O Lado B da Floresta da Tijuca

A Floresta da Tijuca é famosa por seu circuito de trilhas que liga e conecta a cidade do Rio de Janeiro de uma forma única, sendo possível aproveitar as montanhas de diversas maneiras e partindo de diversos pontos do Rio de Janeiro.

Hoje vou falar um pouco sobre um lado que apesar de muito importante é de certa forma esquecido pelos praticantes da corrida de trilha e caminhadas na floresta, estou falando da parte de Santa Teresa, que começa no final da rua Almirante Alexandrino, divisa com Ladeira do Ascurra (uma ótima subida de paralelepípedos) e dá acesso a trilhas que levam até o Cristo Redentor, Paineiras conectando a outras partes do parque.

Santa Teresa e a Floresta da Tijuca
Algumas placas e moradias que podemos ver ao adentrarmos a floresta

É fascinante pensar na história e na conexão ancestral que essa região carrega. Antes mesmo da urbanização e da presença dos europeus, os povos indígenas que habitavam essa área deixaram suas marcas profundas na paisagem.

Os Tupi, incluindo os tupinambás, tupiniquins e temiminós, entre outros grupos, tinham uma relação íntima com essas montanhas e matas. Eles conheciam cada trilha, riacho e árvore, usando essas vias naturais como meio de transporte e obtendo recursos vitais para suas comunidades. Imaginar como eles se moviam com destreza pela Floresta da Tijuca, muito antes de existirem trilhas demarcadas, é uma reflexão que nos conecta ao passado e à nossa própria história como habitantes desta região.

Floresta da Tijuca

À medida que o tempo avançou, a urbanização e a chegada dos europeus transformaram drasticamente essa paisagem. A Floresta da Tijuca passou por um processo de reflorestamento no século XIX, restaurando parte de sua cobertura vegetal original, que havia sido destruída para dar lugar às plantações de café. Hoje, a floresta é um refúgio verde em meio à cidade, proporcionando um ambiente natural para quem busca escapar do ritmo agitado do Rio de Janeiro.

Minha jornada começa no caminho que beira os trilhos do bonde do Corcovado e segue o rio Carioca, nesse primeiro trecho é possível correr de maneira mais solta, sem partes muito técnicas apesar de íngremes.

Trilhos do Corcovado na Floresta da Tijuca

Floresta da Tijuca Rio de Janeiro

Uma das coisas mais fascinantes dessa região é a abundância de água para beber e se banhar, possibilitando uma corrida mais leve e ágil, normalmente levo meu sistema de hidratação vazio e vou enchendo pelo caminho, posso dizer que temos água a cada 5km dentro das trilhas.

Alguns mirantes e construções do século passado nos levam até o alto das Paineiras, lá temos um centro de visitantes e uma loja de conveniência que é possível obter algum suporte e usar de base. Logo adiante temos acesso ao conjunto de trilhas que nos leva ao Corcovado, Cachoeira dos Primatas, Jequitibá, Vista Chinesa e adjacências.

A subida ao Cristo Redentor pela Floresta da Tijuca

Partindo das Paineiras a subida do Corcovado segue por uma trilha batida e bem demarcada, alguns trechos de respiro mas a sensação é de constante subida, é necessário ficar atento nos trechos que corremos pelos dormentes do trilho, pois o bondinho passa com uma certa frequência e precisamos nos espremer no canto.

A parte final da trilha é a mais desafiadora, uma subida bem íngreme sem muitos respiros mas com uma das vistas mais incríveis do Rio, o recém aberto Mirante Cartão Postal da vista para a zona sul, pausa obrigatória para contemplação e fotos, costumo dizer que essa é a trilha do Ombro do Cristo, pois no finalzinho dela, quase no acesso ao cume é possível ver as costas da estátua do corcovado bem de perto.

Ao fim dessa subida chegamos ao cume, lá temos uma vista 360 do Rio, além de uma visão privilegiada para a região serrana, é possível acessar o monumento do Cristo Redentor comprando o ingresso, subindo pela trilha acaba saindo um pouco mais barato, porém se você não quiser pagar infelizmente só verá as costas do Cristo (o que é impactante também, estar tão perto daquela estátua gigante).

De volta às trilhas podemos desfrutar de uma agradável descida que pode render alguns capotes exigindo reflexo e movimentos ágeis na hora da tomada de decisão.

Não consigo pensar muito no estar aqui, além de estar, digo, sei que é comum querer melhorar o tempo em determinada subida, ou ir mais longe conectando diversas trilhas, mas para mim basta estás lá fora, sentindo o ar no rosto, ouvindo os pássaros e contemplando a natureza.

Dentro da minha proposta de corrida de trilha gosto do minimalismo, levar o básico (dentro do que é considerável seguro no esporte), me fascina poder percorrer distâncias inimagináveis com tão pouco equipamento e suprimentos, foi o caso da pochete Deuter Shortrail III (que de short na minha mão não tem nada, hahaha).

Trail Run na Floresta da Tijuca

Tenho escolhido ela para estar comigo nas trilhas pois une leveza com ergonomia perfeita para um longo dia na floresta, seu encaixe abraça a lombar, proporcionando uma corrida bem natural. Gosto da maneira como ela deixa minhas costas respirarem, diminuindo a temperatura corporal, mas uma das coisas que mais me surpreenderam na Shortrail III é a possibilidade de levar os bastões de corrida! Eles encaixam perfeitamente na parte traseira da pochete, tornando ela uma companheira para desafios ainda maiores.

Descendo de maneira alucinante passo pela Figueira Centenária, um pico clássico que fica impossível parar devido a empolgação do trecho super rolado e batido. Inicia-se então um trecho mais técnico se é que podemos dizer, muitas raízes úmidas, jardins de pedra e alguns sobe e desce até chegar na Cachoeira dos Primatas. Agora geograficamente já na zona sul do Rio, esse pico é um clássico que reúne visitantes de todas as regiões, sendo a maioria vindo das outras entradas do parque, que são trilhas mais curtas que levam até ela.

Pessoas de todas as idades costumam estar ali lá é possível se refrescar e encarar a parte mais chatinha se é que podemos dizer, para mim é sempre onde pesa mais o corpo e a mente, saindo dos Primatas rumo ao Jequitibá acumulei mais de 900m de altimetria.

Finalmente saio da trilha e encaro a subida de asfalto rumo a vista Chinesa e Mesa do Imperador, essa transição é uma das minhas favoritas, após passar algumas horas imerso na floresta posso soltar as pernas e voltar a correr de uma forma mais solta e com passadas mais abertas, o único problema é estar na subida da Vista Chinesa, uma das subidas mais agressivas do Rio.

Dali parti com uma breve parada na fonte antes de chegar a Mesa do Imperador, até cogitei dar uma passada na Pedra da Proa mas isso é papo para um outro texto, desci e finalizei esse lindo treino de 25km com 1000m de ganho na rua Jardim Botânico, você pode conferir esse treino através do link no Strava.

Odin Aguiar na Floresta da Tijuca

O intuito desse post é incentivar cada vez mais os moradores do Rio a estarem nas trilhas, essa gestão do parque está fazendo um trabalho muito legal de manejo e preservação das trilhas, temos trilhas para todos os níveis e esportes, desde caminhada a corrida e ciclismo, partindo de várias regiões do Rio.

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Odin Aguiar

Odin Aguiar, um amante das montanhas desde a infância. Sua jornada nas alturas começou com curiosidade e encantamento, explorando trilhas no seu quintal, Floresta da Tijuca.

Com o passar do tempo, o trail run se tornou sua grande paixão, conduzindo-o por trilhas desafiadoras e emocionantes. Superando seus limites, ele participou de ultramaratonas clássicas do Brasil, travessias e peregrinações. Sempre mesclando o endurance com as longas distâncias e os múltiplos esportes (corrida, fastpacking, ciclismo).

Além de sua paixão pelo mundo das montanhas, Odin também é comunicador, filmaker e especialista em pensamento criativo. Sua criatividade o levou a colaborar com marcas renomadas, como Black Diamond, Fila, Alto Estilo Equipamentos e Cuida Caps.

Artigos: 10

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