O uso insustentável dos oceanos

Muito se fala a respeito da sustentabilidade, porém poucos compreendem de fato sua definição. O conceito de sustentabilidade surgiu apenas em 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, e parte do pressuposto de que é possível atender às necessidades das gerações atuais sem comprometer as gerações futuras, garantindo simultaneamente o crescimento econômico, o respeito ao meio ambiente e o bem estar social.

O uso sustentável de florestas e diversos outros recursos terrestres é um assunto que se mostra em voga mais que nunca e de fato, se trata de uma urgência inquestionável. Mas é preciso também direcionar nossa atenção a lugares que são muito menos conhecidos e vistos por nós, os oceanos. A associação de que no mar existe quase uma infinitude de vida é um conceito enraizado na sociedade, afinal, mais de 70% da superfície do planeta Terra é água salgada, o que se comparado a outros ambientes e ecossistemas, há uma significativa vantagem, e é justamente aí que mora o perigo.

Uso insustentável dos oceanos

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), os impactos da pesca nos ambientes aquáticos podem ser comparados aos da agropecuária no ambiente terrestre, afetando não apenas o equilíbrio ecológico em escala local, como também global. É importante salientar que quando tratamos da pesca insustentável, nos referimos a pesca exploratória de proporções industriais, que contam com navios equipados de maquinários altamente destrutivos. De acordo com um estudo publicado na National Academy of Sciences, EUA, na pesca de arrasto, modalidade na qual uma grande rede é lançada ao fundo, criando um bolsão, capturando qualquer organismo que esteja no caminho, apresenta capturas nas quais pelo menos 90% do pescado não é o objetivo da pesca, ou seja, são espécimes que foram acidentalmente capturadas, e esse processo é conhecido como bycatch. Poderia a pesca artesanal causar o mesmo impacto? Não. Apesar do bycatch também ser possível de acontecer na pesca artesanal, a probabilidade diminui drasticamente, o que torna o consumo proveniente de pescadores locais uma boa alternativa ao pescado vendido em grandes redes. O problema não se resume apenas a pesca de arrasto de grandes indústrias, mas também a diversas outras técnicas usadas, como o espinhel que consiste em uma linha repleta de anzóis com iscas que são estendidas por até 80 quilômetros com cerca de 1200 anzóis distribuídos por esse comprimento, dado surpreendente e quase inimaginável divulgado pelo Projeto Albatroz.

Mas como relacionar a pesca abusiva com a sustentabilidade dos mares? Vamos imaginar a dinâmica e a ecologia do ecossistema marinho de forma muito superficial, começando com a capacidade regenerativa do estoque pesqueiro. Em tese, se respeitando uma periodicidade na pesca, seria possível que as espécies alvo tivessem tempo o suficiente para se reproduzir e gerar sua prole, fazendo com que não houvesse um déficit na população desses animais. Essa matemática parece bem simples, e se resume na necessidade de dar tempo para os organismos se recuperarem da captura em larga escala. Porém, como estamos falando de um processo conhecidamente insustentável, sabemos que não é isso o que acontece. A sobrepesca faz com que a dinâmica do ecossistema marinho se tornem extremamente vulneráveis, já que existe uma teia alimentar que torna possível o equilíbrio nesses ambientes. Em suma, nós retiramos mais do que a natureza consegue repor, e seguindo assim, chegará um momento em que não teremos mais nada para retirar. De acordo com dados do SOFIA 2022 (State of World Fisheries and Aquaculture), em 2019 a porcentagem de unidades populacionais de peixes explorados de forma sustentável caiu para 64,6%, e o consumo está projetado para aumentar em 15%, alcançando a quantidade de 21,4 Kg per capita em 2030. Lembrando que a maior parte do que é pescado, não são alvo da captura, impactando nas populações de diversos outros animais como tartarugas, cetáceos e até mesmo diferentes espécies de peixes que em nada teriam relação com a pesca.

Além da problemática exposta, existe ainda um perigoso tipo de resíduo ligado diretamente à indústria pesqueira: as redes fantasmas ou ghost nets. As redes fantasmas são restos de redes ou equipamentos que possam provocar o emalhe que são abandonados nos oceanos, causando a captura constante de animais que acabam se deparando com essas gigantes armadilhas abandonadas. De acordo com a Ocean Conservancy 90% da vida marinha que acaba presa e morta nestas redes são espécies que possuem algum valor comercial, e além disso, foi constatado o declínio de até 30% na quantidade de estoques pesqueiros por conta das redes fantasmas. Ou seja, além de pescarmos além da capacidade regenerativa do ambiente, ainda deixamos para trás redes fantasmas que não matam apenas peixes, mas leões marinhos, baleias, golfinhos, tubarões e tantas outros animais que encaram uma morte lenta, muitas vezes por asfixia e ferimentos extremos. Sabendo dessa realidade, escolha o consumo consciente!

Avatar photo
Marina Mascarenhas

Bióloga e instrutora de mergulho apaixonada pelo mundo subaquático. Desde 2015, mergulhando em incríveis experiências nacionais e internacionais explorando lugares como Fernando de Noronha e Tailândia. Defensora da sustentabilidade e educação ambiental, ministra palestras em escolas e faculdades, promove workshops e cursos sobre ecologia marinha, mergulho científico e preservação. Apesar de imersa nos oceanos, participou também de expedições com a equipe da UFRJ no Parque Nacional do Itatiaia com pesquisadores botânicos e entomologistas em trabalhos de campo. Atualmente mestranda no programa de biologia marinha da Universidade Federal Fluminense - UFF.

Artigos: 2

Deixe um comentário

This site is registered on wpml.org as a development site. Switch to a production site key to remove this banner.