Luz natural e inteligência artificial nos cliques outdoor

Oi, Gear Tipers!

Sou a fotógrafa Taísa Maar e esse é o Artigo de número 1 da série que se inicia sobre fotografia outdoor! Feito para vocês que amam esportes ao ar livre e os cenários de natureza!

Nossa série conta com aspectos históricos e teóricos da fotografia e conforme formos avançando você vai perceber tudo se encaixando com a prática do clique outdoor. Muito do que aprendi após anos de empenho está disponível aqui para vocês.

Vamos seguir juntos por diferentes estações, trilhas e temporadas! Espero que esses escritos possam te inspirar a explorar os mais variados enquadramentos ao ar livre e criar seus próprios pontos de vista dos lugares que vier a conhecer ou daqueles que já são os seus favoritos!

Para quem vive no Brasil, já sabe que temos a sorte de poder registrar diferentes biomas e topografias! Para quem mora fora ou faz viagens internacionais o novo sempre vem com o potencial de surpreender o olhar! E em quaisquer de nossas atividades na natureza há oportunidades de enquadrar elementos e acontecimentos distintos e inimagináveis que podem compor as nossas galerias fotográficas!

E para fazer os melhores registros é preciso um pouco de dedicação em práticas, leituras e disposição para desbravar! Então vem comigo nessa trajetória de conhecimento e aventura para os olhos!

Nosso primeiro panorama será sobre os primórdios da fotografia. Muitos conceitos podem ser compreendidos ou mesmo (re)formulados quando sabemos a origem do que estamos desvendando ou nos aprofundando. Sem a história a atualidade se descontínua, pois a história constrói sentidos. Os sentidos constroem postulados. E aquilo que é posto como verdadeiro produz relações.

Para além das reflexões que as últimas frases nos provocam, pense: a relação homem e mundo se dá, dentre outras coisas, pela linguagem e a fotografia é uma linguagem, produz sentidos, funciona movimentando mecanismos de expressão para o ser humano no mundo e na história. Baaang! Não frita ainda! Foi só uma pequena dose de teoria para aguçar os sentidos para o que está por vir!

Existe todo um percurso de acontecimentos que vêm desde os esboços da invenção da fotografia até seus variados e atuais aprimoramentos estéticos e tecnológicos. Antes da invenção propriamente datada da fotografia, cientistas já haviam pensado em modos de obter imagens que retratassem o que os olhos viam. Um dos maiores inventores da história, Leonardo da Vinci projetou uma teoria da fotografia sem mesmo saber que mais tarde esta se tornaria uma criação.

No ano de 1787, imagens foram obtidas por um processo que usava uma caixa escura – um aparelho óptico – e folhas de prata sobre uma placa de cobre para fixar a luz que refletia uma reprodução para o fundo da caixa como um espelho. Esse procedimento estava então na base da criação da fotografia, que foi divulgada, no século XIX, como uma invenção. Uma das fotografias mais famosas e tida por muitos autores como a primeira fotografia do mundo foi feita em 1826, pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, a imagem mostrava a vista da janela de seu escritório em Le Gras.

Primeira fotografia do mundo. Fonte: Instituto Moreira Sales
Imagem 1. Primeira fotografia do mundo. Fonte: Instituto Moreira Sales

Voltando do século XVI para o ano de 2023, na atual conjuntura da existência do cosmos, uma das invenções da humanidade é a Inteligência Artificial (IA). O conceito já existe há décadas, mas hoje está sendo exponencialmente aplicado no fomento das tecnologias digitais. E sem usar argumentos pela interdição ou não de seu uso, o que quero é te convidar a pensar o que é a fotografia, como é possível fotografar. A IA é capaz de criar uma fotografia?

Um dos pilares que sustentam o funcionamento da fotografia é retratar o que os olhos veem. Retratar significa reproduzir imagem, representar com exatidão, fotografar. Já o ato de fotografar é definido pelo feito de fixar imagem em material sensível com auxílio da luz, descrever com rigorosa exatidão. E mais, a fotografia escreve algo do que é tido/lido como imagem que foi visualizada pelos olhos.

Cabe aqui, a propósito, a mais conhecida e poética de suas definições: fotografar é escrever com a luz. Vem de sua origem etimológica “foto” (luz) e “graphein” (escrever, gravar). Até os mais avançados dispositivos de câmeras, quando usados para fotografar, guardam os traços e delineados da ação da luz e considerando que esta possui propriedades físicas e é composta de fótons. Nesse sentido, a fotografia não pode ser criada por IA.

Por IA são outros os tipos de criação, não a fotográfica. Por mais que exista a passagem da realidade para o virtual, já que usamos de dispositivos digitais, algo do real se mantém e diz sobre a mecanicidade do aparato fotográfico. Mesmo em fotografias com superproduções, surrealismo e ficção, nuances do real são apreendidas pela especificidade material da luz que é captada pela câmera. A fotografia reflete o real e a IA projeções do ser humano sobre a realidade.

No instante do clique o que a câmera ‘vê’ é fixado em uma superfície sensível à luz física e real, que é convertida em imagem. Já ao usar IA para se criar fotografias o que acontece é a reprodução de efeitos da realidade via mecanismos computacionais que se baseiam no que o aparato da fotografia produz. Para nós que lidamos com o real da natureza, dos fenômenos, da altitude, não há dúvidas que as nossas fotografias outdoor não serão clicadas por IA se forem feitas com câmeras que processam os princípios fotográficos. Já com nossos celulares, devido a gama de aplicativos e mesmo recursos nativos inovadores desses dispositivos a história é diferente, mas isso é assunto para outro artigo.

O que gostaria de deixar destacado é que antes mesmo da fotografia se tornar uma imagem fixada, ela é um processo técnico e a IA uma tecnologia. O processo ocorre relacionado a variadas técnicas e estas podem ser usadas separadamente ou combinadas, vai depender do resultado que se quer para uma fotografia. Posteriormente ao processo, pode-se abrir espaço para a tecnologia e tratando-se do que está associado à Inteligência Artificial, o que esta pode é reproduzir ou retocar o resultado do processo fotográfico.

Entre os princípios de um processo até as criações inesperadas da IA que nos deparamos nos dias de hoje, temos na base da fotografia nosso próximo horizonte.

A luz

A tecnologia transforma a técnica. Nos anos em que estamos, o real e o artificial se misturam, a ponto de nos deixar com interrogações sobre o que é verdadeiro ou montado. Para lidarmos com essa relação na fotografia, é preciso conhecer mais de sua matéria prima: a luz.

Fotografia de um montanhista no Pico dos Marins/SP ao nascer do Sol. Fonte: autoria própria, abril/2015
Imagem 2. Fotografia de um montanhista no Pico dos Marins/SP ao nascer do Sol. Fonte: autoria própria, abr/2015.

Aquilo que a câmera ‘enxerga’ é capturado para dentro dela e transformado em imagem. Tudo começa com o clique que é precedido do ajuste manual ou automático da câmera. O ajuste se dá pelos recursos que regulam a incidência de luz a ser fixada na superfície sensível e interna da câmera. E esse lugar onde se fixa a luz (os fótons) pode ser o sensor, em dispositivos digitais, ou um filme fotográfico para os analógicos. O resultado da captura da luz é uma fotografia.

Figura 1. Entrada da luz até o sensor da câmera
Figura 1. Entrada da luz até o sensor

O filme fixa a luz de maneira característica para o tipo de material de sua confecção, assunto para um livro, mas apesar da fotografia puramente analógica ser belíssima e de uma especificidade única, nosso foco ficará nas câmeras digitais e nos celulares, ou seja, nos dispositivos que possuem sistema com sensor, que é o mais usual. O sensor converte a luz física em sinais elétricos e os processa, calculando um valor de medição da luz e gerando informações que poderão ser processadas automaticamente pela câmera ou configuradas manualmente.

Em nosso habitat natural, o mundo outdoor, o reconhecimento das características da luz é um grande aliado. Em dias de sol, especialmente entre às nove e quinze horas, pode-se notar que a intensidade da luz produz a sombra das árvores e rochas bem definidas e escuras. Quando a luminosidade do dia está assim, temos o conceito da luz dura e seu resultado nas fotografias podem ser de bastante diferença entre os tons claros e escuros da imagem. Para quem gosta de fotografias com contraste, a luz dura pode ser uma boa pedida.

Ao contrário, temos a luz suave, como o próprio nome já nos traduz, sua potência luminosa não é tão forte. Sabe aqueles dias nublado, o crepúsculo da manhã ou da tarde? Enxergamos o estado natural da luz em dispersão. As sombras ficam amenas. Essa luz dá um aspecto cinematográfico à imagem. A fotografia do montanhista no Pico dos Marins foi feita nesse tipo de luz. Sobre ela se sobrepõe uma técnica que é a contraluz. Note que a fonte de luz dessa fotografia é o sol, que está nascendo ao lado direito da imagem e que comparece atrás do montanhista, de forma que podemos ver o contorno dessa pessoa.

Agora, independentemente das condições do céu ou hora do dia, a luz traz a potência de revelar os objetos, formas, texturas e fenômenos da natureza. Além de ser física e real, é integrada às técnicas.

A luz é a essência da fotografia e continuará com a gente por toda a série! No mais, espero que aproveitem além da leitura!

Até a próxima!

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Taísa Maar

Taísa Maar é montanhista desde o ano de 2010, fotógrafa outdoor desde 2014 e embaixadora da marca DEUTER no Brasil. Seus cliques em expedições, travessias e viagens a deixaram especialista nesses assuntos, passou a ministrar então workshops de fotografia mobile, de paisagem e astrofotografia com imersão em montanhas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Atualmente, além de trabalhar com esses cursos, é produtora de conteúdo digital com social media e fotojornalista. Ganhou o prêmio fotográfico MULHERES E MONTANHAS do Clube Alpino Paulista (CAP). Publicou artigos científicos sobre a Fotografia em seus aspectos conceituais. Suas primeiras mostras fotográficas aconteceram nas universidades USP e UNIFEI no ano de 2016 e hoje em dia já conta mais de 10 exposições. Acesse @taisamaar no Instagram para conhecer mais do trabalho da fotógrafa!

Artigos: 15

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