Orientação e Navegação – Carta Topográfica

Segundo o Dicionário Aurélio (2005):

Orientação: ato ou arte de orientar(-se). Direção, guia, regra.
Orientar: determinar a posição (de um lugar) em relação aos pontos cardeais. Adaptar ou ajustar à direção dos pontos cardeais. Indicar o rumo a; dirigir, encaminhar, guiar.

Orientação é uma atividade que envolve mapas, cartas topográficas e instrumentos de medições como o GPS – Global Positioning System -, a bússola, o altímetro e até mesmo o velho sextante. Nos dias de hoje, todos necessitamos de uma certa noção de orientação, navegação ou “localização” (se preferir assim chamar), independentemente de seu objetivo; seja através do uso do GPS para não se perder nos bairros e cidades que não conhecemos, na escolha de rotas com menos trânsito nas grandes cidades ou até mesmo nas trilhas e montanhas quando nos aventuramos pelas imensidões deste planeta. Com isso, o desafio é encontrar o melhor caminho, área de acampamento, água para hidratar-se e por ai vai, frente às possibilidades existentes na área. E para tal, é necessário conhecer e entender como as cartas topográficas, aquelas que representam o terreno (topografia), funcionam. A sua compreensão é a mais importante habilidade de um navegador. O navegador deve ser apto a relacionar a sua localização no campo com a carta ou vice e versa, e seguir e escolher a rota conforme se movimenta pelo terreno.

A bússola é um instrumento de extrema importância, mas nunca deve ser colocada acima da habilidade de compreender as cartas topográficas. Acredite, é possível orientar-se apenas pela carta, utilizando a bússola – e até mesmo o GPS – como instrumentos de auxílio. Existem exceções à regra – claro! – como durante uma navegação noturna ou dentro de matas fechadas, pois nestas condições não é possível visualizar o terreno ao redor para compará-lo à carta. Infelizmente, não nascemos com um sexto sentido. Para aprimorá-lo, é necessário aprender a arte da observação – ver, cheirar, ouvir e sentir os detalhes do mundo ao nosso redor. Se você pretende retornar pela mesma rota, vire-se com frequência para observar qual a “cara” do caminho durante a volta. Técnicas são essenciais, mas a verdadeira habilidade de um navegador é o bom senso. Olhe por onde anda, essa é a chave para nunca se perder. Ficando em contato com o mundo a sua volta e observando os detalhes por onde passa, a sua chance de chegar onde deseja e voltar será muito mais alta.

A Carta Topográfica

A Cartografia pode ser definida como um conjunto de atividades científicas, tecnológicas e artísticas cujo objetivo é a representação gráfica, digital ou tátil da superfície terrestre. A representação gráfica da cartografia é feita pelos mapas e cartas. Um campo da cartografia é a Topocartografia, ou seja, a ciência aplicada com princípios, métodos e instrumentos empregados na determinação da posição relativa de elementos e pontos de uma porção da superfície terrestre, bem como sua representação gráfica detalhada. Quando os mapas são elaborados baseados nesse campo da cartografia eles são chamados de cartas topográficas. Portanto, as cartas topográficas nos fornecem informações sobre o relevo do terreno, ou seja, suas configurações com todos os acidentes geográficos naturais ou artificiais como, por exemplo, drenagens, morros e montanhas, vales, cânions, construções, estradas, linhas de alta tenção e muito mais. E como as cartas topográficas trazem elementos fundamentais àqueles que pretendem navegar, pois – como discorrido anteriormente – representam todos os elementos da percepção visual, tornaram-se os mapas mais populares para a prática de atividades ao ar livre.

As cartas topográficas são divididas em padrões Planimétricos e Altimétricos. O planimétrico representa, através de projeções horizontais, as informações existentes na superfície terrestre, entre elas podemos citar a legenda e a escala. O padrão altimétrico, por sua vez, representa o terreno através de cotas ou distâncias verticais, tendo como referência uma projeção vertical, por exemplo, as curvas de nível.

Fique atento para a data de criação ou edição da carta. As cartas topográficas utilizadas no território brasileiro foram confeccionados pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – e pelo DSG – Diretoria de Serviço Geográfico do Exército -, em sua maioria, nas décadas de 70 e 80 contendo, portanto, informações antrópicas de padrão planimétrico desatualizadas. Não é raro você encontrar uma estrada asfaltada no lugar de uma estrada de terra ou uma cidade três vezes maior que o indicado na carta. Mesmo assim, a carta topográfica continua sendo uma ferramenta fundamental, já que modificações geológicas e geomorfológicas expressivas do padrão altimétrico no terreno levam milhares de anos para ocorrer. Em resumo, é difícil encontrar alterações nas curvas de nível do terreno numa carta topográfica.

Carta topográfica
CARTA TOPOGRAFICA: Legenda: Carta Topográfica do Município de Corumtabaí – SP. Fonte: IBGE

Legenda

As cartas topográficas são providas de legenda contendo diversas informações, além de símbolos e cores. Seus significados nos ajudam na compreensão e interpretação e são – de maneira geral – padronizados; cores preta e vermelha são associadas à alterações humanas como trilhas, caminhos, linhas de alta tensão, escolas, igrejas, etc. A cor azul é relacionada aos elementos da hidrografia como rios, mangues, saltos, cachoeiras, entre outros. E os diversos tons de verde à vegetação como matas, florestas e culturas permanentes ou temporárias. Note que alguns símbolos são muito parecidos e podem nos confundir como, por exemplo, trilhas e caminhos. Por isso, é extremamente importante prestar atenção na representação visual de cada símbolo antes de ir à campo.

Legenda da carta topográfica
Carta topográfica de Rio Claro, 1:50.000. Fonte: IBGE, 1969

Outras informações compartilhadas na legenda que podemos observar correspondem à declinação magnética, à localização da carta no estado brasileiro, divisão administrativa entre municípios e estados, data de confecção, edição e impressão e muito mais. Sugiro perder um bom tempo de qualidade para analisar cada uma destas informações.

Escala da carta topográfica

A escala “descreve” a proporção matemática entre o mundo real e sua representação na carta topográfica. Tomemos uma escala de 1:50.000 como exemplo. Neste cenário 1 unidade no mapa representa 50.000 unidades no terreno. Note que a unidade escolhida deve ser a mesma para ambas as escalas, ou seja, neste exemplo 1mm no mapa equivale a 50.000mm no terreno. Se trocarmos a unidade no mapa para centímetros teremos que acompanhar também a mesma unidade no terreno, logo 1cm no mapa representaria 50.000cm no terreno e assim por diante. Contudo, para facilitar as contas matemáticas durante a prática da navegação e orientação, indico utilizar como unidade da carta os centímetros, pois assim é possível usufruir de uma régua sobre o papel (carta) e como unidade de terreno os quilômetros ou metros que são medidas de nosso cotidiano e de fácil compreensão.

Para tanto (e lembrando das nossas aulas de escola), sabemos que 1m equivalem a 100cm (ou 1cm = 0,01m), bastaria uma simples regra de três onde:

1m na carta topográfica está para 50.000m no terreno e
0,01m (1cm) na carta está para Y no terreno

Multiplicando os fatores:
Y x 1m / 0,01m x 50.000m

Temos:
Y = 500m2 / 1m
Y = 500m

Portanto, numa escala de 1:50.000 concluímos que 1cm na carta (papel) representam 500m no terreno a nossa volta. O mesmo vale para trabalhar com milímetros, seguindo o mesmo raciocínio, teremos que 1mm na carta (papel) equivalem a 50m no terreno a nossa volta. Com isso, se medirmos uma trilha na carta com a ajuda de uma régua e ela tiver, digamos, 10cm de comprimento, deduzimos que será necessário percorrer no terreno 5.000m, ou seja, 5km. No entanto, observe que a menor escala de uma régua é 1mm, ou seja, neste exemplo, a menor escala no terreno será de 50m. Em outras palavras, ao se caminhar 50m no terreno, sabemos que no movimentamos “apenas” 1mm no mapa.

Uma segunda maneira de trabalhar com estes números é seguir a tabela de multiplicação e divisão do esquema abaixo.

Para facilitar as conversões em mapas, pode-se usar a regra a seguir que traz multiplicações e divisões por potências de 10. Fonte: Danielle Hepner
Para facilitar as conversões em mapas, pode-se usar a regra a seguir que traz multiplicações e divisões por potências de 10. Fonte: Danielle Hepner

Curva de Nível

Curvas de nível são as linhas que os cartógrafos desenham nos mapas para representar a geografia e o terreno (topografia) daquela região. Elas são uma medida de elevação aferidas sobre uma constante, o oceano neste caso. Mas a elevação, por si só, não é capaz de prover uma imagem do terreno, ela é apenas uma coleção esporádica de pontos de altitude. Para melhorar esta situação, os cartógrafos conectaram todos os pontos da mesma elevação num grande exercício de “ligue os pontos”, produzindo como resultado final as curvas de nível. Assim, se uma curva de nível possui 30 metros sobre o nível do mar, deduzimos que todos os pontos em sua linha também possuem a mesma altitude.

Num segundo exemplo, vamos imaginar que seja possível cortar em fatias horizontais e paralelas ao nível do mar uma formação geográfica como uma montanha. O primeiro corte seria feito na base, ao nível do mar, e os demais sucessivamente após uma determinada distância vertical entre si. Imagine, agora, que as bordas dessas fatias pudessem ser desenhadas num mesmo papel. Isso é, de maneira conotativa, o que as curvas de nível representam: as “bordas” de mesma altitude daquela montanha. Observe a coluna da esquerda no esquema abaixo – visão lateral – cuja ilha foi “cortada” três vezes a cada subida de maré, gerando quatro fatias (a primeira do nível do mar e as outras três com a subida do oceano). Estas fatias têm a sua borda desenhada e representadas na coluna da direita – visão aérea. A carta topográfica seria criada ao sobrepor cada uma destas fatias no papel e, em seguida, desenhar as suas bordas.

Representação das curvas de nível
Representação de criação das curvas de nível. Fonte: Antônio Calvo e Paul Rosas, 2007.

Por definição, sabemos que:

1. Duas curvas de nível nunca se cruzam;
2. A curva de nível não se interrompe, ela é uma “circunferência irregular”;
3. A distância vertical (padrão altimétrico) entre duas curvas de nível é sempre a mesma, porém a distância horizontal (padrão planimétrico) pode variar;
4. Quanto mais próximas as curvas de nível estiverem entre si, maior a declividade e quanto mais distantes, menor a declividade.

Procure na legenda da carta topográfica o valor da equidistância entre as curvas de nível. É com esta informação que você saberá a diferença, em altitude (lembre-se, estamos falando de escala vertical), entre cada curva de nível. Agora observe na carta – ao longo da curva de nível – este valor em relação ao nível do mar, note que numa carta de 1:50.000 ele só aparece a cada 100m, ou seja, a cada cinco curvas de nível uma possui um traçado em negrito. Desta forma, para conhecer a altitude das outras curvas de nível, basta somar ou diminuir o valor da equidistância entre elas. Se a escala apresenta, por exemplo, tiver uma equidistância de 20m, a curva “acima” da negrito será igual a: valor da curva negrito + 20m. Duas acima seriam: valor da curva negrito + 40m. E assim sucessivamente até a próxima linha em negrito. No caso do terreno baixar, basta repetir o raciocínio subtraindo o valor.

Curvas de nível
Carta topográfica à esquerda e a sua representação em imagem 3D à direita. Fonte: ClassZone, 2006

Uma outra característica das curvas de nível é “mostrar” a declinação do terreno. Quanto mais próximo uma curva de nível está da outra, mais inclinado é o terreno. E quanto mais distante elas estão, mais suave é a inclinação do lugar.

Terminologia e feições:

a) Crista – também chamada de “divisor de águas”, separa duas bacias hidrográficas adjacentes. É a região de menor declive para ascensão ao cume;
b) Cume– região mais alta do relevo. Uma mesma montanha pode ter mais de um cume;
c) Vale – é a parte mais baixa entre duas montanhas. Seu curso é normalmente acompanhado de uma drenagem;
d) Colo – parte mais baixa entre dois cumes de uma mesma montanha;
e) Declive suave – curvas de nível esparsas;
f) Declive acentuado – curvas de nível muito próximas.

Representações das terminologias e feições numa carta do IBGE
Representações das terminologias e feições numa carta do IBGE. Fonte IBGE, 2023.

Você encontra as cartas topográficas do Brasil nos sites do IBGE (Cartas e Mapas > Folhas Topográficas) e do BDGEx. Salve o arquivo em .pdf e leve-o até uma gráfica para imprimir num ploter. Peça ao atendente para não mudar a escala ou tamanho do arquivo, pois assim você conseguirá navegar com a escala original. E como dica final, escolha um local conhecido, leve o mapa e navegue por ele sem medo de se perder (afinal, você já conhece o lugar). Assim, irá aos poucos ganhando confiança antes de partir para uma aventura em trilhas desconhecidas.

Se você gostou deste texto, fique atento às próximas publicações. O próximo assunto será uma continuação deste tópico.

Boas aventuras.

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Antônio Calvo

Coluna: Montanhismo e Orientação
Antônio Calvo é guia de montanha, instrutor, palestrante e empresário. Formou-se como instrutor de atividades ao ar livre no Canadá pela Outward Bound em 2004. Possui experiências guiando na Antártica pelo Programa Antártico Brasileiro, nas Rochosas Canadenses, na Cordilheira dos Andes e, claro, em nossa linda Serra da Mantiqueira. Em 2010 criou a sua própria empresa – o Armazém Aventura – que concentra toda essa experiência em uma loja, operadora turística e também escola. Localizada no centro de São Bento do Sapucaí – SP, aos pés da Pedra do Baú, o Armazém Aventura atende aqueles que procuram algum equipamento para camping e montanhismo, os turistas que tem interesse em subir a Pedra do Baú e as pessoas com vontade de realizar os cursos de escalada, auto resgate ou mapa & bússola.

Artigos: 6

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