Como fazer a sua própria gestão de risco nas atividades outdoor

A gestão de risco é algo que todos nós fazemos desde que a humanidade existe. É instintivo, tem a ver com sobrevivência e faz parte da nossa natureza. Quando andamos na calçada damos a mão para nossos filhos pequenos para evitar que eles corram para para rua, quando atravessamos uma avenida olhamos para os dois lados e por aí vai. Estamos sempre avaliando nossas ações de acordo com uma análise de risco e claro que para a prática de atividades outdoor isso não pode ser diferente.

Dependendo da atividade e profundidade da análise, a gestão de risco pode ser praticamente uma ciência, com muitas variáveis e um nível de complexidade grande, mas ideia aqui é passar um método simples e rápido para todos conseguirem fazer sua própria análise básica de gestão de risco nas atividades outdoor, tornando isso uma prática acessível que faça parte da rotina de todos os aventureiros.

Gestão de risco aventura em família

Para realizarmos a nossa gestão de risco devemos considerar 3 variáveis: Ambiente, indivíduo e equipamentos.

Ambiente

É o levantamento das características do local ou locais que a atividade será realizada. Como é o terreno, tipo de piso, mata fechada ou não, incidência de sol, clima nesse período, acesso a água, animais peçonhentos, distâncias de hospitais, nível de isolamento, etc.

Gestão de Risco - Informações sobre o ambiente

Indivíduo

São as pessoas que estarão presentes naquela atividade outdoor. Se são crianças, idosos ou adultos e suas características: nível de experiência, capacidade física, restrições físicas, alimentares, alergias, nível de controle emocional, doenças crônicas ou preexistentes, etc.

Os indivíduos na gestão de risco da aventura

Equipamentos

São todos os equipamentos necessários para executar essa atividade e se de fato teremos acesso a eles. Roupas adequadas, proteção ao sol, método para purificar água, abrigo, suprimentos, sistema de dormir (isolantes térmicos e sacos de dormir adequados), faca, pederneira, kit primeiros socorros e etc. Por exemplo, ter um GPS se for um local de navegação difícil; levar um anorak se existe risco de chuva ou ventos fortes; usar uma barraca 4 estações se for um ambiente de montanha mais extremo, etc.

Gestão de Risco - Escolha dos equipamentos adequados

Mas como usar essas informações na gestão de risco?

A gestão de risco será a combinação dos diversos elementos dessas 3 variáveis. E nessa matriz regularemos o nível de exposição ao risco que estamos dispostos a aceitar.

Por exemplo, se na avaliação do Ambiente percebermos que para aquele destino a época é de alta incidências de chuvas e muito frio (como na Carretera Austral entre julho e outubro), avaliaremos que no quesito Equipamentos ter um bom anorak e uma barraca com coluna d’água alta sejam essenciais, porém mesmo assim, existe o risco das pessoas terminarem o dia molhadas, pois até o melhor Anarok tem um limite de chuva que suporta, e estar molhado potencializa muito o risco de hipotermia.

Considerando então a variável Indivíduo, para um adulto saudável e resistente você poderia até achar aceitável essa exposição, mas para bebês, crianças e idosos esse nível de exposição entraria para o inaceitável provavelmente se não existisse nenhum outro equipamento que garantisse 100% de proteção contra chuva.

Frente a isso o que fazer? Analisar novamente as 3 variáveis (Ambiente, indivíduo e equipamentos) e ver aonde poderíamos trabalhar para tornarem os riscos levantados aceitáveis. Talvez ao invés de acampar ficar em um abrigo, procurar formas de levar a criança que fique completamente protegida da chuva e vento (como as mochilas Kid Carriers com capa de chuva), ou olhar para Ambiente e alterar a data da sua atividade.

Normalmente os acidentes acontecem em sobreposições exageradas de exposição ao risco.

Como considerar um risco aceitável ou não?

Gestão de risco na aventura em família

O que é aceitável ou não na gestão de risco é um tema que toca questões pessoais subjetivas e éticas. É muito relativo nos quesitos pessoais, mas nem tanto nos quesitos éticos.

Exemplificando de uma forma mais extrema, para alguns, escalar uma parede de rocha no estilo “solo” sem cordas e equipamentos de segurança pode ser aceitável, pois provavelmente eles tem tanto domínio da capacidade de realizar essa escalada que o risco de queda para eles praticamente não existe. É possível uma rocha se romper, um mal súbito, picada de animais, etc. Porém na gestão de risco desses indivíduos isso também é considerado baixo. Esse é o exemplo de como o critério para avaliação de risco é muito pessoal e pode gerar opiniões bem diversas sobre a gestão de risco de uma mesma atividade.

Quando falamos de critérios relacionados a ética esse é um tema que a principio tem um certo entendimento universal do que é ético ou não.

Por exemplo, o caso famoso do “coach dos Marins” que subiu o pico dos Marins com 50 pessoas inexperientes, na época de chuva, com uma pressão praticamente messiânica de que ninguém poderia desistir. A chance de dar tudo errado era enorme e de fato deu. Eles tiveram que ser resgatados, abandoaram lixo e barracas quebradas na montanha e por um milagre ninguém morreu.

Foi um caso extremo de completo descaso e falta de uma gestão de risco mínima, com muitos elementos acumulados de exposição ao risco. Mas vamos supor que por um milagre também tudo tivesse dado certo. Eticamente seria um caso muito errado de gestão de risco que claramente ultrapassou os critérios subjetivos pessoais.

Conclusão

Ter o costume de fazer a sua própria gestão de risco é extremamente importante, mesmo que você esteja acompanhado de alguém muito experiente (que por si só já é uma forma de diminuir sua exposição ao risco), pois assim você conseguirá avaliar os critérios de exposição que estão sendo aplicados, todos os recursos para manter eles aceitáveis e fazer escolhas conscientes antes e durante a atividade. Ganhe autonomia e seja também responsável pela sua segurança!

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Fernando Barros

Praticante de diversas atividades outdoor como: montanhismo, canoagem oceânica, MTB, mergulho e surf. Fez mais de 140 trilhas com suas filhas pequenas, nas quais muitas elas foram as crianças mais novas a fazerem. Produtor de conteúdo sobre vida outdoor, com blog, canal no Youtube e fundador da agência Cria Outdoor, primeira especializada em montanhismo com crianças.

Artigos: 4

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