Fazer trilhas com crianças pode ser uma atividade muito divertida se você souber como estimular corretamente as crianças durante a preparação e ao longo do percurso. Neste artigo vamos te dar algumas dicas para facilitar esse processo de introdução das crianças nas atividades em ambientes naturais.
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Recentemente o filme Livre (título original: “Wild”), foi disponibilizado na Netflix. Em função da obra ter a PCT como pano de fundo, recebemos diversas mensagens de pessoas que leram nosso livro “Caminho a Dois: uma jornada pela Pacific Crest Trail” ou assistiram o nosso documentário “A trilha” – escolhido melhor filme pelo pessoal da Go Outside no festival Rocky Spirit. O que poucas pessoas sabem é que desde o final daquela experiência nós sonhamos em voltar para alguma trilha de longo curso.
Entretanto, uma pandemia acometeu o mundo e na sequência um pequeno Ser Humaninho ocupou a nossa agenda. Assim, desde o nascimento da nossa filha, em 2020, tempo de natureza entra na categoria de necessidade básica, como alimentação e saúde. Nesse sentido, desde os primeiros meses a nossa pequena é exposta a caminhadas em trilhas. Na verdade, essa experiência tem se mostrado uma rica oportunidade de vivenciarmos ótimos momentos em família além de ser um catalisador do desenvolvimento socioemocional e psicomotor da pequena.
Começamos com trilhas simples, passamos para pequenas travessias e aos poucos fomos ampliando os desafios. Recentemente, vivenciamos uma jornada de mais de 100 km pela Patagônia Argentina que funcionou muito bem graças ao planejamento prévio e à preparação realizada. Isso não significa que foi fácil ou tranquilo. Nossa pequena é uma criança saudável, com pouco mais de 40 meses de vida e a momentos de desregulação emocional (as famosas “birras”) são bem mais comum do que gostaríamos. A seguir, apresentamos o que tem funcionado por aqui para levar a criança para as trilhas vivenciando a experiência da maneira mais agradável possível e criando memórias significativas na família inteira.

Envolva a criança no processo
Livros infantis com histórias de aventuras na natureza, personagens que caminham em trilhas e muitos animais fazem parte da história de nossa pequena desde os primeiros dias. O entusiasmo e o desejo de ir para as trilhas também são constantes nas nossas conversas do cotidiano. Envolver as crianças nessa atmosfera cria estímulos que contribuem com todo o processo. Ao mesmo tempo, levantamos questionamentos dando possibilidade dela fazer opções. “Vamos para uma trilha com cachoeira ou prefere ir pra algum lugar com paisagem bonita?” Esse é um exemplo de abordagem que aparece com frequência por aqui.

Maya experimentando a headlamp “lendo” o livro infantil “Princesas escalam montanhas?”
Estabeleça e comunique objetivos
A maioria das crianças gosta da sensação de conquista. À medida que a idade aumenta, essa característica começa a se fazer mais presente. Procuramos usar essa peculiaridade ao nosso favor e trazemos os destinos para o diálogo com alguma antecedência. Uma estratégia que usamos é explorar fauna e flora por meio de jogos e brincadeiras. Quando estávamos nos organizando para viajar para a Serra da Canastra trouxemos o Lobo Guará para o imaginário e durante a viagem, um dos objetivos que mais ocupou a agenda foi a procura pelo animal.
Dê atenção para a criança
A imaturidade emocional de um cérebro em formação é um dos maiores desafios da parentalidade. Muitas vezes as crianças fantasiam, exageram eventos, dores ou incômodos. Certamente você já viu um espetáculo por causa de um cortezinho no dedo. Entretanto, às vezes não há nada físico para ser tratado, mas a sua criança está demandando sua atenção e seu afeto. Flexibilizar processos e estar atento as demandas infantis tem um potencial absurdo para a construção de memórias significativas.
Contribua com a atmosfera infantil na trilha
A presença de outras crianças faz muita diferença. Convide outras crianças, promova encontros infantis na natureza e estimule as interações. Sorria para as pessoas que encontrar na trilha, incentive sua criança a cumprimentá-las e provavelmente elas retribuirão. Na Argentina, nossa pequena desandou a falar “hola, que tál!?”. A reação das pessoas era um sucesso e os olhinhos dela transbordavam confiança a cada encontro. Outro aspecto muito interessante foi identificá-la brincando por horas com crianças francesas. As mímicas e sorrisos comunicavam melhor que qualquer palavra.
Procure delegar responsabilidades para criança
Não precisa ser nada complexo. Ideias como iluminar o preparo do jantar ou ajudar a encher o isolante inflável quase não impactam na atividade do adulto e contribuem muito para o desenvolvimento da criança. Tudo o que você conseguir fazer para possibilitar que ela se sinta importante será construtivo. Na patagônia a tarefa da nossa pequena era me ajudar a cozinhar. Trocamos muito sobre paciência, a importância de esperar o tempo certo do macarrão cozinhar e o papel da respiração como ferramenta de autorregulação. Foi incrível.

Maya e Bia cruzando uma pequena ponte.
Alinhe expectativa e realidade
Estude o caminho que irá percorrer e construa uma narrativa para construir uma expectativa coerente com o destino. Para além da fauna e da flora, considere as outras possibilidades. Quais desafios interessantes as crianças podem encontrar? Pontes, escaladas, rios ou lagos? É possível coletar gravetos e pedras? Tem algum para entrar na água? Qual o visual esperar? Incluir esses tópicos nas conversas anteriores à experiência podem ajudar a criança a se preparar e também são ótimos aspectos a ser trazido para a conversa nos momentos de “birra”.
Tenha paciência
Um dos principais propósitos de levar criança para a natureza é promover sua exposição aos benefícios do ambiente natural. Isso significa que você está conduzindo um pequeno ser para vivenciar experiências num ambiente não estruturado. A probabilidade do seu Ser Humaninho parar para observar formigas passando é infinita. Diminua o ritmo e relaxe. Se situações de “birra” e pirraça acontecerem, lembre-se que os adultos da relação são os responsáveis pelo equilíbrio. É um desafio enorme, mas é superável. Nesses casos, gosto muito do conceito de Estado Final Desejado (EFD). Costumo pensar assim: após a minha intervenção, o que quero que aconteça, como eu quero que a criança se sinta e como eu quero me sentir. Geralmente, esse método gera boas ações e reações.
Consistência
Os benefícios de levar sua criança para a natureza são inúmeros. Faz bem para saúde, contribui com o desenvolvimento cognitivo, estimula vários aspectos da psicomotricidade, contribui com as habilidades socioemocional, sem falar no tempo de qualidade em família. Quanto mais vezes você levar sua criança para a natureza, melhor será a reação dela. Nesse sentido, tente manter uma regularidade. Explore os espaços naturais perto da sua casa como parques e praças. Visite unidades de conservação, parques estaduais e nacionais. Organize e planeje os tempos de qualidade da família em ambientes naturais. Desse modo, a probabilidade da sua família ser consistente e sua criança apaixonada por trilhas é enorme.

Maya relaxando pendurada num mourão de cerca.
Dicas práticas para fazer trilhas com crianças
São inúmeras variáveis que contribuem para tornar atividades para crianças divertidas. Em termos práticos, destacamos esses cinco aspectos como fundamentais para o sucesso da experiência ao levar crianças para ambientes naturais:
Meteorologia
Quem pratica esportes na natureza sabe que as condições meteorológicas não configuram uma variável fácil de controlar. Considerando que condições adversas podem tornar as experiências muito desconfortáveis, por vezes até perigosas para as crianças, dedique um tempo do planejamento para estudar as possibilidades e preparar-se para eventuais mudanças de cenário.
Vestuário adequado para as trilhas
Tem um ditado escandinavo que diz “não existe tempo ruim, existe roupa inadequada”. Apesar de soar um pouco radical, essa frase explica muito sobre uma premissa que impacta diretamente na qualidade da experiência. Se as necessidades mais básicas da criança estão sendo atendidas, até momentos de mais desafiadores podem render boas memórias e muito aprendizado. No frio, foque em mantê-las secas e aquecidas. No calor, roupas leves e com proteção UV podem ser boas dicas.
Alimentação e da hidratação
Ainda pensando nas necessidades básicas, não economize nos snacks. Melzinho, bananada e frutos secos são sucesso por aqui. Sobre a hidratação, para as crianças menores, levar a garrafinha preferida da criança pode facilitar bastante. Outra dica interessante são as garrafas térmicas. Líquidos quentes, no frio, e geladinhos, no calor, costumam ser mais ingeridos.
Envolva a criança na navegação
Cartas topográficas, mapas e bússolas são ótimos materiais para distrair crianças. Aplicativos de navegação, também tem esse potencial. Ainda que a compreensão seja limitada, à medida que a criança vai entendendo que a realidade está sendo reproduzida e que os adultos estão lendo o caminho, o espaço para a aprendizagem profunda está garantido.

Maya e Edinho traçando o itinerário na carta topográfica.
Ludicidade
Um dos maiores clichês da aventura é que a jornada importa mais do que o destino. Essa regra é ainda mais real para as crianças. Lembre-se disso, principalmente nos momentos desafiadores. Utilize a ludicidade para explorar as oportunidades de interação. Abuse de brincadeiras, jogos e da imaginação. Às vezes, isso não é fácil mas funciona muito por aqui. Uma dica é guardar os versos do Milton Nascimento para usar de mantra: “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração; Toda vez que o adulto fraqueja ele vem pra me dar a mão.”

Maya e Bia brincando de desenho e adivinhação.
Curso Infância Outdoor
A propósito, se você tiver mais interesse sobre esse assunto, no Gear Tips Academy temos o Curso Infância Outdoor, que ensina sobre o que fazer, como planejar e se preparar para as atividades ao ar livre com crianças. Curso ministrado pela Bia Carvalho e Edinho Ramon, autor desse texto.
