Massa muscular ou reserva de gordura? O que é melhor para altitude?

Se você pratica montanhismo de altitude, já deve ter escutado alguma vez que você tem que conservar uma certa camada de gordura, ou reserva de gordura, para a altitude e lugares frios. E que treinar muito, o que aumenta a massa muscular e diminui a quantidade de gordura corporal, pode ser prejudicial.

Massa muscular ou gordura o que é melhor para altitude?

Essa máxima até pode ser justificada em termos fisiológicos, como no caso de a camada de gordura mais espessa proteger mais do frio, fato observado em culturas indígenas, animais e em testes nos quais indivíduos de composição corporal diferentes foram submetidos a baixas temperaturas imersos em água. Ou, em que atletas que praticam provas de longa duração tem uma capacidade maior de usar gorduras como fonte de energia e com isso tem que trabalhar esse estoque no organismo. Ou ainda, o fato de a gordura ter maior capacidade calórica, 9kcal por grama, em relação ao carboidrato e a proteína, com apenas 4kcal por grama, sendo importante como reserva de energia.

Frio e a gordura corporal

Você já deve estar pensando em cancelar a sua matrícula da academia nesse momento. Mas não faça isso! Na realidade, as justificativas ditas acima não podem ser aplicadas como regras, principalmente quando se trata de montanhismo de altitude na atualidade.

Isso acontece porque, no quesito “gordura como camada protetora”, nós não dependemos mais dela para se proteger do frio, pois criamos roupas tecnológicas o suficiente para suportar temperaturas extremas. Já em relação aos “atletas de longa duração e ao poder calórico da gordura”, o que acontece é que em ambientes com baixa quantidade de oxigênio, o nosso organismo prioriza as vias de produção de energia que vem do carboidrato, porque elas nos fornecem mais energia com menos oxigênio. E mesmo um grande atleta muito treinado necessitaria de algumas semanas de treinos na altitude para o seu organismo conseguir se adaptar e voltar a dar ênfase ao metabolismo da gordura como acontece em regiões mais baixas, tempo esse que raramente existe em uma expedição; lembrando, ainda, que na maioria das expedições não permanecemos na mesma altitude por muito tempo, o que cria uma nova necessidade de adaptação.

Montanhistas

Indo mais além, essa máxima citada ainda pode ser prejudicial para sua expedição. Pois, para aumentar seu estoque de gordura é necessário comer calorias em excesso e diminuir seu gasto calórico. O que resulta em uma dieta não balanceada, aumento do peso e em treinos pouco efetivos, que por fim, vão prejudicar a sua saúde geral, a sua evolução e adaptação muscular.

O aumento da gordura corporal de modo geral é negativo. A alimentação desbalanceada aumenta principalmente a gordura visceral, e ela vem carregada de sinalizadores de inflamação, substâncias que dependendo da saúde da pessoa – pressão alta, tendência a doenças cardíacas, obesidade, sedentarismo, estresse – podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de doenças.

Gordura corporal

E não é somente isso: o aumento da gordura corporal com um treino insuficiente irão aumentar a quantidade de gordura dentro do músculo, o que resulta em uma musculatura menos eficiente. E uma pessoa destreinada tem uma menor capacidade da musculatura se recuperar de sessões de exercício, menor capacidade de controle de temperatura, e maior dificuldade da sua musculatura lidar com as adaptações metabólicas necessárias durante a expedição.

Massa muscular e gordura

Por fim, vale ressaltar aqui, que não estou dizendo que para ir para a altitude a pessoa precisa ser magra, musculosa etc. Mas que a ideia de que é necessário e benéfico desenvolver uma “camada de gordura” para expedições em altitude está errada, e que a preocupação deve ser mais em relação a equipamentos adequados, logística bem planejada, e treinamento correto, sem medo de ganhar massa muscular e diminuir o percentual de gordura. Até porque a perda de massa muscular é muito comum durante as expedições em altitude, e é relacionada a uma piora de desempenho e saúde, o que é altamente prejudicial para o indivíduo e pode dificultar/impedir que a pessoa tenha sucesso na expedição.

Nutricionista
Homero Munaretti

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Homero Munaretti

Homero Munaretti é Nutricionista formado pela USP, Pós graduado em Comportamento Alimentar, Pós Graduando em Nutrição Esportiva, e Técnico em Bioquímica. Montanhista, Escalador e Andinista, com diversas de ascensões em altitude, é um grande conhecedor e estudioso dos esportes em altitude e de longa duração, atuando com destaque na nutrição para esses esportes. Também atua na área de educação alimentar e emagrecimento.

Artigos: 15

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