Meio Ambiente e atividades ao ar livre: aprenda sobre a geologia da sua aventura

Estar mais próximo e conectado à natureza é, sem dúvidas, uma das principais motivações pelas quais pessoas de diferentes gostos, origens, idades e distintos lugares decidem pela prática de esportes ao ar livre. Trata-se de um perfeito contexto para que sejam vividas as maiores experiências e as mais inesquecíveis aventuras. Seja caminhando no parque mais próximo de casa, remando por mares e rios, escalando rochas, correndo por ambientes naturais, atravessando serras inteiras ou, até mesmo, acampando com a família por aí, muitos dos praticantes destes esportes conseguem, de fato, sentir uma grande conexão com o ambiente no entorno. Não só isso, carregam grandes histórias e espalham por todos os seus lugares de convivência as boas práticas e conhecimentos adquiridos.

É crescente, também, entre os aventureiros mais curiosos e conscientes, a vontade de melhor compreender sobre aspectos ambientais de um determinado local que possivelmente será ou já foi palco de uma grande aventura. Onde também pode existir algum tipo de relação afetuosa ou cultural, principalmente regiões ou montanhas próximas de onde se vive. Durante um trekking como a Travessia Petrópolis x Teresópolis, por exemplo, é muito comum se pensar coisas como: “Eu gostaria de conhecer um pouco mais sobre esse ambiente”.

Geologia - Travessia Petrópolis Teresópolis
A paisagem da Travessia Petrópolis x Teresópolis que incentiva o desejo de aprendizado.

Mais do que tentar entender se existe alguma unidade de conservação ou propriedade que proteja a natureza no local, se fortalece o debate sobre algumas outras características mais específicas, como a geologia, a geomorfologia (relevo), ou a vegetação. Para aqueles que vão ainda mais fundo, existe a curiosidade sobre a pedologia (solos) do local. Este desejo está envolto na facilidade atual com a qual informações técnicas e de qualidade são compartilhadas em plataformas digitais (evitem as notícias falsas) e no desejo, muito comum, de aprender coisas novas para se entender algum roteiro que será realizado, compartilhar com os amigos ou somar essas informações às que são apresentadas por guias locais. Ao contrário, de forma profissional, muitos guias também querem saber ainda mais, tendo aquela visão que pode se transformar em um grande diferencial de seu trabalho.

Há de se refletir que isso também está enraizado na disseminação e no aprofundamento do debate sobre as práticas de mínimo impacto em esportes ao ar livre. Muitos se perguntam: “ok, tenho que cumprir essas regras, mas também posso aprender ainda mais sobre o meio ambiente”. Pensando nisto, e com o objetivo de contribuir para o fortalecimento e a simplificação da comunicação entre as ciências ambientais e a prática de atividades ao ar livre, apresentaremos no Gear Tips uma série de artigos demonstrando exemplos práticos de uma ótima fonte de consulta sobre aspectos ambientais. Assim, praticantes de diversas modalidades poderão desenvolver o seu conhecimento sobre alguns desses temas e desenvolver ainda mais o seu conhecimento. Trata-se do BDIA – Banco de Informações Ambientais do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, disponível em: https://bdiaweb.ibge.gov.br.

Site IBGE - Banco de Informações Ambientais BDIA
Página inicial do Banco de Informações Ambientais – BDIA.

Segundo informações oficiais do sistema, o BDIA reúne uma coleção de bases temáticas de recursos naturais do território nacional, ajustadas à escala 1:250.000, produzidas em quatro áreas temáticas: Geomorfologia (relevo), Geologia, Pedologia (solos) e Vegetação. Além disso, possui uma página para navegação no território nacional através de uma consulta em grades. Neste modo de navegação, é possível selecionar uma área retangular do território nacional de, aproximadamente, 1km² e receber, de acordo com a escala de análise, um descritivo compilado com todas as informações presentes no sistema.

A plataforma disponibiliza tais dados e informações de maneira bem interativa e de fácil consulta. Os mapas temáticos possuem diferentes níveis de navegação, organizados em camadas de informação exibidas em mapas web, com suporte de gráficos e tabelas. Com um pequeno conhecimento sobre a localização do ponto de interesse e o uso do teclado e do mouse de seu computador, você poderá navegar facilmente por toda a variada composição de informações expostas sobre imagens de satélite de todo o Brasil, ou sobre informações gráficas extraídas da plataforma colaborativa Open Street Map. Assim, poderá consultar as informações que precisa. Veja os exemplos nas imagens abaixo.

Site IBGE Bdia - Parque Nacional da Chapada Diamantina
Exemplo de navegação sobre o Parque Nacional na Chapada Diamantina.

Nos artigos da série Meio Ambiente e Atividades ao Ar Livre, nos aprofundaremos um pouco mais em cada uma das áreas de conhecimento disponíveis no BDIA, explicando um pouco mais sobre aspectos técnicos e dando exemplos práticos de locais muito conhecidos entre os praticantes de atividades ao ar livre. Neste primeiro artigo, trabalharemos a Geologia.

A Geologia da sua aventura

As rochas são motivos de muita curiosidade e interesse dos praticantes de atividades ao ar livre. Afinal, em muitas dessas atividades são os cumes rochosos imponentes ou as formações avistadas durante caminhado que fazem com que aquela paisagem seja tão diferenciada e exaltada. Quem nunca foi para Itatiaia, por exemplo, e ficou impressionado com aqueles campos rochosos presentes na sua parte alta? Pois é, com o uso do BDIA, todos podem compreender um pouco mais sobre o assunto.

Para acessar a sessão correspondente à geologia no BDIA é fácil. Basta, na página inicial, clicar no ícone com o mesmo nome. Assim você terá acesso ao mapa interativo e temático de todo o Brasil.

Ícone de acesso aos dados geológicos - Site IBGE BDIA
Figura 1 – ícone que dá acesso ao mapa de geologia no site do BDIA.

Ao entrarmos no sistema, por exemplo, e navegarmos até a parte alta do Parque Nacional do Itatiaia (PNI), veremos, no canto esquerdo superior, um campo de pesquisa onde é possível fazer uma busca por alguma unidade geológica específica na qual se tem o interesse de saber sua localização. No canto esquerdo inferior existe uma ferramenta de dicionários de conceitos que podem contribuir na resolução de alguma dúvida que aparecer. Além disso, temos um gráfico no canto direito inferior e, como ponto mais importante, uma caixa acima que apresentam duas abas. A primeira aba, de legenda, serve como uma consulta rápida a todas as informações que aparecem na tela. Já a segunda aba, denominada “camadas”, é muito importante em toda a navegação. Através dela é possível ativar ou desativar informações que apareçam no mapa, sendo fundamental no processo de autoaprendizagem.

Voltado à navegação no Parque Nacional do Itatiaia, temos sempre ativa a principal camada de consulta, as “subprovincias”. Estas podem ser compreendidas como modelos de agrupamentos de rochas, realizados de acordo com a sua origem e evolução, representando espacialmente eventos geológicos importantes. Ou seja, rochas que possuem características semelhantes e que podem ser consideradas um retrato do entendimento da geologia atual da terra, são agrupadas nessa escala de estudo.
Além disso, também podemos ativar as camadas “fraturas”, “falhas” e “dobras”, que poderão, ou não, estar presentes na sua área de interesse. Por fim, os afloramentos rochosos vêm sendo atualizados a cada dia no sistema, mas ainda não possuem uma grande representação dentro de sua pequena escala de análise.

Vejamos então a figura abaixo, representativo da geologia da parte alta do PNI, bem onde está o Pico das Agulhas Negras. Nela, vemos a presença da subprovíncia codificada por K2(L)it. Ao clicarmos uma vez com o mouse sobre ela, abrimos a caixa de conteúdo correspondente, com muita informação técnica e importante sobre o local.

Consulta sobre informações geológicas - Site BDIA
Figura 2 – Consulta à geologia da parte alta do Parque Nacional do Itatiaia segundo o BDIA.

Esta subprovíncia tem o nome de “Alcalino Itatiaia”. Dentre muitas informações que podem ser aproveitadas, temos na caixa de informações o setor referente à “Descrição” desta subprovíncia. Lá, podemos conferir que a unidade é composta por rochas nefelina-sienitos, brechas magmáticas e quartzo sienitos. Cita-se também a presença de diques de microssienitos, fonólitos e tinguaítos. Com essa informação na mão, basta fazer algumas outras pesquisas sobre estas rochas e o local de interesse (nesse caso, o Parque Nacional) em bons canais de compartilhamento de conhecimento científico que você entenderá muito mais sobre a geologia local.

Ao estudarmos um pouco sobre o assunto, entendemos que estas litologias mencionadas anteriormente estão espalhadas por todo a parta alta do Parque Nacional, com baixa presença de quartzo em sua composição, mineral resistente ao desgaste físico (erosão). Ao contrário, na parte central do maciço temos estas rochas com uma presença pouco maior de quartzo, sendo mais resistentes ao passar dos anos e atuação de processos erosivos, formando os imponentes picos locais, como o Pico das Agulhas Negras. Segundo Talim e Bueno (2014), o quartzo-sienito é a rocha principal que modela as escarpas das Agulhas Negras, com maior presença de quartzo em sua composição, sendo mais resistente e responsável por toda a beleza cênica local.

Informações geológicas da área - Site IBGE BDIA
Figura 3 – Caixa de informações que se abre ao clicar sobre o mapa.

Perceba, navegando no mapa e com as outras camadas ativas, que o mesmo mapa apresenta uma linha que corta a parte alta do maciço do Itatiaia, seguindo a estrada que vai da portaria do Parque até o Abrigo Rebouças. Trata-se, esta linha, da representação do BDIA de uma falha geológica que proporcionou a formação desta parte mais baixa do vale onde está localizado o próprio abrigo Rebouças. Estas falhas geológicas são pontos de rupturas na costa terrestre de variados tamanhos, representando pontos onde existiu (ou existe) uma cisão entre duas massas rochosas. Nesta nossa pesquisa, esta falha proporcionou a formação deste relevo tão característico do local.

Falha geológica - Site BDIA
Figura 4 – Linha que representa a falha geológica na parte alta do Parque Nacional do Itatiaia.

Vale pontuar que existem ótimas formas para facilitar a busca pelo seu lugar de interesse. Ao procurarmos saber mais sobre o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, por exemplo. Podemos ativar, lá no canto superior direito, a base de dados do Open Street Map, já com diversos limites, rótulos e nomenclaturas cadastradas por uma grande massa de dados cooperativa de usuários. Além disso, também é possível escolher o grau de transparência que se quer aplicar na camada específica. Na Figura abaixo, veja que, ao direcionarmos a busca para o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, podemos ver o seu limite sobre uma fina camada de cores rosadas, representativas das subprovíncias locais. Já com fácil localização, basta aproximar o zoom no local e obter as informações desejadas.

Busca sobre camada transparente e com base de dados do Open Street Map.
Figura 5 – Busca sobre camada transparente e com base de dados do Open Street Map.

Neste novo local de pesquisa, ao aproximarmos a visão, vemos até a clássica rota da Travessia Petrópolis x Teresópolis, já que seu traçado está disponível no sistema do Open Street Map. Por ser uma longa caminhada, existem diversos locais nos quais podemos fazer uma pesquisa no BDIA. Se quisermos, por exemplo, conhecer um pouco mais sobre o Castelos do Açu, clássico primeiro dia de parada e acampamento, basta navegarmos até lá, checarmos o traçado da trilha e, assim como feito no PNI, clicar sobre o mouse na subprovíncia apresentada no sistema. Neste caso específico a C-O1(G)6nf, ou subprovíncia Nova Frigurbo.

Figura 6 - Pesquisa sobre o Morro do Açu, a Travessia Petrópolis x Teresópolis e a subprovíncia Nova Friburgo.
Figura 6 – Pesquisa sobre o Morro do Açu, a Travessia Petrópolis x Teresópolis e a subprovíncia Nova Friburgo.

Ao clicarmos na subprovíncia, temos a mesma estrutura de caixa de informações vista no exemplo do PNI e, assim como realizado anteriormente, podemos conferir muitas informações técnicas da área de geologia e que podem ser aprofundadas em outras áreas de pesquisa. No campo de “Descrição” temos a informação de que a subpronvíncia trata-se de um conjunto de corpos graníticos, descrevendo mais especificamente os tipos em seguidas. Tendo em sua litologia granitos como: biotita-granito; diorito; granito; granitóide; granodiorito; leuco granito; tonalito.
Do mesmo modo como fizemos em consulta ao PNI, basta procurar alguma outra boa fonte de pesquisa específica e se munir de novas ótimas informações. Ao realizarmos uma procura rápida com os termos “granito” e “morro do Açu”, nos deparamos com um artigo de Pessoa et al (2022), que detalha:

“Com altitude aproximada de 2200 m, a litologia é marcada pela presença do Granito Andorinha, representado por blocos que chegam a 10 metros de altura. O formato dos Castelos do Açu, importante elemento do patrimônio geomorfológico, é originado a partir da combinação entre atuação intempérica, litologia e estrutura, sendo perceptivelmente diferente do seu entorno. Essas rochas foram formadas em grande profundidade, com alta pressão e temperatura, há cerca de 480 milhões de anos. Quando trazidas à superfície da Terra, devido à diminuição brusca da pressão (descompressão adiabática), essas rochas se quebraram em blocos, formando Fraturas de Alívio, que são posteriormente retrabalhados por erosão eólica e pluvial.”

Assim, combinando a base necessária de informações promovidas pelo BDIA com uma fonte de pesquisa mais específica, podemos entender muito melhor sobre a geologia do local de nossa aventura.

Por fim, ao ativarmos novamente as camadas de “dobras”, “falhas” e “fraturas”, vemos que, próximo aos Castelos do Açu, temos a presença de algumas grandes fraturas. Essas fraturas são caracterizadas pelo deslocamento relativo entre blocos rochosos provocados, principalmente por movimentos tectônicos presentes ou passados. Na paisagem do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, essas fraturas são importantes componentes da paisagem já que sua orientação de noroeste para sudeste promovem as condições para existência de vales que cortam a travessia.

Fraturas presentes na Travessia Petrópolis x Teresópolis.
Figura 7 – Fraturas presentes na Travessia Petrópolis x Teresópolis.

Como mencionado anteriormente, o desejo e a possibilidade de se aprofundar o conhecimento sobre um local específico é infinito e conta com diversas escalas de análise. Nesse contexto, a existência e a disponibilidade gratuita e intuitiva do BDIA oferecem uma excelente porta de entrada para isso. Com boas informações extraídas do sistema em escalas mais amplas, basta estudar boas fontes que você poderá se tornar um expert na geologia local, agregando um conhecimento diferenciado à sua prática de atividade ao ar livre.

É claro que, para muitos, essas informações podem ser complicadas de se entender. Isto acontece até mesmo entre profissionais da área ambiental. Apesar disso, consideramos o BDIA uma ótima fonte de informações ambientais gerais sobre pontos de interesse. Antes da sua próxima aventura, lembre-se: navegue no BDIA e conheça um pouco mais sobre a geologia do local onde está indo e depois compare com o que observou na natureza.

Fique atento à esta série de artigos, pois a próxima publicação trará um pouco mais sobre o uso do BDIA, mas na categoria Geomorfologia (relevo).

Gostou do artigo ou gostaria de debater e acrescentar algo? Deixe o seu comentário abaixo pois o conhecimento científico está sempre em construção.

Referências

  • PESSOA, F.A.; PEIXOTO, M.N.O.; MANSUR, K.L.; SANTOS, B.C. Geoturismo e patrimônio geomorfológico em trilhas: Castelos do Açu (Parque Nacional da Serra dos Órgãos). PerCursos, Florianópolis, v. 23, n. 52, p.106 -130, maio/ago. 2022.
  • TALIM, H.C.; BUENO, G.T. Análise das Feições Cársticas Desenvolvidas no Maciço das Agulhas Negras-Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Geomorfologia, v. 15, n. 3, 2014.

Autores
Bruno Negreiros, Gabriel Lousada e Rafael Damiati.

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Bruno Negreiros

Engenheiro ambiental e montanhista, assumiu a coordenação socioambiental do Gear Tips em 2020, com o sonho de contribuir para a disseminação dos esportes ao ar livre e de aumentar a conscientização ambiental e social no mundo outdoor.

Artigos: 26

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