Na divisa entre dois núcleos do Caminho da Mata Atlântica, Rio Claro reúne belezas naturais e históricas

O Caminho da Mata Atlântica (CMA) é uma trilha de longo curso que atravessa os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com cerca de 4.000 km de extensão, é dividido em quinze núcleos de planejamento e articulação voluntária, sendo cinco deles no estado do Rio de Janeiro.

O município de Rio Claro (RJ) e seus distritos ocupam uma posição estratégica no Caminho, se consolidando como um ponto de conexão e de turismo sustentável. A região liga áreas de conservação entre a Serra do Mar e o Vale do Café, funcionando como um corredor natural que conecta paisagens de montanha e áreas protegidas.

Ao finalizar o Núcleo do Café ou seguir pelo Núcleo Costa Verde, caminhantes e ciclistas encontram montanhas, diversas cachoeiras, ruínas, túneis históricos e muita história ao longo do percurso. O município também integra a Mata Atlântica Bike Route, versão de cicloturismo do Caminho, reconhecida em 2025 pela Bikepacking como uma das melhores rotas de longa distância para bicicleta.

“Rio Claro está em um ponto central entre dois núcleos bem estruturados, podendo ser ponto de partida ou de chegada para diferentes travessias pelo Caminho da Mata Atlântica. É um trecho que combina história e natureza como poucos no estado do Rio de Janeiro”, explica Chico Schnoor, um dos coordenadores do CMA.

Entre os diversos trajetos para percorrer, listamos os recomendados pelos voluntários da região.

Núcleo Vale do Café: ponto final em Rio Claro

Para quem vem pelo Núcleo Vale do Café, o percurso tem cerca de 226 km e passa por Petrópolis, Paty do Alferes, Miguel Pereira, Vassouras, Engenheiro Paulo de Frontin, Paracambi e Cacaria, em Piraí, até chegar ao município de Rio Claro.

O acesso a Rio Claro se dá pela Serra do Matoso, um trecho marcado por paisagens naturais, trilhas e mirantes. “Ali, é possível se hospedar no Sítio Pousada Beija-Flor, que preserva remanescentes de uma antiga fazenda, e contar com a estrutura do espaço de Cláudio Cordeiro, com restaurante, piscina e passeios a cavalo”, recomenda Gisele Ferreira, guia de turismo de natureza e coordenadora do núcleo entre Cacaria (Piraí), Mangaratiba e Rio Claro do CMA.

No dia seguinte, o trajeto segue até a Represa do Barro Branco, por estradas que atravessam fazendas e oferecem pontos de apoio para almoço, como a histórica Fazenda Palmeiras, localizada na Estrada do Sertão. O caminho continua pelo Sertão da Boa Vista, passando pela parte alta da Cachoeira do Bálsamo, já no território de Rio Claro. “Esse é um ponto importante de apoio, com moradores que abrem suas casas para receber caminhantes após a subida da Serra do Matoso, que é bastante exigente”, explica Gisele.

Cachoeira do Bálsamo - Foto: Gisele Ferreira

Cachoeirado Bálsamo – Foto: Gisele Ferreira

Fazenda Palmeiras

Fazenda Palmeiras

A partir da Cachoeira do Bálsamo, é possível seguir por cerca de 8 km de estrada asfaltada até o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, onde as ruínas históricas se destacam em meio à paisagem. Uma alternativa em desenvolvimento é fazer esse trecho de barco pela represa, saindo da Ponta da Caneta até o parque, encurtando o percurso.

Julieta Santamaria, primeira pessoa a percorrer todo o Caminho da Mata Atlântica, passou pela Serra do Matoso e entrou em Rio Claro por São João Marcos, onde seguiu para o parque. “É um lugar histórico, que abriga um dos poucos museus a céu aberto. A cidade foi desabitada para a criação da usina e guarda muitas histórias da época da escravidão. É uma região muito interessante para aprender sobre o passado do Brasil.”

Do Parque São João Marcos, há ainda duas opções de continuação:

  • Descendo a Serra do Piloto, entre Rio Claro e Mangaratiba, por um trecho histórico que passa por um quilombo e cachoeiras. De lá, é possível seguir para Ilha Grande, explorar as praias e continuar até Angra dos Reis, onde se inicia a Travessia Angra–Lídice.
  • Para quem prefere não seguir para o litoral e conhecer mais a região, há a opção de ir até Lídice por uma estrada rural, conectando com novos trechos do Caminho da Mata Atlântica.

Parque São João Marcos - Foto: Gisele Ferreira

Paisagem rural no caminho entre São João Marcos e Lídice

Para quem parte de São João Marcos, uma estrada rural de cerca de 17 km conecta a região ao centro de Lídice. O trajeto passa por montanhas, sendo mais indicado para quem está de bicicleta, mas ainda viável, embora mais exigente, para quem segue a pé. Julieta percorreu a estrada caminhando e encontrou um morador que forneceu água e a acompanhou por um trecho, montado em seu cavalo.

Maria de Lurdes Pena Campos, voluntária do Caminho da Mata Atlântica em Lídice, que mantém um camping e chalé na área rural, conta algumas atrações da região:

“Da minha casa, na zona rural, até o centro de Lídice, há cinco cachoeiras, muitas ainda pouco conhecidas e localizadas em propriedades privadas: a Cachoeira do Sr. Antônio, do Suíço, no terreno do Ângelo, na fazenda da Patrícia e a do Sebastião Marinho, a mais visitada da região.”

Cachoeira Sr. Antônio - Sertão Rio das Pedras - Foto: Maria de Lourdes

Cachoeira Sr. Antônio – Sertão Rio das Pedras – Foto: Maria de Lourdes

Quem segue para Lídice para vivenciar o Núcleo Costa Verde percorre, em grande parte, estradas de terra, e uma boa dica, segundo Chico, é visitar a Cachoeira do Zé Claro, que oferece banho em meio à Mata Atlântica, com quedas d’água e poços, além de estrutura para alimentação e pernoite no camping local.

Lídice: ponto de partida para o Núcleo Costa Verde

Lídice e seu entorno reúnem diversas belezas naturais. O município, que sediará em outubro de 2026 a V Jornada Cultural e Científica de Montanhismo, marca o ponto de partida do Núcleo Costa Verde, concebido como um corredor florestal que conecta o Parque Estadual do Cunhambebe à Reserva Biológica do Tinguá.

Trata-se do segundo maior núcleo do Caminho da Mata Atlântica, com cerca de 470 km. O trajeto integra áreas de Mata Atlântica preservada, incluindo a zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra da Bocaina e a histórica Volta da Juatinga, em Paraty.

Uma parada obrigatória para quem percorre o Caminho é a Pedra Chata, acessada por uma trilha de cerca de 8 km (ida e volta) e aproximadamente 1.500 metros de desnível.

No cume, o visual se abre para a Costa Verde, com o mar se estendendo de Mangaratiba até Paraty, incluindo a Ilha Grande. Próximo dali, também é possível subir o Pico do Papagaio, que oferece vista para as montanhas de Rio Claro e um nascer do sol marcante.

Cume da Pedra Chata - Foto: Maria de Lourdes

Cume da Pedra Chata – Foto: Maria de Lourdes

A trilha para a Pedra Chata está inserida no Parque Estadual do Cunhambebe, em Rio Claro (RJ), que abrange áreas de Mata Atlântica, especialmente nos distritos de Lídice e São João Marcos. A unidade de conservação se conecta ao Parque Nacional da Serra da Bocaina, e o acesso aos atrativos montanhosos é facilitado por trilhas na região de Lídice.

Reginaldo Honorato, montanhista e coordenador de biodiversidade do Caminho da Mata Atlântica, destaca a diversidade de vegetação ao longo da trilha da Pedra Chata: “Você começa em um ambiente de floresta fechada, com cachoeira. Conforme a subida, a vegetação muda. Lá em cima, as árvores já são escassas e, no topo, predomina uma vegetação mais rasteira. Todo montanhista deveria visitar.”

Travessia Angra-Lídice

A partir de Lídice, é possível iniciar a Travessia Angra–Lídice, um caminho histórico considerado um dos mais bonitos do estado do Rio de Janeiro, marcado por pontes e túneis ao longo do percurso.

“São cerca de 20 km. Durante a travessia, você passa por 14 túneis, percorrendo trechos de uma antiga linha férrea. O caminho alterna áreas rurais e ferrovia até chegar ao litoral”, conta Maria de Lurdes.

Túnel na Travessia Angra-Lídice. Foto: Maria de Lourdes

Túnel na Travessia Angra-Lídice. Foto: Maria de Lourdes

O percurso atravessa áreas preservadas de Mata Atlântica, com trechos de floresta, presença de rios e pequenas cachoeiras ao longo do caminho. A biodiversidade é um destaque, com possibilidade de avistar aves, pequenos mamíferos e uma grande variedade de espécies vegetais nativas.
Conforme a trilha avança em direção a Angra dos Reis, a vegetação se transforma e o clima se torna mais úmido. A transição entre serra e litoral marca uma travessia que une história, natureza e paisagens diversas.

Biodiversidade: o papel da região no corredor ecológico

As regiões de Rio Claro e Lídice abrigam trechos importantes de Mata Atlântica por onde passa o Caminho, desempenhando um papel estratégico na conectividade deste bioma.

A área funciona como um elo entre grandes blocos de floresta preservada. De um lado está o Parque Estadual do Cunhambebe, conectado ao Parque Nacional da Serra da Bocaina. Do outro, a Reserva Biológica do Tinguá, formando um importante corredor ecológico. Além disso, Rio Claro está em um trecho que cruza a Serra do Mar, região essencial para a manutenção da biodiversidade.

“Conectar a região de Rio Claro e Lídice é fundamental para a fauna, especialmente para os grandes mamíferos, pois facilita o deslocamento das espécies e contribui para a saúde das populações. Por isso, essa área é tão relevante como corredor de biodiversidade”, explica Reginaldo Honorato.

Recentemente, em parceria com a WWF, foi realizado um trabalho de monitoramento com armadilhas fotográficas na região, incluindo pontos em Lídice, Barro Branco e São João Marcos. Os dados obtidos reforçam a importância da conectividade da paisagem para a conservação e ajudam a entender melhor a dinâmica das populações de fauna.

A região abriga uma rica diversidade de espécies, incluindo felinos como a onça-parda, o gato-mourisco e o gato-do-mato, além de outros mamíferos como o mão-pelada e a irara, entre diversos outros.

Câmera implementada pelo Caminho da Mata Atlântica

Imagem da câmera implementada pelo Caminho da Mata Atlântica

No site do Caminho da Mata Atlântica há um mapa interativo para você consultar esses e outros trajetos, além de pontos de apoio, como alimentação, pernoite, parceiros de turismo e atrativos, o que facilita o planejamento.

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Isabelle de Paula

Isabelle de Paula é jornalista, sócia-fundadora da DePaula Comunicação. Apaixonada por ouvir e contar histórias, atua como ghostwriter, escrevendo livros e conteúdos para diversas plataformas, e assessora de imprensa, propagando narrativas e trajetórias de pessoas, marcas e empresas. Parceira do Gear Tips, assina projetos especiais e ajuda a empresa a ganhar visibilidade na mídia.

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