Em agosto de 2026, a história da escalada brasileira ganhou um marco: uma equipe composta por cinco mulheres abriu uma via, batizada de Sintonia, na Pedra Baiana, em Nova Belém (MG). O paredão imponente tem cerca de 800 metros.
À frente da iniciativa está Laura Pineau, escaladora francesa que veio ao Brasil para aprender português, trazendo esse sonho na bagagem. Seu desejo era realizar a conquista ao lado de mulheres brasileiras, compartilhando seu vasto conhecimento na escalada.
No dia 2 de agosto, Laura, Danielle Pinto, Gisely Ferraz, Miya Tsudome e Julia Trojan, iniciaram a expedição, que seguiu até o dia 20, quando chegaram ao cume da Pedra Baiana, concretizando a abertura da via.

Pedra Baiana: Nova Belém (MG). Foto: Pedro Paulo Nascimento – @pdr.rn
Para Danielle Pinto, que participará da V Jornada Cultural e Científica de Montanhismo, a conquista representou a realização de um objetivo.
No início de 2026, ainda sem conhecer o projeto de Laura, ela colocou o desafio de escalar um big wall como meta e começou a se preparar.
Duas semanas antes da expedição para a Pedra Baiana, seu chamado foi atendido de forma inesperada. Laura estava em busca de brasileiras para integrar a equipe formada por ela, Gisely e Miya.
“Eu soube da expedição pela Gisely e, imediatamente, disse a ela que queria participar, nem que fosse carregando mochilas! Conversei com a Laura e recebi esse presente!”, conta Danielle.

Danielle Pinto. Foto: Pedro Paulo Nascimento – @pdr.rn
A busca pela linha da Sintonia
Ao chegarem à Pedra Baiana, a primeira missão era encontrar a via. Na sequência, a equipe se organizou em duplas, que se revezavam: Laura e Julia, e Gisely e Danielle. Emocionada, Danielle, responsável pela primeira enfiada, conta que a equipe recebeu um sinal de que aquela era a via certa:
“Achamos uma linha chegando na base, varando o mato. Avistei uma flor linda, roxa, que nunca havia visto, além de um inacreditável totem de cristal. A Gisely ainda encontrou uma folha em formato de coração, símbolo que representa uma parte de sua história. Falamos uma para a outra: vai ter que ser aqui!”

Danielle Pinto. Foto: Pedro Paulo Nascimento – @pdr.rn
No início da expedição, o objetivo da equipe feminina era abrir duas cordadas por dia. Enquanto uma dupla trabalhava, a outra descansava. Em alguns dias, saíam às 6h e retornavam às 22h, conforme o ritmo da conquista se tornava mais intenso.
No primeiro dia, elas abriram 3 enfiadas. No dia seguinte, subiram pelas cordas fixas para continuar a conquista e acrescentaram outras 2. O ritmo foi aumentando gradualmente e o acampamento na parede foi montado a aproximadamente 300m de altura, evitando que as escaladoras precisassem fazer o percurso de subida e descida a cada jornada. A via Sintonia foi aberta com técnicas de escalada em livre e artificial. Ao todo, foram conquistadas 22 enfiadas, com graduações de até 10b.

Foto: Pedro Paulo Nascimento – @pdr.rn
Via Sintonia: o nome que reflete a harmonia do grupo feminino
A primeira via brasileira aberta em big wall por uma equipe 100% feminina ganhou o nome de Sintonia por simbolizar uma conquista coletiva, onde os esforços foram somados e o companheirismo prevaleceu.
“Quando o objetivo é chegar ao cume, cada uma deve oferecer o que tem de melhor para atingir o resultado. Se você está ali para fortalecer o seu ego, não funciona porque não é um trabalho individual. Muitas vezes, você deixa de guiar uma cordada porque a outra vai melhor naquilo. Esse espírito de equipe é fundamental. Por isso que deu certo.”
Apesar dos riscos que envolvem a abertura de uma nova linha, em um ambiente inóspito e instável, os caminhos foram abertos sem nenhum incidente. A equipe também encontrou uma dinâmica de colaboração, respeitando as diferenças entre as integrantes e realizando, todas as noites, uma conversa para avaliar o dia e resolver possíveis conflitos.
Um dos desafios pessoais enfrentados por Danielle foi voltar ao lugar de aprendiz, já que, acostumada a ministrar aulas e cursos de escalada, ela geralmente ocupa a posição de liderança. Ao fazer o que nunca tinha feito, ela contou com as instruções da Gisely e teve a humildade para aprender seus ensinamentos, superando o medo de falhar.
“A sintonia entre todas foi enorme. Cada uma achou uma cordada em uma especialidade que gosta. Ninguém se conhecia e nos tornamos amigas após a expedição”, conta Danielle, emocionada.

Sintonia, companheirismo e amizade. Foto: Pedro Paulo Nascimento – @pdr.rn
Legado para escaladores e referência para as mulheres
A via aberta na grande parede da Pedra Baiana tem certo grau de dificuldade e deve ser feita em mais de um dia. Segundo Danielle, a preocupação do grupo foi deixá-la bem protegida, segura e limpa, proporcionando uma experiência transformadora para os próximos escaladores.
Ela explica que as 10 primeiras enfiadas, que somam cerca de 350m, são bastante acessíveis. Há apenas um trecho de off-width, graduado em 8º grau, que pode ser vencido com camalot (equipamento de segurança móvel) 4 e 5. As enfiadas seguintes apresentam graduações mais difíceis, chegando ao 10º grau, mas também podem ser escaladas em artificial. Os últimos 200m são graduados em 4º grau.
Além de proporcionar um novo destino para os escaladores, a abertura da via Sintonia representa uma referência para outras mulheres e reforça a autoconfiança feminina.
“A gente raramente vê uma mulher fazer um negócio desse, sempre os homens. Difícil a gente quebrar essa barreira e dizer: eu posso. Cada vez que você vê mais mulheres realizando conquistas como essa, fica mais natural acreditar que a gente também pode.”
Como toda conquista realizada por mulheres em ambientes majoritariamente masculinos, Danielle relata que foi questionada em suas postagens nas redes sociais, tendo suas habilidades colocadas à prova enquanto deixava sua marca na história da escalada feminina.
“Se você é mulher e está fazendo algo em uma área dominada por homens, tudo o que você fizer será questionado. Se um homem estivesse lá fazendo a mesma coisa, isso não aconteceria. A gente tem que se provar o tempo todo. Isso é uma coisa do nosso sistema patriarcal. Não levo para o pessoal. Estamos aqui para tentar mudar isso.”
Há 20 anos na escalada, Danielle incentiva as mulheres a conquistarem cada vez mais espaço, assumindo seus papéis com coragem e autoconfiança, reconhecendo seus conhecimentos e técnicas para alcançar novos caminhos.
A escaladora ressalta que o fato das cinco mulheres terem entrado para a história com a conquista realizada na Pedra Baiana aconteceu porque Gisely e Laura conseguiram criar as condições e reunir a estrutura necessária para a realização do projeto.
“Para as mulheres é tão difícil estar nesses lugares. Muitas não têm tempo ou condições para se dedicar ao que gostam, principalmente quando são mães e responsáveis pelos cuidados com a família. Se elas mal têm tempo de treinar em uma academia, como vão ter tempo para se dedicar a um esporte? Portanto, sinto-me privilegiada e grata”.
Esse é um dos temas que Danielle Pinto debaterá na mesa-redonda “Peculiaridades femininas nos esportes ao ar livre”, ao lado de Camila Bassi, Fernanda May, Leticia Fliess e Micaela Lopez, durante a V Jornada Cultural e Científica de Montanhismo. Além disso, ela ministrará o workshop “Gerenciamento de risco na escalada”, com Mônica Filipini.
“Eu tenho uma filha de 12 anos e acho importante esse debate para promovermos mudanças. Espero que ela e outras mulheres não precisem ficar batendo nessa tecla, tendo que se provar o tempo e responder a questionamentos sobre suas capacidades”, finaliza Danielle Pinto.
A V Jornada Cultural e Científica de Montanhismo acontece de 30 de outubro a 2 de novembro de 2026, em Lídice, distrito de Rio Claro (RJ).
