Como descrito no primeiro artigo da série “Meio Ambiente e Atividades ao Ar Livre”, cresce entre os aventureiros das mais diversas modalidades de atividades na natureza o desejo de entender um pouco mais sobre os aspectos ambientais dos locais de suas aventuras. Caminhar, correr, pedalar ou escalar pelo mundo desperta o desejo por mais conhecimento, para que estas atividades não sejam apenas “desafios”, mas sim, imersões completas.
Imagine um montanhista ao subir em um dos cumes do Parque Estadual dos Três Picos, no Rio de Janeiro, vendo aquela imensidão de montanhas à sua frente, refletindo sobre aquela paisagem: “preciso entender um pouco mais sobre esse incrível relevo”.

Figura 1: “Como posso entender um pouco sobre essa paisagem?”
Pensando nisto, e com o objetivo de contribuir para o fortalecimento e a simplificação da comunicação entre as ciências ambientais e a prática de atividades ao ar livre, apresentamos no Gear Tips a série de artigos “Meio Ambiente e atividades ao ar livre”, demonstrando exemplos práticos de uma ótima fonte de consulta sobre aspectos ambientais.
Nesta série serão trabalhados textos com as temáticas da geologia, geomorfologia, solos, vegetação e uma visão integrada no que tange o uso do Banco de Informações Ambientais – BDIA do IBGE. O primeiro trabalho da série abordou o tema da Geologia. Neste artigo, será apresentado o tema da geomorfologia, continuando a construção do conhecimento temático sobre o assunto.
Geomorfologia
Mas afinal, o que é geomorfologia? A geomorfologia é uma das mais importantes disciplinas da geografia física, dedicada ao estudo das formas de relevo da Terra, sua origem, evolução e os processos responsáveis por moldá-las. Ela investiga as características da superfície terrestre, como montanhas, vales, planícies, colinas e dunas, e busca compreender como essas formas foram criadas e modificadas ao longo do tempo. Trata-se de uma disciplina que interage com diversas áreas do conhecimento, como geologia, climatologia, biologia e hidrologia, sendo a base do entendimento da paisagem.
Segundo Goudie e Viles (2010), no aclamado livro Landscape and Geomorphology: a Very Short intrduction, temos:
“A geomorfologia pode ser definida como o estudo da superfície da Terra e dos processos que a moldam. Assim, por definição, lida com a “tela” fundamental da paisagem – ou seja, a topografia, ou relevo, e os processos que a criam e moldam. A geomorfologia é o que mantém a paisagem unida.”
De forma dinâmica, seu estudo procura compreender os processos que atuam na modelagem do relevo, incluindo a ação dos agentes externos, como água, vento e gelo, bem como os processos internos, como movimentos das placas tectônicas e atividade vulcânica. Ela também investiga o comportamento das rochas e solos frente às forças da natureza e como as interações entre os elementos naturais e as atividades humanas influenciam a configuração do relevo.
A geomorfologia desempenha um papel importante na prática de atividades ao ar livre. Através do conhecimento sobre as características da paisagem, como montanhas, vales, rios, lagos, desfiladeiros e colinas, podemos planejar com mais qualidade nossas rotas ao ar livre, permitindo a escolha de caminhos mais adequados, considerando a topografia, a acessibilidade e as preferências pessoais. A compreensão da geomorfologia local ajuda a evitar áreas perigosas, como terrenos instáveis ou propensos a deslizamentos de terra.
Um melhor conhecimento sobre o assunto promove uma boa interpretação do ambiente natural. Compreender o que se vê promove aos praticantes a chance de apreciarem melhor a paisagem de uma forma mais profunda. Essa compreensão também pode ser enriquecedora do ponto de vista educativo e proporcionar uma experiência mais imersiva na natureza.
Em termos de segurança, este conhecimento ajuda a também entender os riscos associados, como deslizamentos de terra, avalanches, instabilidades e possibilidades de enchentes, com tomadas de decisões mais informadas e respectivas precauções adequadas. Os aventureiros podem evitar áreas perigosas ou tomar medidas de segurança correspondentes.
Entendendo o relevo, é claro, avistamos melhores pontos de referência úteis para a orientação e navegação. Características da paisagem, como picos, vales, rios e colinas, podem servir como pontos de referência para a navegação em trilhas ou áreas remotas. Esta capacidade, aliada à leitura de mapas topográficos, pode ajudar a encontrar o caminho correto e a evitar se perder.

Figura 2 – Conhecimento do relevo como modo de orientação no Parque Estadual da Serra do Papagaio
Neste artigo, detalharemos então como conhecer um pouco mais sobre a geomorfologia do local de interesse através do BDIA – Banco de Informações Ambientais do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Como mencionado anteriormente nesta série, basta acessar o site e começar a ter acesso a uma série de informações.

Página inicial do Banco de Informações Ambientais – BDIA.
Segundo informações oficiais do sistema, o BDIA reúne uma coleção de bases temáticas de recursos naturais do território nacional, ajustadas à escala 1:250.000, produzidas em quatro áreas temáticas: Geomorfologia (relevo), Geologia, Pedologia (solos) e Vegetação. A plataforma disponibiliza tais dados e informações de maneira bem interativa e de fácil consulta. Os mapas temáticos possuem diferentes níveis de navegação, organizados em camadas de informação exibidas em mapas web, com suporte de gráficos e tabelas.
Com um pequeno conhecimento sobre a localização do ponto de interesse e o uso do teclado e do mouse de seu computador, você poderá navegar facilmente por toda a variada composição de informações expostas sobre imagens de satélite de todo o Brasil, ou sobre informações gráficas extraídas da plataforma colaborativa Open Street Map. Assim, poderá consultar as informações que precisa. Veja o exemplo na imagem, abaixo.

Navegação sobre o Parque Estadual da Serra do Papagaio
Para acessar a sessão correspondente à geomorfologia no BDIA é fácil. Basta, na página inicial, clicar no ícone com o mesmo nome. Assim você terá acesso ao mapa interativo e temático de todo o Brasil, no tema selecionado.
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Figura 3 – ícone que dá acesso ao mapa de geomorfologia.
Basta entrar no sistema e navegar até o Parque Estadual dos Três Picos. Veremos, no canto esquerdo superior, um campo de pesquisa onde é possível fazer uma busca por alguma unidade geomorfológica específica na qual se tem o interesse de saber sua localização. No canto esquerdo inferior existe uma ferramenta de dicionários de conceitos que podem contribuir na resolução de alguma dúvida que aparecer. Além disso, temos um gráfico no canto direito inferior e, como ponto mais importante, uma caixa acima que apresentam duas abas.
A primeira aba, de legenda, serve como uma consulta rápida a todas as informações que aparecem na tela. Na imagem a seguir, a aba de legenda descreve a existência, na região, de duas unidades: a Serra dos Órgãos e o Alinhamento de Cristais da Depressão do Paraíba do Sul, ambas unidades presentes na escala 1:250.000.

Figura 4 – Navegação com foco na legenda, sobre o Parque Estadual dos Três Picos.
Já a segunda aba, denominada “Camadas”, é muito importante em toda a navegação. Através dela é possível ativar ou desativar informações que apareçam no mapa, sendo fundamental no processo de autoaprendizagem. Ao selecionarmos a aba de “Camadas”, teremos a opção de ativar uma série de informações, como: “Pontos de Campo”; “Formas de Relevo Pontuais”; Formas de Relevo lineares”; “Comp. de Relevo” e “Unidades”. Os três primeiros itens descrevem itens bem específicos, mas que não necessariamente cobrem toda a área de interesse. Já o “Compartimento de Relevo”, traz algo mais geral, como descrições gráficas de “Serras” e “Vales”, também não sendo interessante para nossa análise. Neste artigo, trabalharemos alguns exemplos baseados na camada sempre ativa do sistema: “Unidades”.

Figura 5 – Seleção de camadas no sistema de geomorfologia do BDIA.
Segundo o Manual Técnico de Geomorfologia do IBGE (IBGE, 2009), as “Unidades” são a terceira classe de classificação do relevo aparecendo logo após os Domínios Morfoestruturais e as Regiões geomorfológicas, ambas de caráter ainda mais amplo e regional. Já as Unidades, simplificando sua definição, podem ser consideradas como áreas geográficas com características geológicas, topográficas e morfológicas semelhantes, definidas com base nos processos geológicos e nas formas de relevo presentes em determinada região. Ou seja, grandes regiões semelhantes em relevo.
Ainda com o navegador sobre o Parque Estadual dos Três Picos, ao clicarmos no mapa sobre o Pico Maior de Friburgo, com a camada de “Unidades” ativa, veremos que o sistema abrirá uma caixa de conteúdo, contendo uma série de informações importantes sobre aquela unidade geomorfológica.

Figura 6 – Caixa de conteúdo da unidade geomorfológica selecionada sobre o mapa
Vale destacar que, devido a escala em que os mapeamentos foram produzidos, as informações apresentadas para sua área de interesse possuem caráter regional dentro da escala 1:250.000. Na caixa de conteúdo demonstrada, vimos uma boa descrição sobre a Unidade Serra dos Órgãos, com nome, região geomorfológica, altitudes mínimas e máximas estimadas. Como mencionamos anteriormente, a região possui características semelhantes com todo o seu entorno, tendo seu núcleo principal nos arredores das cidades fluminenses de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, sendo bem semelhantes ao famoso Parque Nacional da Serra dos Órgãos, ambos incluídos nesta mesma Unidade.
Além disso, vemos uma caracterização geral da área. São informações importantes, tais como: “A unidade tem feições de relevo caracterizadas pela alta declividade, vales profundos, escarpas e forte controle estrutural”. Ou seja, uma aventura nesta região será marcada por montanhas íngremes e vales profundos, com bons ganhos e perdas de altimetria… ótimas para a prática de trekking e escalada. Ali, você não terá uma caminha plana.
Também podemos ver a seguinte passagem, destacando um pouco do aprendizado sobre o contexto regional que o sistema pode oferecer no que trata da suscetibilidade à riscos naturais (BDIA, 2023):
“Ressalta-se que a combinação de alta declividade, solos pouco espessos, grande pluviosidade e descontinuidades no solo e na rocha (fraturas de alívio de tensão, mudanças bruscas entre solo e rocha), dentre outros fatores, resulta em uma área com alta incidência de movimentos gravitacionais de massa (escorregamentos de solo e rocha, queda de blocos, fluxo de detritos, etc.). A predisposição da área à ocorrência de ações morfogenéticas acentuadas, somada ao mal planejamento urbano, configura um cenário de alto risco para as populações que vivem nesta unidade geomorfológica.”
Continuando na caixa de conteúdo, ainda é possível aprender um pouco mais sobre a caracterização Geral das Formações Superficiais, os Processos Formadores e, por fim, o contato com outras unidades. Para conferir o texto integralmente, basta acessar o sistema.
Mas aliado ao BDIA, como podemos ver esse relevo sem sair de casa? Simples, aqui lhe recomendaremos duas opções. Na primeira, você pode baixar o software Google Earth Pro e navegar de forma muito intuitiva com o mouse até o local de sua aventura. Lá, basta ativar a opção de “Terreno” no canto inferior esquerdo e, posicionando o mouse onde quiser, conseguirá ter uma bela vista em 3D estimada do local, baseada em um Modelo Digital de Elevação do próprio aplicativo.

Figura 7 – Imagem do relevo do Parque Estadual dos Três Picos gratuitamente disponível no Google Earth.
Outra ótima opção é acessar o aplicativo Gaia GPS, parceiro com benefício do Gear Tips Club. Ao se cadastrar, você terá acesso à ferramentas gratuitas ou Premium (use o desconto Gear Tips para assinar) que também compilam uma série de informações muito importantes. Ao navegarmos até o mesmo local, basta ativarmos alguma camada ou “layer” topográfico para conferir uma imagem do relevo com suas respectivas curvas de nível, bem como o mapeamento de uma série de trilhas já existentes na região, perfeito para programar quais aventuras quiser. Neste caso, estamos com o Layer Satélite Topo ativo, exclusivo para usuários Premium.
Adiante, mostraremos que o Gaia também possui a mesma visualização em três dimensões do relevo.

Figura 8 – Gaia GPS com relevo em curvas de níveis e trilhas já existentes no local.
Como segundo exemplo, ao navegarmos sobre o Parque Nacional da Chapada Diamantina, vemos uma Unidade predominante, marcada em uma cor próxima ao marrom, sob a visualização da base de dados do Open Street Map.

Figura 9 – Unidade predominante sobre o Parque Nacional da Chamada Diamantina.
Na região, segundo caixa de conteúdo que se abre ao clicarmos sobre a Unidade, temos a Serra do Sincorá. Segundo sua descrição geral, descobrimos que a unidade “é composta por relevo montanhoso com altitudes quase sempre acima de 800 m, embora as altimetrias possam baixar a 400 – 600 m nos vales. As altitudes mais elevadas superam 1.200 m no “front” da serra do Sincorá. Além disso, é composta por quartzitos, metarenitos, metassiltitos e conglomerados”. Em outro trecho, temos (BDIA, 2023):
“Residuais de topo plano em camadas com mergulho sub-horizontal, como o Morro do Pai Inácio, contrastam com cristas assimétricas em camadas muito inclinadas. As partes mais conservadas são sustentadas pelas camadas resistentes de quartzito, formando cornijas. Os trechos mais dissecados correspondem a intercalações de rochas mais tenras, onde a erosão esculpiu ravinas e formas convexizadas, em áreas embutidas no planalto. Algumas dessas áreas, como no local conhecido como Pati, apresentam-se intensamente ravinadas.”

Figura 10 – Caixa de conteúdo sobre o Parque nacional da Chapada Diamantina
Ou seja, apesar de apresentar um relevo bem acidentado, não teremos declividades tão acentuadas como as analisadas no parque Estadual dos Três Picos. Em termos amplos, podemos considerar que as ravinas são características de relevo em formato de pequenos vales estreitos e profundos, com paredes íngremes, que são formadas pela erosão hídrica em encostas ou vertentes. Além disso, na região, teremos picos compostos de quartzito formando cornijas, formas de relevo com borda ou escarpa íngreme encontradas nas margens de planaltos ou em encostas de montanhas, formação característica da região. Veja a foto abaixa tirada de dentro do Vale do Pati e repare nos vales e cornijas formadas.

Figura 11 – O Vale do Pati demonstrando o relevo da região.
Novamente, ao acessarmos o aplicativo Gaia GPS, podemos navegar até o mesmo local e conhecer um pouco mais sobre o relevo semelhante à foto acima. Basta ativar a opção “3D” no canto inferior direito e posicionar o cursor até o local de interesse. Na imagem acima, do Cruzeiro, localizado no meio do Vale do Pati. Veja a imagem a seguir e surpreenda-se.

Figura 12 – Relevo do Vale do Pati visto no aplicativo Gaia GPS.
Alguns trechos destas descrições podem ser difíceis de se entender, mas com um pouco de estudos mais específicos, pode se ter uma boa ideia da geomorfologia da região. A possibilidade de se aprofundar o conhecimento sobre um local específico é infinito e conta com diversas escalas de análise, sendo a ferramenta de fácil acesso e gratuita do BDIA uma excelente porta de entrada para isso.
Ao ler esta série de artigos, esperamos que o BDIA seja uma boa ferramenta para aguçar o seu processo de aprendizado, que culminará na sua grande aventura. Ao estar lá, lembre-se de registrar mentalmente tudo que observar. Depois, venha aqui neste texto, acesse o Fórum do Gear Tips e comente como te ajudamos nesse processo. Ou talvez inicie um bom debate para que possamos todos aprender ainda mais. Elogie, comente, critique e compartilhe, esse conteúdo está aqui para isso. Seguimos em frente.
Fique atento à esta série de artigos, pois a próxima publicação trará um pouco mais sobre o uso do BDIA, mas na categoria Solos.
Referências
- BDIA – Banco de Dados de Informações Ambientais. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Versão 2.15.0. Disponível em https://bdiaweb.ibge.gov.br/. Acesso realizado em 30 de maio de 2023.
- GOUDIE, A.; VILES, H. Landscapes and Geomorphology: A very short introduction. OUP Oxford, 2010.
- IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Coordenação de Recursos Naturais. Manual técnico de geomorfologia. Ed. Rio de Janeiro, 2009.
Autores
Bruno Negreiros, Gabriel Lousada e Rafael Damiati.
