A crise da Geração Ansiosa – uma análise do best-seller refletindo sobre o papel da natureza na prevenção de transtornos mentais

Na última década, o mundo presenciou um aumento considerável nos transtornos mentais entre crianças e adolescentes. Ansiedade, depressão, automutilação e até suicídios têm se tornado uma realidade cada vez mais comum entre os mais jovens. No livro A geração ansiosa, Jonathan Haidt sugere que essa realidade tem correlação com a substituição do brincar livre pela hiperconectividade digital.

Livro A Geração Ansiosa, Jonathan Haidt

Aqui no Gear Tips, o Pedro Lacaz fez uma análise do livro “A Última Criança na Natureza” apresentando o conceito do Transtorno do Déficit de Natureza, onde Richard Louv nomeia o crescente distanciamento entre as crianças e a natureza. Ao chamar a atenção para esse fenômeno, o autor argumenta que a interação com os recursos naturais é fundamental para o desenvolvimento da criança e apresenta uma série de medidas para tentarmos ofertar a presença de brincadeiras na natureza para a infância.

Seguindo na mesma direção, Haidt aponta que a evolução das tecnologias digitais alterou as características do convívio social de forma significativa. A hiperconexão passou a fazer parte do cotidiano com ênfase no dia-a-dia das novas gerações, especialmente com o uso excessivo de smartphones e redes sociais. Como consequência, o desenvolvimento social e neurológico dos jovens foi impactado, com destaque para privação de sono, desenvolvimento de vícios em telas e fragmentação da atenção.

O livro A Geração Ansiosa rapidamente tornou-se best seller. De fato, a narrativa alarmante sobre o impacto das tecnologias digitais no desenvolvimento infantil é um tema que interessa muito aos educadores, tanto no ambiente familiar, quanto escolar. O autor baseia seus argumentos em diversos estudos científicos correlacionando dados. No entanto, cientistas sociais como Candice Odgers consideram o tratamento dos dados de Haidt espúrio, defendendo que não é possível inferir que as redes sociais estão causando uma epidemia de transtornos mentais.

Neste artigo, longe de debater a cientificidade dos dados, vamos explorar como a infância passou a ser reconfigurada por esses dispositivos. Também oferecemos soluções práticas para ajudar famílias e educadores a devolver às crianças o contato com a natureza e com outras crianças, criando um ambiente mais saudável para o desenvolvimento emocional e cognitivo.

O impacto dos smartphones na infância

A vida passou por uma transformação radical com a chegada dos smartphones. De maneira geral, muitas alterações são positivas. As filas de banco evitadas, a facilidade de comunicação com pessoas queridas que estão distantes e o acesso a múltiplos dados instantaneamente são benefícios inegáveis. Entretanto, o surgimento da câmera frontal e as redes sociais aproximaram a nossa vida de verdade à realidade da “Matrix” de maneira surpreendente.

Em pesquisa recente, como citei no meu artigo anterior, muitos adultos concordam que passam grande parte do seu dia no smartphone e relatam que um dos aspectos mais positivos de aventuras em família na natureza é a oportunidade de desconexão. No sentido de deixar o telefone de lado e focar no momento presente, muitas vezes, dando mais atenção às pessoas que estão ao seu redor.

Semelhante aos nossos achados, um relatório da Pew Research Center aponta que dois terços dos pais indicam que, em função da tempestade de informações trazidas pelas tecnologias, educar crianças hoje é mais difícil que há 20 anos. A maioria afirma que o celular atrapalha o tempo de qualidade com os filhos. Cerca de 68% se dizem distraídos às vezes e 17% frequentemente.

Se esse novo formato de vida, onde já impacta negativamente os adultos, os efeitos sobre as crianças são ainda mais preocupantes. Nesse sentido, A Geração Ansiosa compartilha diversos conceitos e reflexões muito interessantes sobre a infância. Uma das passagens que mais me chamou a atenção refere-se ao fato de que crianças são programadas para se conectarem com outras crianças por meio da sintonização e da sincronização de seus movimentos e emoções.

O desenvolvimento infantil depende da brincadeira ao ar livre, que proporciona experiências desafiadoras e socialmente ricas, o que não acontece no mundo virtual. Estudos indicam que brincar livremente, especialmente em atividades com riscos calculados, fortalece as conexões emocionais entre as crianças e contribui para o desenvolvimento cognitivo e social. Esse período de intensa aprendizagem social é especialmente sensível entre os 9 e 15 anos, quando as crianças precisam de interações reais para amadurecerem.

Outro conceito interessante apresentado por Haidt é o de antifragilidade, de Nassim Taleb, que reforça que os seres humanos se beneficiam da exposição a desafios e incertezas. Um exemplo interessante é o do sistema imunológico. Crianças criadas numa bolha de limpeza não o desenvolvem da melhor maneira. Ou seja, uma vivência protegida em excesso, sem experiências de risco, pode minimizar o aprendizado para lidar com dificuldades, para enfrentar o desconhecido e tomar decisões autônomas.

Contato das crianças com a natureza em um mundo digital
Contato das crianças com a natureza em um mundo digital

Buscando a conexão das crianças com o mundo real

Garantir que as crianças tenham oportunidades para brincar livremente, experimentar desafios e interagir com seus pares é fundamental para um desenvolvimento saudável. Ao contrário do que muitos pais temem, o contato com pequenos riscos ensina habilidades essenciais de avaliação e gestão de riscos, promovendo autonomia e resiliência. Proteger a infância não significa eliminar todos os desafios, mas criar um ambiente que possibilite que cresçam fortes, seguras e preparadas para lidar com desafios.

Nesse caminho, a pesquisadora Ellen Sandseter argumenta que brincadeiras excitantes e arriscadas têm efeitos antifóbicos, ajudando crianças a superar medos naturais e a desenvolver confiança em si mesmas. Assim, as brincadeiras de risco são essenciais para a transição entre o “modo defesa” e o “modo descoberta”.

Crianças brincando livremente, sem recursos digitais

Esses conceitos, introduzidos por Caroline Webb, no livro How to have a good day e utilizados por Haidt em A Geração Ansiosa, descrevem diferentes formas de interação com o mundo. Enquanto o Modo Descoberta impulsiona a curiosidade, a exploração e a autonomia, o Modo Defesa prioriza a cautela, a segurança e a dependência do grupo.

Ambos desempenham papéis essenciais, mas um excesso de proteção e a falta de desafios podem levar ao predomínio do Modo Defesa, limitando o desenvolvimento socioemocional. Enquanto mais experiências exploratórias, incentivando a autonomia, o livre brincar e a interação com outras pessoas, incentiva o desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

Inspirado no conceito de “eletricidade social” do sociólogo Émile Durkheim, que se refere à energia coletiva que surge em grupos quando as pessoas compartilham emoções intensas e sincronizam suas ações. Haidt defende que o livre brincar gera esse tipo de energia coletiva, promovendo cooperação, empatia e resiliência. O que não é difícil de constatar ao analisar as atividades que desenvolvemos com grupos de crianças em trilhas.

Crianças em atividades na natureza - trilha com os pais

Refletindo sobre a urgência de promover conexões de crianças e adolescentes com a natureza, Isabelle de Paula apresenta diversas formas de promover a conexão de crianças com ambientes naturais. Seja buscando comunidades que promovem atividades coletivas, como o Mini Montanhistas; realizando cursos livres, como os ofertados pela OBB; contratando serviços especializados, como o Cria Outdoor; ou seja priorizando escolas com repertório e projeto pedagógico que valorize essa relação com a natureza.

Como pais e educadores podem criar ambientes mais saudáveis

Dentre todas as ideias apresentadas em A Geração Ansiosa, a que eu mais apreciei foi a seguinte: “a maioria dos princípios psicológicos que me baseio tem aplicação universal, porém minhas sugestões de implementá-los podem não funcionar para você. Então, por favor: inove, improvise e procure avaliar os resultados.”

Baseado nessa passagem do livro, essa parte final do artigo além de discutir como pais e educadores podem ajudar a criar um ambiente mais equilibrado para as crianças, promovendo uma convivência saudável com as tecnologias, vai apresentar dicas de como oferecer possibilidades para as crianças desenvolverem atividades mais saudáveis. Entretanto, é importante que você filtre o que é viável para seu cotidiano.

Ao longo dos últimos cinco anos, fiz uma transição profissional começando uma trajetória na educação básica, como psicopedagogo escolar. Esse movimento me fez mergulhar na literatura sobre desenvolvimento infantil e em cursos livres. Tanto no campo da educação midiática, para entender possibilidades educativas para lidar com essa característica do nosso viver. Quanto no campo da educação infantil, para entender a criança, a natureza, o brincar, a Cultura da Infância e busca de ressignificar minhas práticas como educador.

Fazendo uma conexão entre os meus achados nesse percurso e as ideias de ações coletivas para uma infância mais saudável indicadas por Haidt, no trecho final do livro A Geração Ansiosa, pensar a escola que nossas crianças frequentam é fundamental. São 200 dias letivos no ano, muitas horas vivenciadas com conexões interpessoais inesquecíveis, que certamente constroem marcas profundas para toda a vida. Assim, entender se o projeto pedagógico da escola está alinhado com o que a família acredita é fundamental.

A professora Léa Tiriba, em entrevista ao Instituto Alana (vídeo abaixo), enfatiza a necessidade de permitir que as crianças tenham mais contato com a natureza durante o período escolar, argumentando que essa conexão é fundamental para o desenvolvimento integral dos alunos. A professora sugere que as escolas promovam atividades ao ar livre e integrem elementos naturais nas rotinas diárias, visando enriquecer a experiência educacional e promover o bem-estar das crianças.

Outro ponto sobre os ambientes escolares levantado pelo autor relaciona-se à proibição do uso de celulares por jovens e crianças. Nesse aspecto, em 13 de janeiro de 2025 foi sancionada a Lei nº 15.100, que trata da proibição de celulares nas escolas públicas e privadas de todo o país. Dessa forma, é uma preocupação a menos para a família no tocante ao ambiente escolar.

Refletindo sobre as possibilidades de ações que a família pode adotar, o autor recorre aos conceitos de “jardineiro” e “carpinteiro” desenvolvidos por Alison Gopnik. Em seu livro, The Gardener and the Carpenter, ela argumenta que criar filhos não deve ser um processo controlador, mas sim um cuidado que respeita sua natureza imprevisível, brincalhona e única. Assim, a sugestão é oferecer uma infância com mais independência e responsabilidade. Nosso trabalho não é dizer às crianças como brincar, mas oferecer oportunidades de brincadeiras.

Trazendo para a realidade do cotidiano, incentivar encontros com outras crianças com espaço para explorarem, interagirem e mediarem os conflitos entre si, pode ser uma ótima ideia. Uma sugestão é mapear áreas verdes nas proximidades, como praças, parques e bosques para incentivar passeios de bicicleta, patinete e patins. Assim como brincadeiras de bola, pega-pega, entre outras.

Crianças interagindo e brincando juntas ao ar livre

Pensando no aumento do envolvimento de crianças com o mundo real, Haidt sugere acampamentos e atividades na natureza para criar oportunidades para encontrar lugares onde se reunir com outras crianças sem a presença de smartphones pode potencializar a experiência. Nesse contexto, nossa experiência com o Mini Montanhistas está sendo muito rica. Assim, sugerimos que você participe de atividades da comunidade ou crie seu próprio grupo para incentivar famílias a irem para a natureza.

Diante de tantos desafios impostos pela era digital, é essencial que pais e educadores assumam um papel ativo na promoção de uma infância mais equilibrada. Isso não significa demonizar a tecnologia, mas encontrar formas saudáveis de trazê-la no cotidiano, sem que comprometa as interações sociais e o contato com a natureza.

Atividades na natureza para crianças

Criar oportunidades para que as crianças brinquem ao ar livre, explorem ambientes naturais e desenvolvam habilidades socioemocionais fortalece sua capacidade de enfrentar desafios e construir uma relação mais autônoma com o mundo. Mais do que restringir o uso de telas, é preciso oferecer alternativas interessantes. O incentivo à prática de esportes, passeios em áreas verdes, atividades manuais e momentos de lazer em família são caminhos para fortalecer a conexão com o mundo real.

Por fim, repensar a infância não é apenas uma necessidade individual, mas uma questão social. A maneira como educamos e criamos oportunidades para o desenvolvimento infantil impacta diretamente as futuras gerações. Ao resgatar a importância do brincar livre e da conexão com a natureza, estamos investindo na construção de uma sociedade mais saudável, emocionalmente equilibrada e preparada para lidar com os desafios do futuro. O convite, portanto, é para que inovemos, improvisemos e avaliemos constantemente, garantindo que nossas crianças tenham uma infância plena e enriquecedora e nos influenciem a brincar.

Brincadeiras ao ar livre
Crianças encarando um dia de chuva do lado de fora
Atividades na natureza em família

Curso Infância Outdoor

A propósito, se você tiver mais interesse sobre esse assunto, no Gear Tips Academy temos o Curso Infância Outdoor, que ensina sobre o que fazer, como planejar e se preparar para as atividades ao ar livre com crianças. Curso ministrado pela Bia Carvalho e Edinho Ramon, autor desse texto.

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edinho ramon
Edinho Ramon

Edinho Ramon é praticante de atividades ao ar livre desde o início dos anos 2000. Formou-se na AMAN e dedicou grande parte de sua trajetória ao Ensino Profissional com ênfase no desenvolvimento de conteúdos atitudinais. Especialista em Psicopedagogia Escolar e Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, atua na gestão de políticas públicas educacionais. Atualmente desenvolve pesquisas sobre desenvolvimento socioemocional, educação midiática e impacto da inteligência artificial na educação. Na comunidade do montanhismo, contribui com produções culturais como o livro Caminho a dois: uma jornada pela Pacific Crest Trail e os filmes disponíveis no streaming do Gear Tips Club. Pai da Maya em tempo integral, investiga e compartilha como inserir crianças no universo Outdoor.

Artigos: 8

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