Entre montanhas e histórias, Eliseu Frechou ajudou a construir a escalada no Brasil

Eliseu Frechou trocou a capital paulista por São Bento do Sapucaí em 1989, quando o conjunto da Pedra do Baú contava com menos de dez vias de escalada. Na época, o turismo de aventura começava a surgir no Brasil, mas pouco se falava sobre a modalidade.

Decidido a construir sua vida ali, fundou a primeira escola brasileira dedicada à escalada em rocha, abriu cerca de 250 vias entre São Bento do Sapucaí e Itajubá (hoje a região soma aproximadamente 450) e criou um grupo local de resgate em montanha.

Eliseu Frechou, Pedra da Divisa - São Bento do Sapucaí

Eliseu Frechou, na Pedra da Divisa – São Bento do Sapucaí

Outro de seus grandes feitos, tão importante quanto suas conquistas pessoais, foi registrar três décadas da história da escalada por meio do jornal Mountain Voices, a mais longeva publicação, até hoje, dedicada ao universo da atividade no país. Paralelamente, também passou a se dedicar à produção de filmes e documentários.

Recentemente, Eliseu mobilizou a comunidade da escalada com a campanha Faz o Nó, criada para chamar atenção ao crescente número de acidentes provocados pela falta de atenção em uma prática simples: fazer o nó na ponta da corda. Em menos de três horas, a hashtag #escaladasegura já reunia mais de 1.000 conteúdos produzidos e publicados por pessoas relevantes no meio, ensinando como fazer o procedimento.

Por não pensar apenas em sua trajetória individual, mas em disseminar a escalada desde o início, Eliseu Frechou tornou-se uma referência no cenário nacional, transcendendo a figura de atleta e inspirando gerações.

Eiseu Frechou na Indian Creek, em Utah - EUA

Eiseu Frechou na Indian Creek, em Utah – EUA

Do primeiro contato com a escalada às big walls e outras conquistas extremas

A paixão pela escalada nasceu aos 15 anos, quando Eliseu participou de uma demonstração de alpinismo no Pico do Jaraguá, ao lado de um grupo de escoteiros. “Fiquei doido! O montanhismo apresentado era muito arcaico, mas pirei com as cordas e os mosquetões.”

Mais tarde, participou de diversas excursões e entrou para o Clube Alpino Paulista (CAP). Ele relembra que, na época, existia apenas uma loja que comercializava equipamentos para trilhas, quase nada voltado à escalada. A escassez o levou a fabricar seus primeiros mosquetões.

Eliseu Frechou no Pico do Jargua em 1987

Eliseu Frechou, no Pico do Jaraguá – 1987

Hoje, aos 57 anos, ele soma no currículo grandes feitos em solo, dupla e equipe. No cenário nacional, destacam-se Neurônios Fritos e Distraídos Venceremos, em São Bento do Sapucaí (SP), e Terra de Gigantes, na Serra dos Órgãos (RJ); além de cerca de três centenas de novas rotas abertas na região da Serra da Mantiqueira, em diversos estilos e com até 10° grau de dificuldade.

Entre as conquistas internacionais estão big walls no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, como Half Dome, pela Northwest Regular Route, e El Capitan, pela rota Zenyatta Mondatta, uma das mais difíceis já escaladas por brasileiros. No mesmo parque, também escalou a Yosemite Falls, a maior cachoeira americana e a quinta mais alta do mundo.

Na África, em Mali, sob um sol intenso, estabeleceu com uma equipe brasileira a rota Solução Suicida. Ainda no país, abriu diversas vias e boulders, entre elas Filhos do Sol e Blowing in the Wind.

Eliseu Frechou

O começo do seu legado para a escalada

Quando decidiu, aos 20 anos, mudar-se para São Bento do Sapucaí, Eliseu vendeu duas gravuras recebidas de presente do artista Aldemir Martins para garantir os primeiros dois meses de aluguel e um de alimentação. “Comi muito arroz com abobrinha para pagar o aluguel”, conta.

Sua primeira iniciativa foi guiar pessoas até a Pedra do Baú. Já em seu primeiro ano no local, criou a primeira escola dedicada à escalada no país, a Montanhismus, por onde passou a maior parte dos guias que hoje atuam no esporte no Brasil, como Silvério Nery, Daniel Casas e Felipe Guimarães.

O propósito de Eliseu era desenvolver um método de capacitação personalizado, capaz de atender aos mais variados objetivos dos escaladores que chegam de diversas regiões. “Alguns querem abrir vias, outros querem ir para Yosemite, outros para a Patagônia. São tipos diferentes de escalada, que exigem técnicas diferentes. Por isso, os cursos são personalizados. Precisamos entender a necessidade da pessoa e o ambiente em que ela vive.”

Até hoje, Eliseu se mantém à frente dos cursos de escalada e realiza atendimentos individuais como guia em diversos destinos, sendo o profissional mais requisitado por quem deseja viver experiências de escalada em Yosemite. Em 2026, ele retornará ao local pela 17ª. vez.

A construção da memória da escalada

Jornal Mountain Voices: três décadas registrando a escalada

Enquanto construía sua trajetória nas montanhas, Eliseu também ajudava a construir um importante acervo da história da escalada no Brasil, ao dar voz a outros escaladores. Ao longo de 30 anos, editou em São Bento do Sapucaí 172 edições do jornal Mountain Voices, encerrado no início da pandemia.

Jornal Mountain Voices

Jornal Mountain Voices

O veículo tinha o objetivo de colocar a cidade no mapa da escalada de São Paulo e do Brasil, assim como divulgar as novidades no cenário do esporte. Se um escalador o procurasse com uma boa história para contar, Eliseu abria espaço para que narrasse em primeira pessoa a sua própria experiência, inspirando outras pessoas.

“Eu tinha a necessidade de fazer a informação circular e sempre priorizei o formato impresso pela credibilidade. Acredito que a palavra escrita no papel tem muita força. O PDF era mais uma forma de ampliar a circulação. Eu incentivava as pessoas a me mandarem suas histórias até em ‘papel de pão’, que eu digitava depois. Tenho muitas cartas guardadas até hoje.”

Nota do Sérgio Tartari para o jornal Mountain Voices

Nota do Sérgio Tartari para o Mountain Voices

O Mountain Voices era gratuito e circulava bimestralmente, com tiragem de 10 mil exemplares por edição. Para quem preferisse receber o jornal em casa, havia também a opção de assinatura. Parte desse acervo permanece disponível até hoje em formato digital, reunindo as edições de número 80 a 171.

Filmes, documentários e podcast para diferentes gerações

Dividindo as mãos entre as rochas e a câmera, Eliseu também se destaca na produção de filmes e documentários, contribuindo para ampliar e preservar a memória da escalada no país.

Eliseu Frechou

O escalador, que chegou a aparecer no Fantástico ao conquistar pela primeira vez a face norte da Pedra do Baú, produziu em 1999, originalmente para o canal SporTV, o documentário Terra de Gigantes, considerado o primeiro filme brasileiro de escalada comercializado e distribuído nacionalmente.

“Coloquei na cabeça que precisava subir uma via na Serra dos Órgãos, a Terra de Gigantes, uma das mais difíceis do Brasil. Produzimos todas as imagens da parede com uma câmera bem pequena recém-lançada pela Sony, com fitas minúsculas, mas que gerava imagens de qualidade suficiente para a TV.”

Entre os destaques de suas produções está a série Lobotomia, composta por três filmes que reuniram importantes nomes da escalada da época em diferentes cenários brasileiros. O primeiro, Escalada Brasil, percorreu diversas regiões do país, do Ceará ao Rio Grande do Sul. O segundo, Baú e Região, focado na Pedra do Baú e no sul de Minas Gerais, chegou às lojas em 2002 e teve grande sucesso de vendas em VHS. Já o terceiro, Porcos Voadores, registrou escaladas em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Fernando de Noronha.

Eliseu também produziu, durante nove anos, matérias sobre escalada para a ESPN e realizou outros filmes ao longo da carreira. Entre 2023 e 2024, dedicou-se à sua primeira websérie autoral, Profissão Montanhista, que acompanha um ano de sua trajetória nas montanhas. A primeira temporada reúne 13 episódios.

Além das produções audiovisuais, outro material que Eliseu compartilha com a comunidade é o podcast On The Rocks, iniciado durante a pandemia. Ao longo de mais de 50 entrevistas, ele conversa com personagens do montanhismo e da escalada, muitos deles conhecidos ao longo dos anos por meio do jornal e de suas produções, reunindo histórias que ajudam a preservar a memória do esporte no país.

Eliseu Frechou - Alpes

Um olhar para trás e um passo para frente

Ao se dedicar à escalada, Eliseu Frechou constrói um legado que vai além da própria trajetória. Assim como aconteceu com ele aos 20 anos, quando encontrou no esporte a possibilidade de realizar um sonho, hoje também abre caminhos para que outras pessoas vivam experiências transformadoras.

Ele conta que um dos momentos mais gratificantes é quando visita a Pedra da Divisa com a esposa, Ana, e observa escaladores em vias que ajudaram a abrir.

“É muito bom ver as pessoas escalando e comentando sobre as vias. Que bom que temos essa oportunidade de contribuir. Me sinto realizado. Só tenho a agradecer pela escolha que fiz de cuidar não apenas da minha trajetória, mas de olhar para a comunidade, fazendo com que todos se ajudem e cuidem do que a gente tem.”

A certeza que Eliseu tem hoje é que continuará escalando enquanto puder – e, claro, documentando tudo! Ele lembra da felicidade e do desafio que sentia ao escalar a Pedra da Ana Chata, no Complexo Pedra do Baú, ao chegar à São Bento do Sapucaí. “Hoje eu escalo bem melhor, mas com o passar do tempo vou voltar a escalar mal, porque vou envelhecer. Mesmo assim, vou continuar me divertindo.”

Eliseu acredita que não adianta simplesmente repetir a fórmula que funcionava em 1989, porque o tempo muda as coisas. Ainda assim, existe um modo de fazer que permanece válido. Ele se preocupou em deixar esse conhecimento bem documentado, destacando que a escalada nunca deve ser apenas sobre conquistas individuais.

É preciso olhar para a comunidade, para que todos cresçam juntos de forma saudável, e preservar o patrimônio construído ao longo dos anos. Isso inclui cuidar das pessoas, incentivar práticas responsáveis e garantir que o esporte se desenvolva de maneira segura. “Queremos uma comunidade sadia e segura. Isso me deixa feliz”, afirma.

Consciente de que ninguém faz nada sozinho e de que em algum momento poderá falhar, Eliseu também divide responsabilidades com pessoas que criaram raízes em São Bento do Sapucaí. Hoje, já há mais gente envolvida no grupo de resgate e no relacionamento com os proprietários das áreas de escalada, fortalecendo uma rede que ajuda a sustentar o futuro do esporte na região.

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Isabelle de Paula

Isabelle de Paula é jornalista, sócia-fundadora da DePaula Comunicação. Apaixonada por ouvir e contar histórias, atua como ghostwriter, escrevendo livros e conteúdos para diversas plataformas, e assessora de imprensa, propagando narrativas e trajetórias de pessoas, marcas e empresas. Parceira do Gear Tips, assina projetos especiais e ajuda a empresa a ganhar visibilidade na mídia.

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