Se o termo “guardiões de sementes” ainda não faz parte do seu vocabulário, convidamos você a conhecer esta terceira matéria da nossa série sobre ações que podemos adotar para gerar impactos positivos ao meio ambiente.
Você vai descobrir como preservar sementes crioulas é um gesto simples para proteger a diversidade das plantas, valorizar os saberes ancestrais e promover uma alimentação mais saudável, inclusive nos centros urbanos.
Sementes crioulas: preservação da biodiversidade e dos saberes ancestrais
As sementes crioulas, também conhecidas como sementes tradicionais, são variedades ancestrais que não passaram por modificações genéticas em laboratório, preservando características selecionadas e cultivadas ao longo de gerações. São verdadeiras joias mantidas por guardiões de sementes que contribuem para a conservação da biodiversidade agrícola, por meio do resgate, da multiplicação e da preservação dessas variedades.
“As sementes crioulas são necessárias para manter a biodiversidade alimentar, mas, a cada ano, se tornam mais escassas. Quanto mais você preservar uma variedade e colher a sua própria semente, mais ajudará o planeta”, explica Igor Antônio Tavares, consultor agroflorestal e guardião de sementes do Sítio Joaninhas.
Para se ter uma ideia, estima-se que existam mais de 45 mil variedades de feijão no mundo, mas a maioria das pessoas conhece apenas algumas delas, como o feijão-preto, o carioca e o fradinho. Parte dessa diversidade já foi perdida, inclusive no Brasil. Ainda assim, Igor preserva mais de 1.500 variedades de feijão, com cores, sabores e histórias distintas.

Sítio Joaninhas preserva mais de 1.500 variedades de feijão
Responsável por um dos maiores bancos familiares de sementes do país, ele cultiva mais de 2 mil espécies. Entre os destaques está o teosinto, ancestral do milho cultivado atualmente, cuja preservação ajuda a compreender a trajetória evolutiva desse alimento ao longo de milhares de anos.
“Hoje, devido ao manejo, ao cultivo e à seleção realizada pelos povos tradicionais ao longo do tempo, temos cerca de 50 variedades de milho, como o milho preto, vermelho, roxo e cunha”, explica.

Variedades de milho
O compromisso de Igor com a preservação da biodiversidade se dá por meio da multiplicação, da comercialização e do compartilhamento de sementes e saberes com outros guardiões. O objetivo é que cada vez mais pessoas cultivem suas próprias variedades e contribuam para manter viva a diversidade agrícola.
O que difere as sementes crioulas das comerciais
Além de manter vivas a memória ancestral e a biodiversidade, as sementes crioulas se destacam por características como:
– Diversidade alimentar: as sementes crioulas ajudam a preservar variedades, sabores, cores e características que muitas vezes não chegam aos sistemas de produção em larga escala. Ao cultivar e consumir essas variedades, contribui-se para a manutenção da diversidade genética dos alimentos e para a valorização de conhecimentos agrícolas transmitidos entre gerações.
– Autonomia: preservar sementes crioulas fortalece a autonomia dos produtores, principalmente da agricultura familiar. Uma vez adquiridas, elas podem ser multiplicadas, compartilhadas e trocadas entre agricultores, contribuindo para a soberania alimentar e reduzindo a dependência de sementes comerciais. “Se um dia não existirem mais guardiões de sementes e a agricultura familiar para manter essas variedades, o povo ficará refém da indústria”, explica Igor.
– Resiliência: diferentemente dos grãos híbridos e transgênicos, desenvolvidos para atender a sistemas de produção em larga escala, as sementes crioulas evoluem e se adaptam ao clima e ao solo ao longo do tempo. Esse processo é guiado pela seleção realizada por agricultores e povos tradicionais ao longo de gerações. Por isso, muitas variedades apresentam maior capacidade de adaptação às condições locais, incluindo períodos de seca ou chuvas intensas.
“À medida que você planta uma variedade de milho crioulo por três ou quatro anos e colhe a sua própria semente, ela tende a se tornar mais resistente e produtiva. Com o passar do tempo, vai se adaptando às características de plantio, manejo, clima e composição do solo”, conta o consultor.
Quem são e como se tornar um guardião de sementes
Igor explica que o termo guardião de sementes é usado para unir pessoas, promover trocas e compartilhar conhecimentos, formando uma rede de resgate e preservação. Portanto, é um papel importantíssimo para a conservação da biodiversidade. São pessoas que preservam, multiplicam, comercializam e disseminam sementes.

Igor Tavares, do Sítio Joaninhas
Qualquer pessoa pode se tornar um guardião de sementes, mesmo cultivando e multiplicando poucas variedades. O primeiro passo é escolher quais espécies deseja preservar, o que pode ser feito com tranquilidade em pequenos espaços, incluindo vasos e jardineiras em apartamentos localizados nos centros urbanos.
Entre as recomendações do consultor estão cultivos que, além de contribuir para a biodiversidade, são ricos em nutrientes e podem até substituir plantas ornamentais, criando uma decoração bonita e funcional.
“Aposte em um jardim comestível. O tomate-cereja, por exemplo, você planta, consome na salada e ainda colhe as sementes para novos cultivos. Há também variedades de feijão de cores diferentes, com grãos pintados e muito decorativos, que podem ser consumidos, multiplicados, vendidos ou trocados. A fava, por exemplo, tem característica de trepadora e cria um visual incrível em cercas, grades e telas de janelas, formando uma parede verde que também produz alimento. Ela gera muitas sementes, produz bastante e é muito resistente. Não exige um local ideal para se desenvolver”, afirma.
Além disso, ele destaca cultivos como pimentão, berinjela e girassol-anão, que além de bonito tem sementes deliciosas para o consumo. A secagem das sementes e os processos de seleção e armazenamento variam conforme a espécie escolhida, mas essas orientações são fornecidas por Igor no momento da aquisição das sementes.
A sua semente crioula é única!
Utilizando o milho como exemplo, Igor destaca que a melhor semente será aquela adaptada ao seu próprio cultivo. Por isso, ele recomenda não se prender a comparações.
“Você pode pegar duas ou três variedades diferentes e plantá-las juntas. Elas vão incorporar características da região, do manejo e do solo. Alguns pés ficarão mais bonitos, outros menos. Você seleciona os melhores exemplares, colhe as sementes e guarda para o próximo plantio. Não existe nenhuma semente comprada de outra pessoa que será melhor do que a que você selecionou para a sua realidade. E ela será única!”
No caso do milho, é possível selecionar características específicas ao longo das gerações. Você pode optar por variedades que produzem espigas mais altas ou mais baixas, que geram duas espigas por pé ou que apresentam melhor desempenho em regiões mais secas ou mais úmidas.
“Tudo isso pode ser selecionado e transmitido para as próximas gerações. À medida que a planta se adapta às condições locais, ela se fortalece cada vez mais, mantendo características que favorecem o seu desenvolvimento naquele ambiente”, explica Igor.
O papel da comunidade no resgate de sementes crioulas
As sementes crioulas podem ser encontradas em feiras, redes de troca e em aldeias indígenas. Esses espaços são fundamentais para a circulação, preservação e fortalecimento das variedades, contribuindo diretamente para a manutenção da biodiversidade.
“Já perdemos algumas variedades por problemas ocorridos em determinados anos, mas conseguimos recuperá-las com a ajuda de outros guardiões, que cultivaram novamente essas sementes e puderam compartilhá-las. Não existe competição entre nós, apenas cooperação. Quanto mais guardiões existirem, mais a biodiversidade estará em boas mãos”, finaliza Igor.
Nós já somos guardiões, e incentivamos você a começar!
O Centro de Treinamentos Gear Tips, localizado na Fazenda da Glória, em Arapeí (SP), na Serra da Bocaina, já cultiva, em seu sistema agroflorestal, cinco variedades de milho (Sol da Manhã, Doce, Oaxacan, Pita e Pipoca Graúda), cinco variedades de feijão (Urutau, Mandi, Olho de Pomba, Cara Suja e Feijão-de-Porco), seis variedades de quiabo, além de abóbora-canhão e urucum.
“Nosso objetivo, além de oferecer os treinamentos do Programa CAPACITAR, é proporcionar experiências transformadoras por meio de ações que geram impactos positivos e incentivam uma alimentação mais saudável. A adoção das sementes crioulas se soma a iniciativas como a compostagem e a agrofloresta, entre outras práticas que já começamos a implementar”, conta Pedro Lacaz Amaral, fundador e CEO da Gear Tips e guardião de sementes crioulas.
Se você também busca formas de reduzir os impactos ambientais, confira esses conteúdos:
