A estátua de Santiago Apóstolo que se encontra no Altar Maior da Catedral de Santiago de Compostela é uma peça de grande importância e significado para o peregrino, pois a peregrinação a Santiago não termina quando se chega à Praça do Obradoiro. Ela só está completa depois que o peregrino dá um abraço na estátua de “Santiago do Abraço”!

Catedral de Santiago de Compostela

Para contar um pouco da importância deste símbolo, precisamos voltar na história da própria Catedral de Santiago de Compostela, que é a obra mais destacada da arte românica da Espanha e também o objetivo final de todos os Caminhos de Santiago, que durante séculos conduziram peregrinos ao Sepulcro do Apóstolo Santiago.

O Altar Maior da Catedral de Santiago de Compostela foi erguido no estilo românico do século XIII, mas nada mais resta deste altar a não ser a estátua de Santiago do Abraço. Hoje o altar maior e sua decoração exuberante são de estilo barroco e datam do século XVII, representando uma intervenção maravilhosa da arquitetura barroca na catedral românica.

Altar da Catedral de Santiago de Compostela

Diferente da maioria das igrejas, onde o altar é presidido por um crucifixo, no Altar Maior da Catedral de Santiago, Santiago é o elemento mais proeminente. Ele aparece representado três vezes no altar, cada uma representando um aspecto diferente.

Apóstolo Santiago

– No topo, coroando a estrutura, está Santiago Cavaleiro, triunfante em um cavalo branco, acompanhado pelas virtudes cardeais nos cantos.
– No espaço intermediário, encontra-se Santiago Peregrino, acompanhado pelos reis Afonso II, Ramiro I, Fernando o Católico e Felipe IV.
– No espaço atrás do altar, está a imagem do século XIII de Santiago Apóstolo, sentado, a qual os peregrinos vão abraçar.

Santiago de Compostela

A estátua de “Santiago do Abraço”

A estátua de Santiago Apóstolo, também conhecida como “Santiago do Abraço”, foi projetada pelo renomado Mestre Mateo, o mesmo autor do Pórtico da Glória. Desde sua concepção, a escultura foi criada com a intenção de ser abraçada pelos peregrinos, refletindo assim a sua característica singular.

Santiago do Abraço

Ao longo de mais de 800 anos, inúmeros peregrinos já tiveram o privilégio de abraçá-la, tornando-a um símbolo de devoção, superação e esperança. Embora tenha havido várias tentativas de substituir a estátua por uma versão mais moderna ao longo dos séculos, o apelo popular sempre prevaleceu, e Santiago do Abraço continua firme e forte, sendo a única peça do altar medieval que sobreviveu.

Santiago do Abraço

No século XVII, para adaptar a estátua ao estilo barroco do Altar Maior e diferenciá-la da estátua de São Pedro no Vaticano, alguns símbolos jacobeos foram adicionados e alguns adornos como um cajado (junto com ele a mão que o segura), uma coroa e uma capa de prata e pedras preciosas. Essas alterações refletiram o gosto da época e contribuíram para a harmonia estética do altar.

Estátua de Santiago

Durante a Idade Média, os peregrinos tinham várias tradições ao visitar a catedral, como colocar a mão no Pórtico da Glória, dar três cabeçadas no Santo de Croques, queimar as roupas usadas durante a peregrinação na Cruz dos Farrapos e passar a noite em vigília dentro da catedral, além de abraçar Santiago no Altar Maior.

Curiosamente, até o século XIX, os peregrinos não tinham permissão para visitar as relíquias do Apóstolo Santiago. No entanto, havia uma maneira pela qual os peregrinos sabiam onde estavam os restos mortais de Santiago, e isso era indicado pela própria estátua. A estátua de Santiago do Abraço apresenta um detalhe significativo: a mão direita repousa sobre a perna, e sutilmente um dos dedos aponta para baixo, indicando o local onde estariam guardados seus restos mortais.

Detalhe da estátua de Santiago apontando para onde estariam seus restos mortais

No entanto, os restos mortais de Santiago estiveram perdidos desde o século XVI, até que surpreendentemente, em 1879, durante escavações arqueológicas na Catedral, as ossadas foram encontradas na parte posterior do altar, trazendo à tona a redescoberta das preciosas relíquias sagradas.

Após a autenticidade das relíquias ser certificada pelo Papa através de uma Bula Papal, elas foram colocadas em uma urna de prata cinzelada do século XIX. Com isso, o sepulcro adquiriu a aparência atual e tornou-se parte integrante da tradição do peregrino que desce ao mausoléu para venerar as relíquias do Apóstolo Santiago.

Mausoléu Apóstolo Santiago

No entanto, algo inesperado aconteceu: o ritual do abraço a Santiago foi interrompido em 13 de março de 2020, devido às restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Somente agora, em 14 de junho de 2023, o camarim do Apóstolo Santiago foi reaberto, restabelecendo assim o antigo ritual em que os peregrinos podem abraçar a imagem do apóstolo. Aproveitando este momento, foi realizado uma completa restauração no Altar Maior e na própria estátua de Santiago do Abraço.

Restauração da estátua de Santiago do Abraço

E agora para organizar o acesso ao camarim, onde está localizada a estátua de Santiago do Abraço, foi estabelecido um percurso específico: Os peregrinos devem entrar na catedral pela porta Azabachería, permitindo-lhes venerar o Sepulcro do Apóstolo, e em seguida, subir à capela do Abraço. A saída é realizada pela porta dos Abades, localizada na parte alta da Quintana. O horário geral de acesso foi estabelecido das 8h30 até o fechamento da catedral, às 21h00.

Percurso do peregrino

Percurso do peregrino

Essas mudanças representam um retorno significativo para os peregrinos, permitindo-lhes retomar as tradições e honrar a figura do Apóstolo Santiago através do abraço à sua imagem. No entanto, é sempre recomendável verificar as informações atualizadas sobre horários e acesso antes de planejar uma visita, uma vez que podem ocorrer alterações.

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Ana Wanke

Coluna: Peregrinação
Engenheira, guia e empresária. Especializou-se no Caminho de Santiago: percorreu “El Camino” uma dezena de vezes, tem vários cursos da Universidade de Compostela sobre o Caminho e a cultura Galega, já prestou inúmeras consultorias para peregrinos. Hoje ela é uma Dama da Ordem do Caminho de Santiago, uma organização que protege o Caminho desde 1.170.

Artigos: 5

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