Durante uma passagem pelo campus da NOLS Alaska, em Palmer, acompanhei como uma das principais referências mundiais em educação ao ar livre combina currículo, liderança, habilidades técnicas, logística e gestão de riscos para transformar uma expedição em uma experiência de aprendizagem.
Em julho de 2026, viajei ao Alasca para acompanhar meu filho, Mateus, no início de um curso de 30 dias de trekking com a NOLS. Aproveitei a viagem para participar também de um programa voltado para adultos: oito dias caminhando e acampando em regiões remotas do estado.
A experiência em campo será tema de outro artigo. Nele, falarei sobre o percurso, o grupo, os instrutores, a rotina, os equipamentos utilizados e o que aprendi durante o curso. Aqui, contarei como a minha permanência no Alasca permitiu conhecer outra dimensão da NOLS.
Depois de concluir o meu curso, fui recebido por Ashley Wise, Diretor do Campus e Caio Poletti, brasileiro e Gerente de Programas da NOLS Alaska. A convite de Caio, permaneci durante aproximadamente uma semana no campus de Palmer enquanto aguardava o retorno do Mateus.

Ashley, eu e Caio, na NOLS Alaska
Isso me deu a oportunidade de observar a NOLS para além da perspectiva de aluno: acompanhar a preparação de diferentes turmas, conhecer as áreas responsáveis por planejamento, equipamentos e alimentação, conversar com instrutores e compreender melhor o sistema que continua funcionando enquanto os grupos estão distantes, em alguma região remota do Alasca.
O que encontrei em Palmer não foi apenas uma forma particular de organizar cursos no Alasca, e sim a cultura e o método da NOLS materializados em um dos ambientes onde a instituição atua.
NOLS – Outdoor. Leadership. School.
A NOLS nasceu em 1965, no estado de Wyoming, com o nome National Outdoor Leadership School. Atualmente, a instituição utiliza apenas a sigla, mas as últimas três palavras originais continuam sendo uma boa maneira de compreender sua proposta.
O ambiente natural é o espaço onde a aprendizagem acontece. A liderança é parte central do currículo. E quem participa de uma expedição não ocupa simplesmente o lugar de cliente, mas de aluno.
Uma pessoa que contrata uma expedição guiada pode aprender muito durante a experiência. Um bom guia compartilha conhecimento, toma decisões, orienta o grupo e contribui diretamente para a sua segurança. A diferença não está na importância ou na qualidade desse trabalho, mas no propósito principal da relação. Na NOLS, a expedição é organizada para ensinar.
Por isso, quem trabalha em campo é apresentado como instrutor, e não como guia. Seu papel não se limita a tomar decisões pelo grupo ou resolver os problemas que aparecem. O instrutor demonstra, explica, observa, oferece feedback e cria oportunidades para que os alunos pratiquem e assumam responsabilidades progressivamente.
O destino continua sendo importante. Caminhar pelas montanhas do Alasca, atravessar áreas de tundra, remar em Prince William Sound ou aprender a se deslocar sobre neve e gelo são experiências marcantes por si só. Na NOLS, porém, esses ambientes também oferecem situações reais para ensinar habilidades técnicas, convivência, tomada de decisão, gestão de riscos e liderança.
A atividade não é apenas o produto final. Ela é parte do método.
Uma expedição organizada como currículo
Os cursos de expedição da NOLS são estruturados em torno de quatro grandes áreas:
- Leadership — liderança;
- Wilderness skills — habilidades para viver e se deslocar em ambientes naturais;
- Risk management — gestão de riscos;
- Environmental studies — estudos ambientais.
Esses conteúdos não aparecem necessariamente separados em aulas formais. Eles se misturam ao cotidiano da expedição.
Aprender a montar um acampamento envolve escolher uma superfície adequada, proteger os equipamentos, observar as condições do terreno e reduzir os impactos sobre o ambiente. Cozinhar exige organização, administração dos alimentos, cuidado com o combustível, higiene e coordenação entre as pessoas do grupo.
Navegar não significa apenas saber orientar uma carta topográfica e utilizar uma bússola. É preciso interpretar o terreno, estimar o tempo de deslocamento, avaliar alternativas, comunicar uma decisão e observar se o ritmo escolhido é compatível com o grupo.
O mesmo acontece com o autocuidado. Tratar água, alimentar-se corretamente, proteger-se do frio, manter roupas e equipamentos secos ou cuidar de um ponto de atrito no pé antes que ele se transforme em uma bolha não são detalhes periféricos. São competências necessárias para que uma pessoa continue contribuindo para a expedição.
Nos cursos mais longos, entram também habilidades específicas da modalidade e do ambiente: cruzamento de rios, deslocamento sobre neve e gelo, técnicas de montanhismo, manejo de embarcações, navegação mais avançada e primeiros socorros em áreas remotas.

Foto: Eric Page
A natureza oferece variáveis reais. O clima muda, a visibilidade diminui, um trecho leva mais tempo do que o esperado, alguém se cansa ou uma decisão precisa ser revista. É nesse contexto que o conhecimento técnico deixa de ser apenas informação e passa a orientar escolhas.
O tempo também faz parte do método
A duração do curso muda profundamente a experiência de aprendizagem. Em um programa de oito dias, como aquele do qual participei, é possível aprender muita coisa. Durante o curso, recebemos orientações sobre equipamentos, montagem de acampamento, cozinha, navegação, mínimo impacto, organização do grupo e deslocamento em diferentes terrenos. Também experimentamos diferentes papéis dentro da expedição.
Ainda assim, oito dias oferecem um número limitado de oportunidades para repetir cada tarefa, cometer erros, receber feedback e tentar novamente.
Em um curso de 30 dias, o aluno não monta e desmonta um acampamento apenas algumas vezes. Faz isso repetidamente, em terrenos e condições diferentes. Arruma a mochila todas as manhãs, reorganiza cargas, cozinha diversas refeições, trata água, cuida dos pés, administra roupas molhadas e aprende a observar as necessidades de outras pessoas.
Ao repetir esses processos durante semanas, aquilo que inicialmente exigia instrução constante começa a fazer parte da rotina.
Essa diferença não significa apenas receber mais conteúdos. Significa ter tempo para transformar conhecimento em prática e prática em competência.
Nos programas de semestre, o processo se estende por aproximadamente três meses e combina modalidades distintas. O Summer Semester in Alaska, por exemplo, tem 75 dias e reúne trekking, montanhismo e canoagem oceânica.
Cursos mais longos também permitem uma transferência progressiva de responsabilidades. Os instrutores continuam presentes como educadores e responsáveis pelo curso, mas os alunos passam a tomar mais decisões, planejar etapas, organizar tarefas e liderar diferentes momentos da expedição. O objetivo não é criar dependência em relação ao instrutor. É desenvolver conhecimento, julgamento e autonomia.
Diferentes maneiras de exercer liderança
Na NOLS, liderança não significa apenas ocupar formalmente o comando de um grupo.
A instituição define quatro leadership roles (papéis de liderança):
Designated leadership— liderança designada: quando uma pessoa recebe a responsabilidade formal de conduzir determinado processo, organizar o grupo ou coordenar uma decisão.
Peer leadership — liderança entre pares: quando alguém influencia e apoia o grupo sem ocupar uma posição formal de comando.
Self-leadership — autoliderança: a capacidade de cuidar de si, manter-se organizado, reconhecer necessidades e agir de forma que permita continuar contribuindo com o grupo.
Active followership — atuação ativa de quem está sendo liderado: saber apoiar uma liderança, oferecer informações relevantes, fazer perguntas, cumprir decisões coletivas e também se posicionar quando perceber um problema.
Todos os integrantes de uma expedição passam por esses papéis em diferentes momentos. Uma pessoa pode conduzir a navegação durante parte do dia e, horas depois, apoiar outro integrante que assumiu a liderança. Pode ajudar um companheiro a reorganizar a mochila sem precisar tomar o controle da situação. Pode perceber que precisa parar para cuidar dos próprios pés antes que um problema individual comprometa o deslocamento de todo o grupo.
Ser um bom líder, nesse contexto, também significa saber quando não é o momento de liderar formalmente.
Além desses papéis, a NOLS organiza o ensino de liderança em torno de sete leadership skills (habilidades de liderança):
- expedition behavior — comportamento em expedição;
- competence — competência;
- communication — comunicação;
- judgment and decision-making — capacidade de julgamento e tomada de decisão;
- tolerance for adversity and uncertainty — tolerância à adversidade e à incerteza;
- self-awareness — autoconsciência;
- vision and action — visão e ação.
Algumas dessas capacidades são mais diretamente relacionadas às habilidades técnicas. Outras estão próximas do que costumamos chamar de habilidades socioemocionais. Em campo, porém, elas raramente aparecem separadas.
Uma decisão sobre a rota exige competência técnica, comunicação, julgamento e capacidade de lidar com incerteza. Um conflito na divisão das tarefas exige autoconsciência, escuta e disposição para buscar uma solução que permita ao grupo continuar funcionando.
Expedition Behavior
Entre os conceitos mais presentes na cultura da NOLS está o Expedition Behavior, geralmente abreviado como EB, que podemos traduzir como comportamento em expedição.
O termo reúne atitudes que contribuem para a saúde, o funcionamento e os objetivos de um grupo: cumprir a própria parte, cuidar de si, considerar as necessidades dos outros, manter-se organizado, oferecer ajuda, agir com integridade e enfrentar conflitos de maneira construtiva.
Na prática, ele aparece nas tarefas mais comuns. É ferver água para o grupo enquanto outra pessoa desmonta a barraca. É lavar uma panela mesmo quando não foi você quem cozinhou. É perceber que alguém está tendo dificuldade e oferecer ajuda sem retirar dessa pessoa a oportunidade de aprender. É comunicar que não está bem antes que um problema se torne mais difícil de administrar.
Também significa equilibrar objetivos individuais e coletivos. Em uma expedição, nem todas as pessoas caminham no mesmo ritmo, lidam da mesma forma com o frio ou têm a mesma facilidade para tomar decisões. O grupo precisa avançar, mas também precisa criar condições para que seus integrantes continuem participando.
O Expedition Behavior não é um efeito secundário de colocar pessoas juntas na natureza. É um conteúdo intencionalmente trabalhado.
A NOLS observada no Alasca
A NOLS mantém operações em diferentes regiões do mundo. Minha experiência aconteceu na NOLS Alaska, localizada em Palmer, a aproximadamente uma hora de Anchorage.
O campus ocupa uma antiga fazenda leiteira de cerca de 40 acres, pouco mais de 16 hectares. A partir dali, são organizados programas de trekking, montanhismo, caiaque oceânico e packrafting, modalidade praticada com pequenos botes infláveis projetados para serem transportados dentro da mochila. Há também programas que combinam mais de uma dessas atividades.
As expedições seguem para diferentes regiões do estado, incluindo áreas costeiras, cadeias montanhosas e territórios acima do Círculo Polar Ártico.
A antiga fazenda foi adaptada para sustentar uma operação educacional que precisa preparar cursos com modalidades, durações e necessidades muito diferentes. Há salas de aula, espaços de briefing, áreas cobertas para cada turma organizar seus materiais, biblioteca, instalações administrativas, cozinha, refeitório, espaços de convivência e setores específicos para equipamentos e alimentação.
Esses espaços, porém, só ganham sentido quando observamos como trabalham de forma coordenada para sustentar o que será ensinado e vivido em campo.
Faça um tour pelo campus da NOLS Alaska!
Duas preparações para a mesma expedição
Quando o aluno chega ao campus, sua preparação para o curso já começou há algumas semanas. No student dashboard — painel do aluno, ficam reunidos documentos, formulários médicos, autorizações, informações sobre o programa e materiais que precisam ser lidos antes da viagem. A lista de equipamentos indica o que cada participante deve levar, quais itens podem ser alugados ou comprados e o que será fornecido pela escola.

Dashboard do aluno – NOLS
Antes do início do curso, há também um webinar de orientação, no qual são apresentadas informações sobre a viagem, a chegada, os primeiros dias, os equipamentos e a dinâmica geral do programa.
Essa é a preparação mais visível: o aluno organiza documentos, passagens, condição física, roupas e equipamentos para chegar ao Alasca em condições de participar da expedição.
Ao conversar com Caio Poletti, pude compreender melhor a preparação que acontece do outro lado. Enquanto os alunos organizam suas viagens, diferentes equipes trabalham de forma coordenada para transformar cada turma inscrita em uma expedição capaz de entrar em campo.
A designação dos instrutores é apenas uma parte desse processo. É preciso definir e revisar a rota, organizar a alimentação, conferir a disponibilidade dos equipamentos, planejar o transporte, preparar as refeições no campus e estruturar o acompanhamento do grupo enquanto ele estiver em uma área remota.
Cada decisão repercute em diferentes áreas. Quando uma rota é definida, a equipe de transporte precisa saber onde e quando o grupo será deixado e recolhido. O tamanho da turma, a duração do programa, a modalidade e as características do terreno influenciam os equipamentos necessários, a quantidade de alimentos, os meios de comunicação e o planejamento para uma eventual emergência ou evacuação.
O curso começa a existir como uma operação integrada muito antes de os alunos colocarem as mochilas nas costas.
Equipar cada grupo
O Issue Room é responsável pela organização, pela distribuição e pelo controle dos equipamentos utilizados nos cursos. Isso inclui tanto os materiais coletivos quanto os equipamentos individuais que os alunos precisam alugar ou comprar.
Quando chega o momento do issue — retirada e conferência dos equipamentos, cada participante apresenta a relação dos itens que ainda precisa complementar. Essa relação é feita junto com um dos instrutores, que checa os equipamentos do aluno.
Em meu grupo, um dos participantes chegou praticamente apenas com a própria bota e uma pequena mala de mão. Mochila, saco de dormir, isolante térmico, jaqueta e calça impermeáveis e diversos outros itens foram alugados ou adquiridos no campus.


Essa possibilidade reduz uma barreira de entrada importante. Uma pessoa não precisa comprar todo o conjunto de equipamentos técnicos antes de participar de seu primeiro curso.
Ao mesmo tempo, a escola consegue verificar com maior precisão se os itens essenciais são adequados ao programa, ao ambiente e às condições esperadas.
Nos cursos de montanhismo, caiaque oceânico ou packrafting, entram equipamentos ainda mais específicos. Caiaques, remos, roupas próprias para a atividade e PFDs (coletes salva-vidas) são caros, volumosos e especializados. Grande parte desse conjunto é disponibilizada pela operação.
O Issue Room conecta acesso aos cursos, adequação dos equipamentos e preparação para o ambiente.


Alimentar o campus e a expedição
A organização da alimentação envolve dois trabalhos paralelos. A equipe da cozinha precisa conhecer os horários de chegada e saída de cada turma e saber quantas pessoas estarão no campus em cada refeição.
Dependendo da programação, os alunos podem chegar pela manhã, almoçar e jantar antes da saída. Quando chegam à noite, precisam encontrar uma refeição e o café da manhã do dia seguinte.
A mesma preocupação existe no retorno. Em algumas extrações, a equipe leva um road breakfast — café da manhã para a estrada, acondicionado em caixas térmicas para que o grupo possa comer no encontro com a van ou o ônibus.
Ao retornar ao campus, os alunos ainda permanecem ali durante várias horas para limpar, devolver e reorganizar tudo o que foi utilizado. A cozinha precisa estar preparada para recebê-los com almoço, jantar ou outras refeições, dependendo do horário.


Paralelamente, o Ration Room — sala de rações organiza a alimentação que seguirá para campo. O número de pessoas, a duração do programa, a modalidade e a previsão de reabastecimentos determinam o volume e a distribuição dos alimentos.
Em cursos curtos, como o meu, essa divisão já chega pronta para os alunos. Isso permite que a turma avance mais rapidamente para a preparação dos equipamentos e para as atividades em campo.
Nos programas mais longos, os alunos participam ativamente do processo. Calcular quantidades, compreender as necessidades energéticas, distribuir alimentos, administrar peso e planejar refeições também fazem parte da aprendizagem.
Em algumas expedições no Alasca, o grupo recebe novos alimentos durante o percurso por meio de uma re-ration — reabastecimento de rações, geralmente feito por aviões.
A alimentação sustenta fisicamente a expedição, mas também oferece oportunidades para aprender planejamento, cozinha, organização e responsabilidade coletiva.


Transporte, instrutores e acompanhamento em campo
A equipe de transporte conecta o campus aos diferentes pontos de entrada e saída das expedições. Isso pode envolver ônibus, vans, aeronaves e prestadores locais, muitas vezes em regiões onde as condições meteorológicas alteram rapidamente o planejamento.

Frota de caiaques
Em meu curso, o acesso envolveu um fly-in, um voo até a região onde iniciaríamos a expedição. Foi necessário coordenar o deslocamento de ônibus até o pequeno hangar da Blue Ice Aviation, de Matt Keller e, depois, o embarque em um bush plane, um avião utilizado para acessar regiões remotas.

Os instrutores participam dos briefings, da definição das rotas e da organização do curso. Ao mesmo tempo, as equipes responsáveis pelo acompanhamento dos programas precisam saber onde cada grupo estará, quais são as alternativas previstas e quais recursos poderão ser mobilizados caso seja necessário oferecer apoio externo.
Em uma das áreas administrativas, um grande mapa permite acompanhar as regiões nas quais diferentes grupos estão atuando. Cursos de durações e modalidades distintas podem estar em campo simultaneamente, cada um com sua rota, equipe de instrutores, plano de comunicação e alternativas para situações de emergência.
Os instrutores levam diferentes meios de comunicação. Dependendo do programa e da região, podem ser utilizados telefones via satélite, comunicadores como o Garmin inReach, rádios VHF/UHF e personal locator beacons (localizadores pessoais de emergência).
Esses equipamentos oferecem redundância, mas continuam sujeitos às limitações impostas pelo relevo, pelo clima, pela atmosfera e pela própria tecnologia.
Enquanto houver cursos em campo, a NOLS mantém uma estrutura de plantão para receber comunicações e coordenar uma eventual resposta. Na NOLS Alaska, esse trabalho é dividido entre dois coordenadores de evacuação (Evacuation Coordinators, chamado de evac team) que se revezam ao longo da semana no atendimento do telefone de apoio. Eles também preparam e conferem os equipamentos eletrônicos utilizados em situações de emergência e os kits de medicamentos levados pelos grupos. Quando ocorre um incidente, esses profissionais participam ainda do registro e da consolidação das informações, sendo responsáveis por boa parte dos relatórios que alimentam o banco de dados de incidentes da NOLS.
Atividades em áreas remotas envolvem riscos, e uma eventual resposta pode ser afetada por distância, condições meteorológicas, terreno ou indisponibilidade de meios de transporte. A gestão de riscos procura antecipar cenários, reduzir a probabilidade de incidentes e preparar respostas compatíveis com as condições da expedição.
Ela também faz parte do currículo. Os alunos aprendem a identificar perigos, avaliar consequências, considerar alternativas e desenvolver capacidade de julgamento. Não se trata apenas de saber qual dispositivo acionar quando algo acontece, mas de tomar decisões que reduzam a possibilidade de chegar a esse ponto.
A operação no retorno
O mesmo sistema se movimenta novamente quando uma turma retorna. O transporte precisa encontrar o grupo no ponto previsto. A cozinha deve estar preparada para recebê-lo. Equipamentos e materiais de alimentação precisam ser encaminhados aos setores responsáveis.
Começa então o de-issue — processo de devolução dos equipamentos. Os alunos participam da lavagem e da limpeza das barracas, mochilas, isolantes térmicos e sistemas de cozinha. Frascos de temperos, recipientes e outros materiais pertencentes ao Ration Room também precisam ser limpos, conferidos e devolvidos.


As tarefas são divididas entre os participantes. Um grupo pode cuidar das barracas e mochilas; outro, dos isolantes; outro, dos sistemas de cozinha.
Não se trata apenas de entregar uma mochila ou uma barraca em um balcão. Cada conjunto precisa voltar em condições de ser inspecionado, reorganizado e preparado para outra turma.
Essa participação mantém a coerência com o que foi ensinado em campo: utilizar um equipamento ou recurso coletivo significa assumir responsabilidade por ele durante todo o ciclo da expedição.
O mesmo vale para os espaços de convivência, a cozinha e as áreas utilizadas pelas turmas. O aluno integra o trabalho cotidiano da expedição e do campus.
Uma operação que o aluno quase não vê
Grande parte desse trabalho acontece sem chamar atenção. Quando tudo funciona, o ônibus chega, a refeição está pronta, o equipamento está disponível, os alimentos foram separados e as pessoas responsáveis pelo acompanhamento conhecem o planejamento do grupo.
Essa fluidez pode dar a impressão de que cada etapa acontece naturalmente, mas a minha conversa com o Caio permitiu enxergar o contrário: ela é resultado da coordenação entre instrutores, cozinha, Ration Room, Issue Room, transporte, administração, gestão de riscos e outras equipes. Pude observar essa dinâmica durante a semana em que permaneci no campus, aguardando o retorno do Mateus.

Parte administrativa da NOLS Alaska
O que torna essa coordenação ainda mais impressionante é a escala. No próprio dia em que meu curso começou, pelo menos outra turma também se preparava para sair. Nos dias seguintes, enquanto alguns alunos chegavam para iniciar seus programas, outros retornavam do campo, limpavam os equipamentos e concluíam seus cursos.
Durante o auge da temporada no Alasca, a operação pode preparar, despachar, acompanhar ou receber até cinco turmas simultaneamente, cada uma com instrutores, rota, alimentação, equipamentos, transporte e planejamento de emergência próprios. Em apenas três meses de temporada, quase mil alunos passam pelo campus de Palmer.
Enquanto uma turma retira equipamentos no Issue Room, outra pode estar organizando alimentos no Ration Room. Um terceiro grupo pode estar retornando do campo, enquanto outros permanecem em expedição, acompanhados pela equipe de plantão.
A eficiência da operação não está apenas em preparar bem cada curso. Está em fazer com que programas diferentes avancem simultaneamente, sem perder de vista as necessidades específicas de cada grupo.
As pessoas que sustentam a operação
À frente da NOLS Alaska está Ashley Wise, Diretor do Campus, enquanto Caio Poletti atua como Gerente de Programas e foi quem me recebeu durante esta passagem por Palmer.
Além da equipe administrativa, há profissionais responsáveis por equipamentos, alimentação, manutenção, transporte, preparação dos programas, gestão de riscos e suporte aos grupos em campo. E, claro, há os instrutores, que levam todo esse planejamento para o ambiente onde a proposta educacional da NOLS realmente acontece.
Uma das coisas que mais me marcou durante os dias no campus foi encontrar tantos brasileiros trabalhando na NOLS Alaska, vários deles com uma longa experiência em educação ao ar livre e expedições.
Entre eles, estavam o próprio Caio que começou a trabalhar na NOLS em 2010; Maurício “ToNTo” Clauzet, Supervisor de Programa com foco em montanhismo e caiaque, também na NOLS desde 2010; Vini Maltauro, Supervisor de Programa de Montanhismo, na NOLS desde 2017; e Moaci Judson, grande amigo, instrutor da Outward Bound Brasil e coordenador de Leave No Trace no Gear Tips, que começou a atuar na NOLS Alaska em 2023.

Eu, Moa, ToNTo, Caio e Vini
Também encontrei Fabio Raimo, primeiro brasileiro a trabalhar na NOLS e fundador da Outward Bound Brasil, que começou sua trajetória na instituição há cerca de 30 anos e atua como instrutor de hiking, caiaque oceânico, vela, montanhismo, águas brancas e canionismo; Fabi Pereira, instrutora de hiking, vela e caiaque oceânico, na NOLS desde 2021, e Dalio Zipping Neto, instrutor de vela, caiaque oceânico, escalada e montanhismo, na NOLS desde 2007.
Confesso que senti muito orgulho ao perceber a presença de tantos profissionais brasileiros experientes integrados a uma instituição com a dimensão e a história da NOLS. Mais do que simplesmente estarem trabalhando no Alasca, são educadores que acumulam experiência em diferentes ambientes, modalidades e organizações e que levam também suas próprias trajetórias para dentro dessa comunidade.
E os brasileiros são apenas parte dessa diversidade. Durante minha passagem pelo campus, conversei também com instrutores e profissionais do México, Equador, Nova Zelândia e Índia, além de pessoas de diversas regiões dos Estados Unidos. Essa mistura de nacionalidades, experiências e referências é perceptível nas conversas ao redor das mesas, nos briefings e entre uma expedição e outra.
A NOLS pode operar no Alasca, no Wyoming ou em outras partes do mundo, mas sua comunidade vai muito além das fronteiras desses lugares. Instrutores formados em contextos diferentes circulam entre temporadas, ambientes e organizações, levando experiências de um lugar para outro e aprendendo uns com os outros.
Uma escola não é formada apenas por seu currículo ou por sua infraestrutura. Ela também é construída pelas pessoas que ensinam, organizam, observam, corrigem, acompanham e mantêm toda a operação funcionando.
Uma escola chamada expedição
Cheguei ao Alasca interessado em duas experiências específicas: o curso de 30 dias do Mateus e a minha própria expedição de oito dias.
Ao permanecer no campus de Palmer, comecei a enxergar o sistema que existe ao redor de cada grupo que entra em campo. A plataforma online, a orientação anterior à viagem, a conferência dos equipamentos, a preparação da alimentação, o trabalho dos instrutores, o acompanhamento das rotas, a gestão de riscos e a limpeza dos materiais no retorno não são etapas independentes. Elas sustentam um mesmo projeto educacional.
A NOLS não utiliza o ambiente natural apenas para ensinar pessoas a caminhar, remar, escalar ou acampar. Utiliza essas atividades para desenvolver competência, autonomia, capacidade de julgamento, convivência e diferentes formas de exercer liderança.
O aluno aprende a navegar, montar um abrigo, cozinhar e cuidar dos pés. Mas aprende também a comunicar uma dúvida, assumir uma tarefa, reconhecer os próprios limites, apoiar uma decisão coletiva e lidar com situações nas quais não existe uma resposta perfeita.
Para mim, conhecer esse processo por dentro também foi uma oportunidade de olhar para o próprio Gear Tips. Não para simplesmente reproduzir um modelo construído ao longo de décadas e em uma realidade muito diferente da nossa, mas para observar práticas, processos e princípios que podem nos ajudar a aperfeiçoar nossos próprios programas de formação, cursos e experiências educacionais.
Esse talvez tenha sido um dos aprendizados mais valiosos da passagem por Palmer: perceber como propósito pedagógico, operação e experiência do aluno precisam caminhar juntos.
O Alasca oferece um cenário extraordinário para isso, mas não é o cenário que define a NOLS. O que define a escola é a maneira como ela transforma a expedição em aprendizagem.
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