O shit tube ou outros dispositivos utilizados para trazer as fezes de volta após atividades na natureza são recomendados e, inclusive, obrigatórios em diversas unidades de conservação, principalmente em lugares em que o solo é mais pedregoso, o que dificulta enterrar as fezes. Mas o que pouco se fala é sobre o descarte correto dos dejetos armazenados nos recipientes. Afinal, se no término de expedições, os resíduos são descartados em lixeiras comuns, estamos transferindo o problema dos parques e trilhas para os centros urbanos.
Desde 2023, quando foi decretado o uso obrigatório do shit tube no Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO), o guia de montanha Luiz Roberto Costa Salgueiro dos Santos, conhecido como Salgueiro, recolhe o equipamento cheio no final da travessia Petrópolis-Teresópolis para transformá-lo em adubo.
Salgueiro faz parte do Muriqui Ecoturismo & Turismo de Aventura, composto por mais oito associados que contribuem com a iniciativa. Todo o material trazido de volta dentro do shit tube dá origem a insumos de qualidade, por meio da compostagem doméstica. Somente em 2025, Luiz acumulou 100 kg de dejetos humanos, que estão em tratamento e serão utilizados para plantar mudas nas trilhas e montanhas da região.
“Quando eu soube do decreto, me propus a recolher todos os dejetos gerados durante as travessias guiadas por mim e por eles. Entendi que o parque tinha um problema que não sabia gerir, passou a responsabilidade para os usuários, mas de forma parcial, já que ao terminar o percurso, eles jogam os resíduos no lixo comum.”

Luiz guiando no Parque Nacional da Serra dos Órgãos
Antes da travessia, os visitantes recebem dos guias o shit tube forrado com pacotes de papel, no estilo saco de pão, e usam apenas jornal e cal para defecar e colher as fezes. Após o trajeto completo, o material é recolhido, decomposto e transformado em terra fértil. O sistema de compostagem acontece em uma bombona, forrada com serrapilheiras (folhas da mata acumuladas no chão da floresta) e adubo de minhocas transferido da sua composteira de resíduos orgânicos. As fezes são depositadas ali, intercaladas com as folhas e o húmus até preencher a bombona.

Os shit tubes são recolhidos e vão para composteira
Todo o processo de compostagem feito por Luiz dura doze meses. Os primeiros seis meses, período em que já há transformação em terra preta, são suficientes, segundo estudos, para matar os patógenos presentes nas fezes, mas o cuidado do guia é redobrado. “Depois desse processo, despejo a terra do balde em uma lona, manuseio com uma enxada e deixo mais seis meses nesse sistema externo, dobrando o tempo recomendado. Dessa forma, garanto segurança no manuseio da terra.”
O adubo gerado por Luiz já foi utilizado nas plantas ornamentais e frutíferas de sua casa e na produção de mudas de cambucá e achachairu, fruta exótica originária da Amazônia boliviana. Além disso, o insumo é usado para o reflorestamento da região. Luiz plantou cambucá na trilha do Castelinho e está autorizado pela Secretaria do Meio Ambiente de Petrópolis a plantar mudas em outras trilhas que pertencem à região da Área de Proteção Ambiental (APA) de Petrópolis. Entre seu legado para a sociedade e para o meio ambiente estão árvores nativas, como pitanga, araçá, cambucá, cambuci, ingá e mulungu.

Luiz plantando mudas na região
Desmitificando o uso do shit tube com educação e consciência ambiental
O trabalho de compostagem e reflorestamento realizado por Luiz tem um papel fundamental para quebrar o paradigma e a resistência sobre o uso do shit tube e promover educação e consciência ambiental entre as pessoas que fazem a travessia Petrópolis-Teresópolis. A barreira vira, portanto, uma oportunidade.
“Usar o shit tube não é confortável, mas quando apresento o projeto para as pessoas que guio e as convido para contribuir, elas ficam mais à vontade. Até brincam que estão indo ‘ali’ ajudar o meu projeto na hora de fazer as necessidades! Isso aproxima as pessoas do uso consciente do shit tube.”
Para o futuro, Luiz tem o desejo de implementar um projeto de reflorestamento dentro do PARNASO, uma forma ainda mais evidente de transformar o problema em solução. O objetivo, inclusive, é envolver as crianças da região de Petrópolis no plantio de mudas. Além disso, o guia está desenvolvendo um projeto de reflorestamento no Parque Estadual dos Três Picos, em conjunto com uma escola infantil.
“Meu objetivo é dar exemplo. Não tenho capacidade para mudar o mundo, não vou resolver o problema de todos, mas quero ser um exemplo para inspirar as pessoas a fazer a compostagem em suas casas, porque é uma solução simples e eficiente”, finaliza o guia.
Quando falamos sobre o princípio 3 (Descarte corretamente os resíduos) no curso Leave No Trace, abordamos com profundidade os cuidados com os dejetos e técnicas que tornam mais eficaz a decomposição e minimizem seu impacto no ecossistema. E o projeto da Muriqui Brasil comprova que muitas soluções estão em nossas mãos; é preciso consciência, responsabilidade e desejo de fazer a diferença.
Vale ressaltar que, como dissemos no início da matéria, o shit tube não é a única forma de trazer as fezes de volta. Nos cursos de Leave No Trace, utilizamos, por exemplo, a Lixeira Portátil da Gaia Adventure. Há outras opções interessantes no mercado, que já testamos e recomendamos, como o Trash Dry Sack da Sea to Summit.
Independentemente da solução adotada, você descarta os resíduos em uma lixeira qualquer ou assume a responsabilidade e faz o descarte correto, evitando que o problema seja transferido das trilhas para as cidades?
