interferências antrópicas.

No contexto das práticas ao ar livre, apesar de se mostrarem como um dos aspectos ambientais de menor interesse, os solos são de suma importância para a realização destas atividades. Sobre os solos que caminhamos ou pedalamos grande partes de nossas aventuras pelo mundo. Também nos deparamos com partes de vias de escalada onde o processo acelerado de intemperismo promoveu a existência de solos bem estabelecidos que fazem com que a clássica “enfiada” seja uma prazerosa e atenta caminhada encodada. Por vezes, estes solos não estão tão bem estabelecidos e se desagregam ao toque esportivo, algo que merece até atenção em muitos lugares. É sobre o solo e suas relações abióticas que nascem as mais exuberantes matas e se formam as condições para o estabelecimento da biodiversidade. É sobre este aspecto que deixamos somente nossas pegadas e levamos as maiores memórias vividas.

Para conhecer um pouco sobre os solos do local de interesse, uma ótima forma é acessar o site do BDIA. Basta acessar o site e começar a ter acesso a uma série de informações.

Site do IBGE BDIA
Página inicial do Banco de Informações Ambientais – BDIA.

O BDIA disponibiliza bases temáticas de recursos naturais do território nacional ajustadas à escala 1:250.000, incluindo a Pedologia (solos). Os mapas possuem diferentes níveis de navegação, organizados em camadas de informação exibidas em mapas web, com suporte de gráficos e tabelas.

Com um pequeno conhecimento sobre a localização do ponto de interesse e o uso do teclado e do mouse de seu computador, você poderá navegar facilmente por toda a variada composição de informações expostas sobre imagens de satélite de todo o Brasil, ou sobre informações gráficas extraídas da plataforma colaborativa Open Street Map. Assim, poderá consultar as informações que precisa. Veja o exemplo na imagem, abaixo.

Navegação sobre a Chapada dos Veadeiros - Site BDIA
Navegação sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

Para acessar a sessão correspondente à pedologia (solos) no BDIA é fácil. Basta, na página inicial, clicar no ícone com o mesmo nome. Assim você terá acesso ao mapa interativo e temático de todo o Brasil, no tema selecionado.

Ícone Pedologia - Solos - no site do BDIA
Figura 1 – ícone que dá acesso ao mapa de solos.

Navegando sobre a Chapada dos Veadeiros, no entorno da clássica entrada próxima à São Jorge, veremos, no canto esquerdo superior, um campo de pesquisa onde é possível fazer uma busca por alguma unidade de solos específica na qual se tem o interesse de saber sua localização. No canto esquerdo inferior existe uma ferramenta de dicionários de conceitos que podem contribuir na resolução de alguma dúvida que aparecer. Além disso, temos um gráfico no canto direito inferior e, como ponto mais importante, uma caixa acima que apresentam duas abas.

A primeira aba, de legenda, serve como uma consulta rápida a todas as informações que aparecem na tela. Na imagem a seguir, a aba de legenda descreve a existência, na região, de três subordens do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS): Cambissolo Háplico, Latossolo Vermelho e Plintossolo Pétrico. Esses nomes parecem extremamente confusos, mas respeitam uma lógica de classificação muito fácil de ser consultada e aprofundada. Basta baixar o guia “Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (EMBRAPA, 2018)“.

Site BDIA - Navegação sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros com foco na legenda
Figura 2 – Navegação com foco na legenda, sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

Para entender a classificação, inicialmente, é preciso entender o que são os horizontes de um solo. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (BRANCO, 2014), a estrutura de um solo é composta por camadas horizontais diferentes em cor, textura, composição etc. Cada uma dessas camadas é denominada como um horizonte do solo, sendo o seu conjunto um perfil do solo. Nem sempre o solo mostra um perfil completo e quanto mais distante da rocha-mãe estiver um horizonte. São estes horizontes:

  • Horizonte O – horizonte formado pela matéria orgânica em vias de decomposição, razão de sua cor escura.
  • Horizonte A – zona com mistura de matéria orgânica e substâncias minerais, com bastante influência do clima e alta atividade biológica.
  • Horizonte B – horizonte caracterizado pela cor forte e pela acumulação de argilas procedentes dos horizontes superiores e de óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio.
  • Horizonte C – mistura de solo pouco denso com rocha-matriz pouco alterada.
  • Horizonte D – rocha matriz sem alteração (não representada na figura).

Perfil de solo e seus horizontes. Fonte CPRM
Figura 3 – Perfil de solo e seus horizontes. Fonte: CPRM

Entre os horizontes A e B é possível, às vezes, delimitar um horizonte E, caracterizado pela remoção de argila, matéria orgânica e óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio, que vão se acumular no horizonte logo abaixo.

Em seguida, compreendemos que os solos são classificados em níveis categóricos. Segundo EMBRAPA (2018), a classificação é dada através de um conjunto de classes definidas segundo atributos diagnósticos em um mesmo nível de generalização ou abstração e inclui todos os solos que satisfizerem a essa definição.

As características usadas para a definição de um nível categórico devem ser propriedades dos solos que possam ser identificadas no campo ou que possam ser inferidas de outras propriedades que são reconhecidas no campo ou a partir de conhecimentos da Ciência do Solo e de outras disciplinas correlatas. Na profundidade deste artigo, vamos nos manter nos quatro primeiros níveis: ordem, subordem, grupo e subgrupo. Para entender mais sobre as diferenças entre cada um desses níveis, recomendamos a leitura do SiBCS.

Retornando ao exemplo do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, ao clicarmos com o cursor na área localizada nas margens do Rio Preto, segundo a escala de análise, abre-se caixa de conteúdo com as informações específicas sobre aquele elemento. Com isso, percebemos a predominância do CXbd – Cambissolo Háplico Tb Distrófico Típico, composto, consequentemente pela seguinte formação:

  • Ordem: Cambissolo;
  • Subordem: Háplico;
  • Grupo: Tb Distrófico;
  • Subgrupo: Típico.

Em consulta ao Guia de Classificação de solos (Página 139), compreendemos melhor as características deste solo. Basta seguir a ordem dos capítulos até chegar naquele de interesse, representativo da ordem principal classificada, nesse caso, o Cambissolo. No capítulo do Guia referente ao tipo de solo, além de uma descrição mais completa, também são destrinchadas explicações mais específicas sobre os demais níveis de classificação correspondentes.

Conteúdo sobre os elementos do solo - Site BDIA
Figura 4 – Caixa de conteúdo com os elementos de solo selecionados sobre o mapa da Chapada dos Veadeiros

De forma resumida, segundo Zaroni e Santos (2021), os Cambissolos são solos pouco desenvolvidos, que ainda apresentam características do material originário (rocha) evidenciado pela presença de minerais primários. Variam de solos pouco profundos a profundos, sendo normalmente de baixa permeabilidade, sendo observados em diversos ambientes, estando normalmente associados a áreas de relevos muito movimentados (ondulados a montanhosos) podendo, no entanto, ocorrer em áreas planas (baixadas) fora da influência do lençol freático. Ao mesmo tempo, estes são denominados Háplico Tb Distrófico, quando possuem argila de atividade baixa e saturação por bases < 50%, ambas na maior parte dos primeiros 100 cm do horizonte B. Por fim, são típicos por não se enquadrarem em nenhuma das classes específicas mapeadas para o quarto nível de classificação.

Como segundo exemplo, quando movemos o cursor do BDIA até a região do Pico Paraná e clicamos sobre o elemento dominante próximo ao cume, vemos que, nesta escala de análise, temos a predominância de RLd – Neossolo Litólico Distrófico.

Conteúdo sobre os elementos do solo - Site BDIA
Figura 5 – Caixa de conteúdo com os elementos de solo selecionados sobre o mapa do Pico Paraná.

Novamente segundo o Guia de Classidicação de Solos da EMBRAPA (Página 219), entendemos que os Neossolos são solos pouco evoluídos, constituídos por material mineral ou por material orgânico com menos de 20 cm de espessura, não apresentando nenhum tipo de horizonte B diagnóstico. É Litótico, de forma resumida, quando pedregosos dentro de 50 cm a partir da superfície, apresentando horizonte A ou hístico (horizonte de coloração preta, cinzenta muito escura ou brunada em que predominam características relacionadas ao elevado teor de matéria orgânica) assente diretamente sobre a rocha ou sobre um horizonte C. Sendo Distrófico quando apresentam saturação por bases inferior a 50% na maior parte dos horizontes dentro de 50 cm a partir da sua superfície.

Por fim, quando movemos o cursor até a Serra do Espinhaço, próximo à Cachoeira do Tabuleiro, no fim da clássica Travessia Lapinha x Tabuleiro, vemos a legenda demonstrando a existência de afloramentos rochosos na descida da Serra (generalizado na escala 1:250.000) e de Latossolo Vermelho. Clicando sobre a segunda feição, entendemos que se trata de um LVd – Latossolo Vermelho Distrófico.

Latossolo vermelho presente próximo ao início da trilha para a Cachoeira do Tabuleiro.
Figura 6 – Latossolo vermelho presente próximo ao início da trilha para a Cachoeira do Tabuleiro.

Segundo Santos (2021), os latossolos vermelhos apresentam cores vermelhas acentuadas devido aos teores mais altos de óxidos de ferro presentes no material originário em ambientes bem drenados, e características de cor, textura e estrutura uniformes em profundidade.

São identificados em extensas áreas nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país, sendo responsáveis por grande parte da produção agrícola, pois ocorrem predominantemente em áreas de relevo plano e suave ondulado, propiciando a mecanização. Em menor expressão, podem ocorrer em áreas de relevo ondulado.

Em Emprapa (2018), entendemos que os latossolos vermelhos são solos constituídos por material mineral, apresentando horizonte B avermelhado na maior parte dos primeiros 100 cm, precedido de qualquer tipo de horizonte A dentro de 200 cm a partir da superfície do solo ou dentro de 300 cm se o horizonte A apresenta mais que 150 cm de espessura. É distrófico quando possui saturação por bases inferior a 50% na maior parte dos primeiros 100 cm do horizonte B e típicos por não se enquadrarem em nenhuma das classes específicas mapeadas para o quarto nível de classificação.

Junto aos Argissolos e Neossolos, esses se estendem por quase 70% do território nacional.

Entendemos aqui o quão fácil é a consulta ao BDIA com relação à pedologia (solos) do seu local de interesse, mas também percebemos o quão difícil é compreender sobre esse aspecto científico. São conteúdos, muitas vezes, complexos e de pouca visualização em campo durante a sua aventura. Geralmente, este conteúdo instiga somente àqueles mais curiosos ou que, de alguma maneira, trabalham na área das ciências ambientais. De qualquer forma, esperamos que esse artigo seja uma porta de entrada ao desejo de aprender sobre solos, dando bases para entendimentos e estudos ainda mais elaborados.

Vale sempre ressaltar que esta escala de análise propõe aproximações e generalizações, principalmente no que se trata de solos, tão variados de pontos presentes em um terreno. Caminhando, com certeza se passa por variados elementos que podem ser estudados, mas que não são apresentados no sistema, por conta da sua enorme dificuldade de mapeamento e quantidade de dados que seriam necessários ser catalogados.

Se nesse material o leitor entender como fazer uma consulta rápida ao solo predominante (na escala de 1:250.000) do local de interesse, como se configuram os horizontes de um solo e onde conseguir informações mais aprofundadas, o seu objetivo estará cumprido.

Ao ler esta série de artigos, esperamos que o BDIA seja uma boa ferramenta para fundamentar um processo de curiosidade científica em todos os nossos leitores aventureiros. Por ser um tema muito difícil e que necessita de muitas especificidades, pedimos aqui a sua interação, opinião, críticas e elogios para que possamos sempre melhorar. Escrever sobre meio ambiente é um processo de desenvolvimento contínuo. Fique atento à esta série de artigos, pois na próxima edição trabalharemos um pouco mais sobre como o BDIA pode ser usado para se obter informações sobre Vegetação.

Referências

  • BDIA – Banco de Dados de Informações Ambientais. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Versão 2.15.0. Disponível em https://bdiaweb.ibge.gov.br/. Acesso realizado em 08 de agosto de 2023.
  • BRANCO, M. P. Os Solos. Serviço Geológico do Brasil – CPRM. 2014. Disponível em http://www.cprm.gov.br/publique/SGB-Divulga/Canal-Escola/Os-Solos-2620.html. Acesso realizado em 08 de agosto de 2023.
  • EMBRAPA. Sistema brasileiro de classificação de solos. Brasília, v. 5, 2018. Disponível em: https://www.agroapi.cnptia.embrapa.br/portal/assets/docs/SiBCS-2018-ISBN-9788570358004.pdf
    ZARONI, M. J. SANTOS, H. G. Cambissolos. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMPRAPA). 2021. Disponível em https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/tematicas/solos-tropicais/sibcs/chave-do-sibcs/cambissolos. Acesso realizado em 08 de agosto de 2023.

Autores:
Bruno Negreiros, Gabriel Lousada e Rafael Damiati.

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Bruno Negreiros

Engenheiro ambiental e montanhista, assumiu a coordenação socioambiental do Gear Tips em 2020, com o sonho de contribuir para a disseminação dos esportes ao ar livre e de aumentar a conscientização ambiental e social no mundo outdoor.

Artigos: 26

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