Autossuficiência – Pequeno Dicionário Filosófico de Aventura

Pequeno Dicionário Filosófico de Aventura: Autossuficiência.

Começando pelos filósofos gregos clássicos — em particular os estoicos, Sêneca e Epiteto e mais tarde o imperador romano Marco Aurélio —, existe nas civilizações uma preocupação central em formular códigos pessoais de conduta ética em harmonia com a natureza. Nessas formulações, a questão da autossuficiência sempre teve papel fundamental, mas ela não existe fora do contexto natural. O ser humano só alcançará seu potencial máximo inserido no meio de onde ele surgiu. Qualquer coisa fora isso é artificial.

De lá pra cá, passou muita água por baixo da ponte.

Hoje, o distanciamento da natureza promovido por nossas sociedades, principal razão pra visível destruição ambiental, deixou de ser uma discussão ética e passou a ser um debate sobre a sobrevivência da vida no planeta. Nós nos distanciamos tanto dos comportamentos éticos estabelecidos pelos gregos antigos, em especial o princípio básico de respeito por todas as formas de vida, que chego a pensar que precisamos dar vários passos pra trás, precisamos voltar às nossas raízes, se quisermos realmente enxergar uma solução definitiva para a atual crise. Precisamos reestabelecer um código pessoal de conduta que gere vida e não morte, que promova regeneração e não destruição, que aponte para um norte comum de irmandade coletiva e não de culto ao individualismo.

Palavras e conceitos complicados? Dá pra ilustrar com uma história…

Quando eu tinha talvez 16 anos de idade e cursava o primeiro colegial, hoje o primeiro ano do ensino médio (eu tinha repetido o sétimo ano do fundamental), e estudava pela primeira vez numa escola particular, o Mackenzie, em São Paulo, matei aula de matemática pra pensar na vida. Eu repetia os passos que me levaram a bombar a sétima série e que me fariam bombar também o primeiro colegial. O problema foi que, muito cedo, aprendi que a escola atrapalhava mais do que ajudava meu aprendizado.

Descobri que havia uma palestra no grande a auditório do Mackenzie e que as portas não estavam trancadas. Eu gosto de aprender, o que é diferente de estudar. Entrei pra investigar. A curiosidade sempre foi uma escolha pra mim. Sou curioso por convicção.

Um senhor falava sozinho, sentado numa cadeira com um microfone na mão. Imediatamente reconheci a figura: era Orlando Villas-Bôas (1914-2002), o grande indigenista brasileiro, antropólogo, sertanista, escritor e indicado ao Prêmio Nobel da Paz, autor do famoso livro A MARCHA PARA O OESTE, que inclusive virou um ótimo filme. Ao lado do marechal Rondon, de Darcy Ribeiro e de Paulo Freire, Orlando era um dos heróis na minha casa. Minha mãe tinha livros desses ilustres brasileiros espalhados por todo lado.

Livro Marcha para o Oeste

Orlando Villas-Boas

Sentei na última fileira da plateia, afinal eu era um penetra.

Não lembro de tudo o que Orlando disse, afinal faz muito tempo, mas lembro de duas histórias que ficaram gravadas na minha mente igual tatuagens. Na primeira, o pajé branco contou que estava tomando banho no rio com o pajé da aldeia e um monte de curumins (palavra em tupi para menino). Era fim do dia, hora de um dos banhos tradicionais que indígenas tomam diariamente. Imaginei a cena como ilustração de um dos muitos livros que eu já havia lido sobre a Amazônia: mata densa e diversa, calor úmido e intenso, água transparente e fria, cheiros de flores e da chuva que se aproxima. Minha imaginação é como um tique nervoso, incontrolável.

Segundo Orlando, os curumins saíam da água a todo instante e corriam pra trás de um morrote, uma elevação no relevo coberto de vegetação mais baixa. Instantes depois eles voltavam e se atiravam no rio. Depois de algum tempo, Villas-Bôas decidiu perguntar ao pajé o que estava acontecendo.

— Os curumins vão ali atrás fazer xixi — explicou o sacerdote.

Não fez sentido na cabeça do homem branco. Com tanta água no rio, tanto rio na mata, por que não fazer xixi ali mesmo em vez de sair para trás do morro? Foi o que perguntou Orlando ao chefe indígena.

A pergunta caiu como uma pedra n’água.

— Fazer xixi na água? — indagou indignado o pajé. — Isso seria um enorme desrespeito!

Acho que fiquei tão surpreso ao ouvir essa história quanto Orlando deve ter ficado ao vivê-la. Cheguei a sentir a surpresa do palestrante. Quem ama ler e lê muito, como eu, acaba adquirindo a capacidade de se transportar para dentro de histórias lidas ou ouvidas.

Villas-Bôas explicou com essa história à rapaziada do Mackenzie, àqueles que haviam sido convidados pra sua palestra e para mim, o invasor de festa alheia, o profundo sentido de respeito e de sagrado para os indígenas desde a mais tenra idade. Soou pra mim como uma verdade absoluta, algo de extrema lógica ensinado pelas estrelas e pelo próprio sol. A certeza que corre com o vento. Fez todo sentido.

A segunda história que ouvi do famoso explorador foi sobre uma mãe indígena que moldava cuias de barro, enquanto seu filho, um bebê, destruía a produção assim que ela acabava de moldar. Orlando passou muito tempo observando a situação. A mãe fazia uma cuia e a criança amassava. Incomodado, o indianista foi até a mulher e disse:

— Por que a senhora não ensina seu filho a não destroçar as cuias? Assim seu trabalho não será todo perdido.

Ao que a indígena contestou:

— Cada um faz o que sabe. Eu faço as cuias, a criança desfaz.

Índios

Outro baque para mim, talvez mais forte do que foi para o senhor lá no palco quando ele viveu a história que contava. Para ele, já maduro e experiente, naquela fase da vida em que passamos experiências aos menos vividos, o ensinamento da mãe indígena provavelmente reforçava conhecimentos já adquiridos. Para mim, era a primeira vez na vida que papéis rigidamente estabelecidos eram questionados.

Qual o papel da criança livre numa sociedade? Qual o papel da educação? Era a produção um valor universal e inquestionável? O principal motor da sociedade?

Obviamente, esses questionamentos foram amadurecendo e ganhando peso com o tempo. Não sei dizer com exatidão como reagi, internamente, à história ouvida. Sei que nunca me esqueci dela e do momento em que a ouvi. Sinal do quanto foi marcante.

Hoje, maduro e experiente como Orlando Villa-Bôas era quando nossos caminhos se cruzaram, consigo filosofar com esses momentos do meu passado. Posso resignificar pra mim mesmo o que ouvi e o que entendi. Consigo fazer a conexão com outras experiências que vivi e outros livros que li.

O estadunidense Henry David Thoureau (1817-1862), ficou famoso como autor do livro WALDEN: OR LIFE IN THE WOODS, traduzido para o português como WALDEN: OU A VIDA NOS BOSQUES, narra uma experiência de autossuficiência no estado de Massachussetts, nos Estados Unidos. Thoureau construiu uma cabana de madeira à margem de um lago chamado Walden e viveu ali, sozinho e independente, por mais de dois anos. Ele refletiu no período sobre o que é essencial e o que é supérfluo, sobre liberdade, sobre autossuficiência.

Livro Walden - Henry David Thoreau

Mais recentemente, o autor também estadunidense Jon Krakaeur escreveu o best-seller INTO THE WILD, traduzido para o português como NA NATUREZA SELVAGEM, que gerou o muito conhecido filme homônimo, reverenciado por nós aventureiros. Existe uma linha direta entre Sêneca, Marco Aurélio, Thoreau, Villas-Bôas e Krakauer, com diversas estações intermediárias, todas ligando a humanidade com a ideia de autossuficiência.

Filme Na Natureza Selvagem - Into the Wild

Imagino que muitos dos leitores desse meu artigo já assistiram ao filme NA NATUREZA SELVAGEM (https://www.kalapalo.com.br/bibliot/na-natureza-selvagem-o-filme/), lançado em 2007 e dirigido por Sean Penn. Quem não ainda não viu, eu recomendo. Assim como recomendo os livros que citei aqui. No filme (e obviamente no livro) o protagonista foge da sociedade e vai para o Alasca pra viver uma grande aventura. Sua jornada, cruzando os Estados Unidos, é uma grande preparação para a experiência máxima de autossuficiência na “Última Fronteira”, como o estado do Alasca é conhecido nos EUA.

Filme Na Natureza Selvagem - Into the Wild

Não vou dar spoiler.

Esse questionamento sobre autossuficiência, sobre ser totalmente livre e independente, é uma constante na cultura outdoor estadunidense, a começar dos pioneiros, passando por Thoreau, Emerson, Muir e outros. No livro e no filme NA NATUREZA SELVAGEM há várias referências a esses e outros autores. As obras convidam à reflexão.

Faço a minha…

O conceito de autossuficiência, na aventura, não é individualismo (queremos também viver em comunidade), não é sobrevivencialismo (não basta sobreviver, queremos viver plenamente), não é egoísmo (não nos colocamos como mais importantes), não é consumismo (chamamos isso de turismo inconsciente). O que seria então? Penso que está mais relacionado com o profundo respeito à natureza demonstrado pelos curumins da história que Orlando Villas-Bôas contou. Está presente no compromisso de Thoureau, ao abandonar o conforto da vida urbana pela dureza de construir a própria casa e plantar a própria comida. Está vivo nas discussões dos filósofos clássicos gregos quando pregam o potencial humano, realizado apenas em harmonia com o meio natural. Está escancarado na história do protagonista Alexander Supertramp, o anti-herói do livro e do filme NA NATUREZA SELVAGEM, que arrisca tudo, inclusive e especialmente a própria vida, pra viver uma experiência de imersão na natureza de forma integral e harmoniosa. O mergulho definitivo.

Na história da mãe e da criança resolutas, indígenas vivendo plenamente cada um seu papel, sem censura a não ser pelo olhar do homem branco, está posta uma discussão fundamental. Qual o papel do trabalho e da produção da formação de indivíduos saudáveis e integrados socialmente? Integrados inclusive e especialmente com a natureza?

Nossa sociedade, por seu caráter capitalista e produtivista, supervaloriza a função do trabalho. Quando nos apresentamos ou somos apresentados a pessoas, logo informamos ou somos indagamos sobre o que fazemos. Nossas profissões ou trabalhos. O trabalho nos define. Por isso soa tão absurdo que a criança indígena destrua o trabalho da mãe. O bebê destrói a própria mãe.

Na aventura temos a oportunidade de conviver, momentânea e circunstancialmente, com elementos da natureza preservada. Vamos a lugares onde seres humanos não habitam, onde nossa passagem só é permita como visitantes passageiros. Passamos calor e frio, tomamos chuva, viramos nômades,
abandonamos voluntariamente conforto e segurança. Temos a chance de redimensionar nossa existência distantes dos objetos que compõem nossas vidas urbanas. É comum sentir alívio, como se o peso do excesso de bagagem que carregamos caísse por terra. A vida fica mais simples. Nessa simplicidade nos sentimos mais livres, mais independentes e pasmem… Autossuficientes!

No final, penso que brincamos de ser indígenas.

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Guilherme Cavallari

Guilherme Cavallari fundou e dirige a Kalapalo Editora, é autor de 19 livros e coautor de diversos filmes-documentários. Já percorreu, sozinho e de bicicleta, toda a extensão da Serra da Mantiqueira, as serras gaúcha e catarinense, toda a extensão norte-sul da Patagônia e da Terra do Fogo ida e volta e toda a extensão oeste-leste da Mongólia. Em trekking, cruzou as Highlands da Escócia de sul a norte. Além do trabalho como autor e editor, dirige o Refúgio Kalapalo, uma escola de aventura em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira.

Artigos: 4

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