Quando se trata de trekking, especialmente nos estilos Trekking Light e Trekking Ultralight, muitos entusiastas se apegam a conceitos e números pré-definidos, como o conceito do “peso base”, muitas vezes sem considerar as necessidades e diferenças individuais.
É evidente a importância de realizar um trekking com menos peso. Uma mochila mais leve pode significar maior conforto, menos desgaste físico e uma experiência geral mais agradável. No entanto, essa busca por leveza precisa ser abordada com critério.
É fundamental considerar aspectos de segurança que envolvem o local onde a atividade será realizada, a época do ano, as condições climáticas e a temperatura esperada. A tentativa de reduzir o peso da mochila não deve comprometer a segurança e o bem-estar do praticante.
Neste artigo vou explorar esta questão e destacar a importância de uma abordagem mais personalizada.

Compreendendo os diferentes tipos de peso
Para começar, é essencial entender os diferentes tipos de peso envolvidos em um trekking:
- Peso Base: O peso da mochila com todo o equipamento, excluindo-se os consumíveis. Diferente dos Consumíveis, o Peso Base não varia de acordo com o tempo.
- Peso de Consumíveis: Inclui comida, água e combustível que serão consumidos ao longo da caminhada. Vale lembrar que em uma atividade longa, com necessidade de reabastecimento, o peso destes itens vão caindo ao longo do tempo, pois são consumidos, e em um determinado momento, aumentam novamente.
- Peso da Mochila: A soma do Peso Base e do Peso de Consumíveis.
- Peso Vestindo: O peso do que está no corpo, como roupas, boné, relógio, etc.
- Peso Total: A soma do Peso da Mochila e do Peso Vestindo.
Classificação do Trekking pelo Peso Base
Agora que falamos sobre os diferentes tipos de peso, vamos entender como o Peso Base nos ajuda a classificar o tipo de Trekking que estamos praticando. Nos Estados Unidos, foram definidos valores específicos de Peso Base para diferentes categorias de trekking, conforme mostrado no gráfico a seguir:

Esses valores são guias gerais, mas é essencial lembrar que cada pessoa deve adaptar esses números às suas necessidades e condições específicas. Ou seja, não adianta tentar chegar ao Peso Base de 4,54 kg apenas para se sentir um Trekker UltraLight.
Todos temos por objetivo ter uma mochila pesando o menos possível, mas existem diversos aspectos a serem avaliados.

Diferenças individuais importam
As pessoas são diferentes, com necessidades e tamanhos variados, o que afeta diretamente o peso e o volume das mochilas. Por exemplo, vamos consideremos as roupas e calçado:
- Eu uso roupas tamanho XL masculino, enquanto minha esposa usa roupas tamanho S feminino. As mesmas roupas, de mesmas marcas e modelos, têm pesos e volumes significativamente diferentes. Na média, minhas roupas são 47% mais pesadas que as dela. No gráfico abaixo, inclui uma comparação entre nossas roupas e calçado. Isso mostra que, por mais que eu queira, nunca vou chegar ao Peso Base que minha esposa consegue chegar.

- O saco de dormir também pode apresentar uma diferença significativa de peso e volume. Desta vez, vou comparar com o saco de dormir do meu filho. Eu tenho 1,92 m de altura e ele 1,70. Desta forma, o meu saco de dormir é maior que o dele, portanto mais pesado e mais volumoso. Por outro lado, mesmo minha esposa sendo mais baixa, com 1,62 m de altura, ela é mais sensível ao frio. Seu saco de dormir é menor em relação às dimensões, mas tem mais enchimento, portanto mais volumoso e mais pesado.
Além das diferenças físicas, necessidades de saúde também impactam o peso da mochila:
- Eu preciso tomar determinados suplementos e vitaminas diariamente. Em uma caminhada como o Caminho de Santiago, que percorri durante 35 dias, isso representou um peso extra de 960 g em consumíveis ao sair de casa, pois sai com tudo o que eu precisava para todo este período de caminhada. (Neste caso estamos falando de um Multi-Day Hiking e não de um Trekking, mas o conceito se aplica da mesma forma.)
- Também no Caminho de Santiago, conheci pessoas que precisavam carregar um CPAP, equipamento essencial para quem sofre de apneia do sono severa, acrescentando peso extra à mochila. Ou seja, mesmo que estas pessoas estivessem usando exatamente os mesmos equipamentos, seu Peso Base seria maior que o meu.
Personalizando a abordagem
A ideia central deste artigo é desmistificar a noção de que existe um peso e volume padrão que todos devem seguir. Embora seja indiscutível que uma mochila mais leve é geralmente melhor, é crucial adaptar as recomendações às necessidades individuais com coerência. Algumas dicas para uma abordagem personalizada incluem:
- Avalie suas necessidades: Considere seu tamanho, necessidades de saúde, sensibilidade ao frio, entre outros fatores pessoais.
- Adapte seu equipamento: Escolha equipamentos que atendam às suas necessidades específicas, mesmo que isso signifique carregar um pouco mais de peso.
- Planeje com flexibilidade: Esteja preparado para ajustar o peso da mochila com base na duração da caminhada, nas condições climáticas e no ambiente em geral.
- Foque no conforto e segurança: Priorize itens que garantam seu conforto e segurança, mesmo que aumentem o peso base.

A influência do equipamento no peso base
O tipo e a qualidade do equipamento também influenciam significativamente o peso base. Optar por equipamentos mais leves, como barracas ultraleves, sacos de dormir compactos e mochilas feitas de materiais leves, pode ajudar a reduzir o peso total sem comprometer a funcionalidade e a segurança. Mas, atenção pois o tipo de atividade impacta diretamente na escolha do equipamento.
Se você for fazer um trekking em Alta Montanha, não vai ser possível utilizar uma barraca ultralight ou um tarp. Necessariamente, a barraca vai ser mais pesada em função das condições climáticas mais severas. Além disso, todo o sistema de dormir (saco de dormir, isolante térmico e eventualmente liner e travesseiro) vão ser mais pesados quando comparados com os equipamentos utilizados em um trekking em um ambiente cujo clima é mais ameno.
Apenas para comparação, dois sacos de dormir de um mesmo modelo, no caso o Spark da Sea to Summit, apresentam pesos muito diferentes em função de suas faixas de temperatura. O Spark +7 ºC, cuja Temperatura Limite é de +7 ºC pesa 363 g enquanto o Spark -18 ºC, com Temperatura Limite de -18 ºC, pesa 1.113 g.

Ou seja, se vou para um local cujas temperaturas vão ser muito baixas ou se eu tenho mais sensibilidade ao frio, inevitavelmente meu saco de dormir vai ser mais pesado do que o de alguém com menor sensibilidade ao frio e que está acampando em um local com clima mais ameno.
Este tipo de pensamento é fundamental para a escolha do equipamento, justamente para evitar que você pense apenas no peso do equipamento e não em suas características e se elas são compatíveis com suas necessidades.
Conclusão
Ao planejar sua mochila de trekking, é essencial pensar além dos números predefinidos e considerar suas necessidades individuais. Uma abordagem mais personalizada e coerente não apenas melhorará sua experiência, mas também garantirá sua segurança e conforto ao longo da caminhada. Lembre-se, cada grama conta, mas cada pessoa é única!
Gostou do artigo? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe suas experiências e dicas sobre como adaptar o peso da mochila às suas necessidades pessoais!
Este post também está disponível em: English (Inglês) Español (Espanhol)
