Leave No Trace no trail run: como correr em trilhas com menos impacto

O trail run cresceu muito nos últimos anos. Isso é ótimo. Mais pessoas correndo em trilhas significa mais gente se aproximando da natureza, descobrindo montanhas, florestas, parques, caminhos históricos e paisagens que talvez nunca fossem acessadas pela corrida de rua.
Mas esse crescimento também traz um desafio.

Muitos corredores chegam ao trail run com excelente preparo físico, disciplina de treino, relógio com GPS, planilhas, tênis específicos e atenção à performance. Mas nem sempre chegam com uma cultura outdoor formada. Muitos vêm da corrida de rua, onde o ambiente é outro, as regras são outras e o impacto ambiental nem sempre é tão evidente.

Em uma rua asfaltada, descartar um copo em uma zona de prova é ruim, mas normalmente existe uma equipe de limpeza logo depois. Em uma trilha, um sachê de gel, uma ponta de embalagem, um papel higiênico usado, um atalho aberto na vegetação ou uma marcação mal retirada podem permanecer por muito tempo, e o impacto se multiplica quando centenas ou milhares de pessoas repetem a mesma atitude.

Dados divulgados pela UTMB World Series e pela Strava ajudam a dimensionar esse crescimento: no primeiro semestre de 2025, a participação em provas com UTMB Index foi 2,4 vezes maior do que no mesmo período de 2022, com mais de 800 mil largadas em seis meses; 42% desses corredores estavam participando de sua primeira prova de trail run.

O problema, na maioria das vezes, não é má-fé. É falta de conhecimento. E é justamente aí que entra o Leave No Trace.

Leave No Trace não é uma lista de regras rígidas. É uma estrutura de princípios para reduzir o impacto das nossas atividades ao ar livre. Esses princípios podem ser aplicados em diferentes ambientes e modalidades, de áreas remotas a parques urbanos, e servem como base simples para orientar escolhas mais responsáveis.

No trail run, os princípios são os mesmos. O que muda é a forma de aplicá-los.

Mínimo impacto no Trail Run

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Para Gabriela Corrêa, head de marca da WTR, implementar práticas de mínimo impacto em provas de trail run é essencial porque a modalidade acontece justamente em ambientes naturais, muitas vezes em áreas sensíveis, de grande valor ambiental e de difícil acesso.

“Cada escolha operacional importa: o que entregamos no kit, como funcionam os pontos de hidratação, como os resíduos são separados, como os fornecedores são orientados e até como a trilha é preparada antes e depois da prova. A WTR já estrutura suas ações com foco em educação ambiental, gestão de resíduos, conservação de trilhas e parcerias locais”, explica.

Copo das provas de trail run da WTR

Princípio 1 — Planeje com antecedência e prepare-se

No trail run, isso significa: planejar vai além do pace, altimetria, hidratação e estratégia de prova.

Correr em trilha exige preparação física, mas também preparação ambiental e técnica. O atleta precisa conhecer o percurso, entender o tipo de terreno, avaliar a previsão do tempo, saber se haverá sinal de celular, fazer o upload de uma rota confiável, saber usar o relógio GPS ou o aplicativo de navegação e avisar alguém sobre seu plano quando for treinar sozinho.

Princípio 1 do Leave No Trace no Trail Run

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Uma corrida de trilha pode levar uma pessoa para longe do carro, de casa, de uma estrada ou de qualquer ponto com sinal de celular. Em caso de erro de rota, queda, torção, hipotermia, desidratação ou atraso, aquilo que parecia um treino simples pode se transformar em uma ocorrência de resgate.

E resgates também geram impacto. Mobilizam pessoas, veículos, equipes, deslocamentos fora da trilha e pressão sobre áreas naturais. A prioridade sempre será salvar vidas, mas a melhor forma de reduzir esse impacto é evitar que situações previsíveis aconteçam.
Planejar, portanto, também é uma atitude de mínimo impacto.

Para organizadores, esse princípio começa antes da abertura das inscrições. Uma prova precisa ter percurso autorizado, análise de riscos, plano de emergência, comunicação clara com atletas, informações sobre equipamentos obrigatórios, orientação sobre hidratação, pontos de apoio, descarte de resíduos, banheiros e conduta ambiental.

Uma prova bem planejada não apenas reduz riscos. Ela educa.

Princípio 2 — Viaje e acampe em superfícies duráveis

No trail run, isso significa: corra na trilha, permaneça nela e não crie novas trilhas.

Este é um dos princípios mais importantes para corredores, e onde observamos muito impacto acontecendo.

No contexto do trail run, “superfícies duráveis” são, principalmente, as trilhas já existentes, estradas de terra, rocha, cascalho e outros locais capazes de receber passagem sem ampliar o impacto. A regra prática é simples: se existe uma trilha consolidada, permaneça nela.
Isso significa não pegar atalhos nas curvas, não abrir uma segunda linha para ultrapassar, não contornar lama pisando na vegetação lateral, não sair do percurso para ganhar alguns segundos e não transformar um trecho congestionado em desculpa para abrir passagem onde não existe caminho.

A Leave No Trace recomenda que corredores passem por trechos molhados, poças e obstáculos em vez de contorná-los, justamente para evitar a criação de novas trilhas e danos à vegetação lateral. Também orienta escolher outro percurso quando a trilha estiver excessivamente enlameada e precisar de tempo para se recuperar.

Isso pode parecer contraintuitivo. A tendência natural do corredor é evitar a lama para não molhar o tênis, não escorregar, não perder ritmo ou não sujar o equipamento. Mas, do ponto de vista de mínimo impacto, muitas vezes a atitude correta é aceitar a trilha como ela está.
Quando centenas de corredores desviam da mesma poça ou do mesmo trecho de lama, a trilha se alarga. A vegetação é pisoteada, o solo fica exposto, a água passa a escoar por novos caminhos e o processo de erosão se acelera. O que era uma pequena decisão individual vira um problema coletivo.

Princípio 2 do Leave No Trace no Trail Run

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Para organizadores, esse princípio é ainda mais sensível. O percurso de uma prova precisa respeitar trilhas existentes, áreas sensíveis, regras de unidades de conservação, comunidades locais, zonas de amortecimento e capacidade de suporte do ambiente. Abrir trilhas sem autorização, passar por áreas frágeis ou colocar atletas em locais que não deveriam receber aquele fluxo não é apenas um erro técnico. É uma violação da ética do esporte.

Um caso recente no Brasil mostra que esse debate não é teórico. Em maio de 2025, o Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (INEA) autuou a Transmantiqueira Ultra Trail Agulhas Negras, a TUTAN, realizada em Resende, por desmatamento ilegal e crimes ambientais contra a Mata Atlântica. A corrida teria ocorrido sem autorização ambiental do Inea e envolvido abertura clandestina de trilhas, com cerca de 615 metros desmatados dentro do Parque Estadual da Pedra Selada e outros 260 metros na zona de amortecimento da unidade. Entre os danos apontados estavam compactação do solo, erosão, alteração da drenagem natural, intervenção em área com declividade superior a 45º e impacto sobre a palmeira-juçara (Euterpe edulis).

Casos assim precisam servir de alerta.

O corredor não é responsável por todas as decisões de uma organização. Mas, ao se inscrever, divulgar, largar, postar fotos e celebrar uma prova, ele ajuda a legitimar aquele evento. Por isso, escolher bem onde correr também faz parte de uma ética de mínimo impacto.
Antes de se inscrever, vale perguntar: a prova tem autorização dos gestores da área? O percurso usa trilhas já existentes? A organização explica suas práticas ambientais? Existe plano de gestão de resíduos? A sinalização será retirada depois da prova? Há banheiros na largada, chegada e pontos estratégicos? O número de participantes parece compatível com o local? A prova contribui para a manutenção de trilhas, unidades de conservação ou comunidades locais?

Se uma prova causa dano ambiental, abre trilhas irregulares ou ignora regras de uma unidade de conservação, a resposta da comunidade não pode ser apenas “mas o percurso era bonito”.

O atleta não escolhe apenas onde vai correr. Ele escolhe que tipo de cultura do trail run quer ajudar a construir.

Princípio 3 — Descarte corretamente os resíduos

No trail run, isso significa: tudo o que você leva para a trilha precisa voltar com você, inclusive lixo pequeno, papel higiênico usado e fezes.

Quando se fala em Leave No Trace no trail run, a primeira imagem que costuma vir à cabeça é o sachê de gel jogado na trilha. E, de fato, esse é um problema.

Mas o impacto não está apenas no lixo óbvio. Está também na ponta rasgada do sachê, no lacre, no pedacinho da embalagem da barra de proteína, na cápsula de sal, no guardanapo do posto de apoio, na embalagem de jujuba e em todo micro-lixo que pode cair sem que o atleta perceba.
A Leave No Trace destaca que muitos corredores não deixam lixo de propósito, mas que é fácil perder pequenos resíduos durante uma corrida. Por isso, recomenda que o atleta tenha um plano antes de sair: um bolso específico, um saco com fechamento, um ziplock, um flask reutilizável ou outro sistema seguro para guardar embalagens e resíduos.

No trail run, isso precisa ser pensado com realismo. O atleta pode estar cansado, usando luvas, correndo no escuro, com frio, com chuva ou tentando abrir um gel em uma descida técnica. Se não houver um sistema simples, a chance de algo cair aumenta.
Lembro que quando fiz o El Cruce, em 2022, a organização proibia o uso de sachês de gel, o que obrigava os corredores a usarem frascos para transferir o gel antes da prova.

Organização do gel de carboidrato para eliminar as embalagens antes da prova

A regra é simples: se você levou cheio, consegue trazer vazio.

Dejetos humanos também são resíduos

Este ponto precisa ser falado com clareza: corredores também podem precisar ir ao banheiro no meio de um treino ou de uma prova.

Não é um tema agradável, mas é um assunto necessário. Qualquer pessoa pode ter vontade de evacuar durante uma corrida longa, uma ultramaratona, um treino em local remoto ou uma prova com muitas horas de duração. Por isso, o corredor precisa ter pensado antes no que fazer.

A orientação clássica da Leave No Trace, quando o local permite, é enterrar as fezes em um buraco adequado, conhecido como buraco de gato, distante de trilhas, acampamentos e fontes de água. Mas isso exige solo apropriado, distância suficiente, ferramenta para cavar, privacidade, tempo e conhecimento. Em muitas situações de trail run, especialmente em provas, isso simplesmente não é realista.

Em trilhas muito frequentadas, áreas sensíveis, terrenos rochosos, unidades de conservação, locais onde não é permitido cavar ou provas com grande circulação de atletas, o mais responsável é levar tudo de volta em um sistema próprio para resíduos humanos.

No trekking, já existem soluções pensadas para isso, como a Lixeira Portátil Gaia Adventure, que permite transportar resíduos com mais segurança e discrição. Para corredores, esse tipo de solução pode ser grande demais, mas serve como inspiração: o importante é que o atleta tenha um sistema previamente planejado, resistente, bem vedado e separado dos demais itens do colete ou mochila.

Em situações mais simples, um ziplock reforçado ou um saco estanque pequeno pode cumprir parte dessa função, especialmente para transportar papel higiênico usado. Mas, quando a necessidade envolve fezes humanas, o ideal é considerar sistemas específicos para dejetos humanos, com fechamento seguro e, quando possível, material absorvente ou neutralizante, como os WAG Bags ou soluções similares.

Infelizmente, esses produtos ainda não são encontrados com facilidade em muitos países. Para quem viaja para os Estados Unidos, por exemplo, pode valer a pena comprar algumas unidades e deixá-las na mochila ou no colete como item de emergência para treinos longos, travessias rápidas ou provas em locais sensíveis.

O ponto principal é que isso precisa ser planejado antes. Assim como o corredor pensa em gel, água, corta-vento, iluminação e navegação, também precisa pensar no que fará caso precise evacuar durante o percurso.

Não é um detalhe menor. Dejetos humanos também são resíduos. E, em muitos ambientes, deixá-los na trilha, mesmo enterrados, pode contaminar o solo, impactar cursos d’água, degradar a experiência de outros usuários e criar um problema de manejo para a área natural.

Em outras palavras: não basta pensar no gel, na água e no tênis. É preciso pensar também no cocô.

Para organizadores, esse ponto é igualmente importante. Banheiros na largada e na chegada são o mínimo. Em provas longas, postos estratégicos também deveriam considerar essa necessidade. E, quando o percurso passa por áreas sensíveis, a orientação sobre dejetos humanos precisa estar clara antes da prova.

Provas sem copos descartáveis

A redução de resíduos também passa pelos postos de abastecimento.

Muitas provas de trail run já deixaram de oferecer copos plásticos descartáveis. Isso reduz a geração de lixo e educa o atleta para assumir parte da responsabilidade pela própria hidratação.

No Brasil, a WTR é um bom exemplo. No manual das provas, a organização informa que não entrega copos descartáveis, que todos os atletas recebem um copo de silicone retrátil no kit e que, para determinadas distâncias, é obrigatório largar com recipiente de hidratação. O mesmo material apresenta práticas de gestão de resíduos, meta de Lixo Zero, limpeza de trilhas antes, durante e depois da prova, doação de materiais esportivos e outras iniciativas de sustentabilidade.

Para o corredor, isso significa sair de casa preparado. Pode ser com soft flask, garrafa, sistema de hidratação, copo fornecido pela prova ou um copo dobrável ultraleve. Um exemplo é o Curn Collapsible Cup, da CNOC Outdoors, um copo flexível de 250 ml, compacto e dobrável que pesa cerca de 11 g, pensado para corredores e praticantes de atividades outdoor que precisam de uma solução leve para beber nos pontos de água ou misturar pastilhas de hidratação.

O mais importante não é o modelo do copo. É a mudança de mentalidade. Em vez de esperar que a prova entregue tudo, o atleta passa a fazer parte da solução.

“Quando não oferecemos copos descartáveis nos pontos de hidratação e entregamos um copo retrátil no kit, o corredor deixa de ser apenas espectador de uma mensagem sustentável e passa a fazer parte dela. Ele precisa se preparar, levar seu recipiente, pensar na própria hidratação e entender que a presença dele naquele ambiente também envolve responsabilidade”, explica Gabriela.

Atleta na WTR usando o copo colapsável dado na prova

Para ela, essa mudança de comportamento promove educação de forma prática. “O atleta percebe que pequenas decisões individuais, quando aplicadas em escala, reduzem significativamente o impacto do evento”.

Em uma das etapas da WTR, foi conduzida uma pesquisa que mostrou que 94,2% do público percebeu algumas das boas práticas implementadas, e 33% citou especificamente o fato de não entregarem copos descartáveis.

Princípio 4 — Deixe o que encontrar

No trail run, isso significa:

não levar lembranças naturais, não alterar a trilha e não transformar o ambiente em cenário descartável.

Este princípio pode parecer menos óbvio para corredores, mas aparece em muitos detalhes.

Não colher flores, frutos, sementes ou plantas. Não pegar pedras, conchas, ossos, penas ou outros elementos naturais como lembrança. Não mexer em estruturas históricas ou culturais. Não remover placas oficiais. Não construir totens, setas improvisadas ou marcos de pedra. Não “melhorar” a trilha por conta própria durante um treino. Não abrir passagem em vegetação para facilitar uma descida ou uma ultrapassagem.

Princípio 4 do Leave No Trace no Trail Run

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Também vale pensar no mundo digital.

Nem toda trilha registrada no GPS deveria virar convite para repetição. Em alguns lugares, compartilhar tracklogs de acessos informais, atalhos, trilhas não autorizadas ou áreas sensíveis pode aumentar o impacto. Aplicativos de rota, segmentos e redes sociais são ferramentas poderosas, mas também podem popularizar caminhos que não deveriam receber fluxo.

Para organizadores, “deixar o que encontrar” significa retirar tudo o que foi colocado para a prova: fitas, placas, setas, faixas, estruturas temporárias, materiais de arena, marcações no chão e resíduos dos postos. A sinalização deve ser temporária, removível e planejada para não deixar marcas permanentes.

“Quando uma prova ocupa uma montanha, uma trilha, uma praia ou uma unidade de conservação, existe uma responsabilidade muito grande de preservar aquele território e de devolver esse espaço tão bem cuidado quanto possível”, comenta Gabriela.

Portanto, uma prova bem organizada não deveria deixar rastros na trilha.

Princípio 5 — Minimize os impactos de fogueiras

No trail run, isso significa: controlar qualquer fonte de calor associada ao treino, à prova ou à estrutura do evento, especialmente em áreas secas ou sensíveis.

Para quem está apenas correndo, este princípio pode parecer distante. Afinal, corredores não costumam fazer fogueiras durante um treino ou uma prova. Mas a lógica por trás do princípio continua muito relevante: evitar danos causados pelo fogo e por outras fontes de calor em ambientes naturais.

No trail run, esse impacto pode aparecer de outras formas. Algumas provas envolvem arena de largada e chegada, bases de apoio, áreas de convivência, camping, pernoite, equipes, staffs, voluntários, espectadores e alimentação no local. Em eventos mais longos, também pode haver cozinha de apoio, uso de fogareiros, churrasqueiras, geradores, iluminação, aquecedores ou estruturas temporárias.

Além disso, há o risco de incêndio. Bitucas de cigarro, fogareiros mal utilizados, churrasqueiras improvisadas, fogueiras não autorizadas, faíscas, brasas mal apagadas ou qualquer fonte de calor em períodos secos podem causar danos enormes. Em algumas regiões, uma pequena negligência pode gerar um incêndio florestal de grandes proporções.

Para atletas, a aplicação é simples: não fazer fogueiras improvisadas, não descartar bitucas, respeitar restrições locais, evitar qualquer fonte de fogo não autorizada e orientar equipes de apoio, familiares e amigos a fazerem o mesmo. Mesmo quem está apenas acompanhando uma prova também faz parte do impacto daquele evento.

Para organizadores, esse princípio exige planejamento da arena, controle das áreas de alimentação, regras claras para camping e equipes de apoio, orientação a voluntários e espectadores, respeito às normas locais e atenção especial em épocas de seca ou alto risco de incêndio. Quando houver uso de cozinha, fogareiros, churrasqueiras ou geradores, isso precisa estar previsto, autorizado e controlado.

Ou seja, no trail run, o Princípio 5 não se resume à fogueira tradicional. Ele trata de uma pergunta mais ampla: quais riscos e impactos as fontes de calor associadas à atividade podem gerar naquele ambiente?

Mesmo quando o corredor não acampa, a prova pode criar uma estrutura ao redor da trilha. E essa estrutura também precisa seguir uma lógica de mínimo impacto.

Princípio 6 — Respeite a vida selvagem

No trail run, isso significa: correr sem perseguir, assustar, alimentar ou interferir no comportamento dos animais.

Corredores se deslocam rápido, muitas vezes em silêncio relativo, cedo pela manhã, no fim da tarde ou à noite. Isso aumenta a chance de encontros inesperados com animais.

Por isso, é importante observar a fauna à distância, não perseguir animais para fotografar, não tentar tocar, não alimentar, não deixar restos de comida e reduzir ruídos desnecessários em áreas sensíveis.

Leave no Trace no Trail Run - Princípio 6

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Também é importante respeitar fechamentos temporários de trilhas por reprodução, nidificação, presença de filhotes, risco de incêndio ou recuperação ambiental. Uma trilha fechada não é um desafio para o atleta “mais raiz”. É uma decisão de manejo que precisa ser respeitada.

Restos de comida também entram aqui. Uma casca de fruta, um pedaço de barra ou um alimento deixado no chão não é inofensivo. Pode atrair animais, alterar comportamentos e criar associação entre presença humana e alimento.

Para organizadores, esse princípio envolve escolha de percurso, época do ano, comunicação com gestores, redução de ruído em áreas sensíveis, controle de lixo nos postos e orientação clara aos atletas.

A vida selvagem não é figurante da prova. Ela já estava ali antes da largada.

Princípio 7 — Tenha consideração pelos outros

No trail run, isso significa: lembrar que a trilha não pertence apenas aos corredores.

A trilha pode ser usada por caminhantes, famílias, guias, peregrinos, ciclistas, cavaleiros, moradores locais, pesquisadores, brigadistas, guarda-parques e outros corredores. Em uma prova, o atleta pode estar com número de peito, chip e meta de tempo. Mas isso não transforma a trilha em uma pista exclusiva.

A Leave No Trace recomenda que corredores comuniquem sua presença, peçam passagem com educação, aguardem um local seguro para ultrapassar, respeitem quem está subindo e tenham atenção especial com cavalos e outros usuários da trilha.

Na prática, isso significa reduzir a velocidade quando necessário, não assustar pessoas por trás, evitar fones em volume alto, respeitar trilhas compartilhadas e aceitar que perder alguns segundos faz parte de uma convivência mais saudável.

Performance não justifica grosseria. Competição não elimina respeito.

Leave no Trace no Trail Run - Princípio 7

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Para organizadores, ter consideração pelos outros significa dialogar com comunidades locais, avisar usuários regulares da área, evitar bloquear acessos sem comunicação, respeitar moradores, orientar staffs e atletas, cuidar do trânsito, do barulho, do estacionamento e da relação com quem vive ou trabalha naquele território.

Uma prova de trail run não acontece apenas em uma paisagem. Ela acontece em um lugar. E lugares têm histórias, regras, comunidades, outros usos e outras pessoas.

Uma prova também pode educar

Quando uma prova incorpora os princípios do Leave No Trace de forma séria, ela deixa de ser apenas um evento esportivo. Ela vira uma oportunidade de formação.

Isso pode aparecer no manual do atleta, no briefing técnico, nas redes sociais, nos postos de apoio, nas placas temporárias e no treinamento de staffs e voluntários. Mensagens simples podem fazer muita diferença:

“Fique na trilha.”
“Passe pela lama, não pela vegetação.”
“Leve seu gel de volta.”
“Respeite a fauna.”
“Não corte caminho.”
“Seu lixo termina a prova com você.”

A International Trail Running Association (ITRA) apresenta sua Green Charter como uma iniciativa para mobilizar a comunidade do trail run na redução do impacto ambiental do esporte, reforçando que essa responsabilidade envolve organizadores, participantes, voluntários, patrocinadores, fornecedores e parceiros.

Esse é o ponto central: uma prova não deve apenas passar por uma área natural. Ela deveria sair dali deixando a trilha, a comunidade e os corredores melhores do que encontrou.

Correr mais leve também é deixar menos impacto

No trail run, fala-se muito em correr leve. Tênis mais leves, mochilas menores, bastões de carbono, jaquetas compactas, garrafas flexíveis. Menos peso, mais velocidade, mais eficiência.

Mas existe outro tipo de leveza.

Correr leve também é passar por uma trilha sem alargá-la. É carregar de volta tudo o que foi levado. É ter um plano para os próprios resíduos, inclusive dejetos humanos. É não cortar caminho, saber esperar para ultrapassar e escolher provas que respeitam os lugares por onde passam.
É entender que a natureza não é obstáculo, cenário ou produto descartável.

O trail run só existe porque existem trilhas, montanhas, florestas, parques, comunidades e paisagens capazes de nos receber. Se o esporte cresce sem cuidado, ele compromete justamente aquilo que o torna especial.

Chico Santos, atleta de elite de trail run e treinador, capacitado no Leave No Trace – Instrutor Nível 1, costuma usar a frase “Quanto mais gente na trilha, mais trilha na gente”. E sentir-se parte da natureza passa por educação, respeito e consciência.

Organizador de Training Camps pela CS Experience, o objetivo de Chico é incluir oficinas de Leave No Trace para ampliar o conhecimento sobre técnicas de mínimo impacto entre corredores de trilha.

“Embora muitos praticantes de trail run sejam conscientes, ainda existem práticas irregulares, principalmente o hábito de deixar pequenos resíduos pelo caminho. É importante levar informação, especialmente para quem está começando, para que já inicie com essa consciência.”

Além de multiplicar conhecimento em seus eventos, Chico dissemina os princípios do Leave No Trace em seu projeto social. “Treino três atletas que já vêm se destacando, e trabalho com eles a conscientização sobre a importância de não desviar da rota para ganhar tempo ou evitar obstáculos, assim como o respeito com os outros corredores.”

No trail run, o Leave No Trace, não limita a experiência. Pelo contrário: ajuda a garantir que ela continue existindo.

Correr na natureza é um privilégio. Cuidar dela é parte do percurso.

Quer se aprofundar em Leave No Trace?

O Gear Tips é parceiro corporativo da Leave No Trace e atua na difusão dos princípios de mínimo impacto por meio de artigos, vídeos, cursos e materiais educativos voltados a praticantes, guias, condutores, instrutores, organizadores de eventos e profissionais do mercado outdoor.

Para continuar aprendendo, acesse os conteúdos sobre Leave No Trace no blog do Gear Tips!

Quem deseja se aprofundar ainda mais pode conhecer o curso Leave No Trace – Instrutor Nível 1, parte do Programa CAPACITAR do Gear Tips. O curso forma multiplicadores capazes de ensinar práticas de mínimo impacto em palestras, oficinas, cursos introdutórios, atividades educativas e ações em parques, escolas, clubes, operadoras e comunidades outdoor.

Leave No Trace não é apenas sobre não deixar lixo. É sobre desenvolver uma relação mais consciente, responsável e respeitosa com os lugares por onde passamos.

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Pedro Lacaz Amaral

Pedro Lacaz Amaral pratica atividades ao ar livre desde os anos 1980. Cursou Engenharia Química e Administração, com especialização em Marketing e BI. Esteve à frente no Brasil da CamelBak, Deuter, Sea to Summit e de outras marcas importantes por mais de duas décadas. Treinou mais de 14.000 pessoas em equipamentos para camping, hiking, trekking e trail running. Idealizou o Gear Tips em 2016, o Programa de Reciclagem de Cartuchos de Gás (vencedor do UIAA Mountain Protection Award 2023) e o Programa CAPACITAR (Gold Standard Program pela Leave No Trace em 2025 e finalista do UIAA Mountain Protection Award 2025). Seu propósito é colaborar na capacitação de profissionais e praticantes de atividades ao ar livre.

Artigos: 265

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