Me tornei pai. Minhas aventuras acabaram?

Caramba, vou ser pai! E agora? Não vou mais poder continuar fazendo as minhas aventuras???

Pai aventureiro

Talvez essa seja a principal angustia de quem pratica atividades outdoor com intensidade, tem um estilo de vida mais “solto” no mundo e possui o DNA nômade, precisando da sensação da aventura para se sentir vivo.

A vida de fato muda e muito! Muitas coisas você terá que adiar (ou não fará mais), mas não significa que deixará de viver aventuras que realmente te preencham. E não estou dizendo sobre o clichê que a “paternidade é uma grande aventura”, digo de aventuras de verdade na natureza.

Nessa matéria eu vou contar para vocês a minha experiência e aprendizados que tornaram o momento da paternidade a fase que vivi mais aventuras na minha vida!

Ter filhos nunca foi uma prioridade pra mim

Fernando Barros antes da paternidade

Eu sempre fui uma pessoa extremamente ativa (talvez hiperativa…). Ao 10 anos já tinha meu próprio caiaque, aos 15 já cruzava remando sozinho o canal de São Sebastião. Passei a infância viajando para o litoral (talvez venha dai a minha disposição para viajar).

Desde que iniciei a minha vida adulta, segui nesse ritmo e literalmente todos os finais de semanas e feriados eu viaja para conhecer algum lugar novo ou experimentar alguma atividade outdoor. Eu fui a primeira pessoa a trazer para o Brasil (importei da Finlândia) um Kitewing (um tipo de vela inflável usada para velejar com uma prancha), há quase 20 anos. Mas é uma outra estória…

Caiaque - Fernando Barros

Todas as minhas viagens sempre estavam relacionadas com a prática de alguma atividade outdoor. Viajei para quase 50 países, para surfar, mergulhar, praticar montanhismo, pedalar, velejar e etc.

No meu estilo de vida, pensar em ter filhos “logicamente” sempre ficava para depois. Depois de escalar aquelas montanhas, depois de mergulhar naquele naufrágio e por ai vai. E eu coloco a palavra logicamente em aspas pois era um pensamento lógico baseado na visão limitada que eu tinha sobre a paternidade na época.

Me tornando pai

Apesar de acharmos que sabemos o que vem pela frente, como sempre a vida segue nos surpreendendo. Conhecei a Marcela, nos apaixonamos no primeiro instante. Todos os finais de semana viajávamos para praticar alguma atividade outdoor (trekking, remo, surf e etc). Segui na intensidade junto de alguém que estava na mesma vibração. Uns 2 meses depois que nos conhecemos decidimos que faríamos uma volta ao mundo juntos, morando um tempo em cada continente. Nos casamos (fomos no cartório e pronto, simples assim). E algumas semanas depois descobrimos que a Marcela estava grávida! E a princípio partiríamos para essa viagem nos próximos meses.

[um parêntese importante, que vocês devem estar perguntando. E o trabalho? Bom, eu era sócio de uma empresa de Marketing de Incentivo e estava tocando uma startup do grupo, que tinha acabado de praticamente fechar as portas por conta de um sócio investidor gigantesco que não cumpriu os compromissos acordados. Então eu estava em um processo de descobrir novos caminhos e ideias, e a intenção era viver em outros países pelo próximo ano para isso.]

E agora?! Ferrou e nossa viagem de volta ao mundo? e o projeto dos 7 cumes que eu estava cumprindo, e a viagem de carro até o Alasca, e a remada oceânica que eu queria fazer na Indonésia, e o sonho de passar uma temporada no Hawaii, e o mergulho em Raja Ampat, e…. Era uma lista infinita de coisas que na minha cabeça não poderíamos mais fazer. Foi bem aterrorizante

Conexão

Fernando Barros e Marcela Tenório - gravidez

Passado o susto inicial era preciso encarar a realidade, em uns 9 meses teríamos um bebê na nossa vida. (que nasceu literalmente 1 ano após a gente ter se conhecido). Refleti muito… Eu sempre vivi intensamente todas as fases da minha vida e instintivamente assumi que o caminho era fazer a mesma coisa sobre a primeira nova fase que já estava acontecendo: a gestação.

Resolvemos que faríamos uma viagem longa, mas não mais de volta ao mundo sem data para voltar. Faríamos uma viagem de carro pela América do Sul, passando pelo Acre, Peru, descendo até Ushuaia e voltando a tempo da nossa filha nascer no Brasil.

Viagem de carro pela América do Sul

Para mim essa seria uma viagem de CONEXÃO, que eu chamo da primeira conexão importante no processo da paternidade, que é aonde eu quero chegar com esse post.

A primeira conexão

A primeira conexão indispensável para o pai, é com a gestação. Normalmente a ficha tende a “cair” apenas após o nascimento, quando vemos na nossa frente a vida se materializar, mas não precisa ser assim, na real não deve.

Acompanhar de perto a gestação, ir percebendo e vivendo junto da companheira as mudanças físicas, hormonais e emocionais ajudam muito o casal. E principalmente na transição da sua própria vida, que obviamente irá mudar após o nascimento. É muito importante viver essa transição na forma gradual e natural que é o próprio processo da vida se formando e chegando. Vejam como a natureza já dá o caminho. São quase 10 meses para isso

Toque muito na barriga, converse, deixe o bebê acostumar também com a sua voz (pode ter certeza que depois isso irá ajudar ele a também ter conforto no seu colo nas suas tentativas de acalma-lo).

E assim foi comigo. Ficamos meses na estrada, sozinhos e juntos 24hs por dia. Engravidei também praticamente! Tenho certeza que até alterações hormonais eu tive.

Encontramos muitas famílias que viviam de diversas formas: das Cholitas na Bolívia carregando seus filhos pelo Altiplano para todos os lugares que fossem, até famílias que viajavam com seus filhos pequenos de bicicleta, moravam em motorhomes, no frio da Patagônia, no meio da floresta Amazônica e etc.

Ficar longe da nossa vida cotidiana no Brasil, e não ter a influencia das pessoas (que com boa vontade claro) tentariam nos ensinar qual seria a forma “correta” para criar os filhos, foi essencial.

Ao mesmo tempo não ter projetado o sonho de ser pai ao longo da minha vida, também não me fez criar ideias “pré concebidas” de como eu deveria exercer a paternidade. Ideias que sem a gente perceber são marteladas na nossa cabeça do que podemos e dever ser e fazer.

Essa vivencia me preparou muito para a próxima fase que viria. Moldou completamente o meu futuro e o futuro da minha família.

Como eu gostaria de criar minha filha e quais seriam os valores principais que seriam a base cumprir essa missão? Me vi diante da maior empreitada da minha vida. Um senso de responsabilidade de um tamanho que não dá nem para explicar.

A segunda conexão

Aventura em família, pai e filha - Fernando Barros e Gabi

Depois de mais ou menos 30.000km rodados, chegamos no Brasil e a Gabi nasceu. Uma nova fase na minha vida tinha começado. Me tornei pai

Optamos viver o primeiro ano da Gabi em São Paulo, nossa cidade natal, próximo da nossa rede de apoio para tentar em um ambiente que estaria dentro da nossa zona de conforto entender como seria a nossa vida agora com uma filha. Mas foi um certo “baque” a volta para a realidade de uma cidade grande. Eu sentia que não fazia mais parte disso e que não era o nosso caminho como família.

Quando a Gabi completou 1 mês descemos para o litoral e eu fui fazer uma remada solo de circunavegação da Ilhabela de 3 dias. Foi quase um chamado de algo que eu precisava viver para dar os próximos passos.

Gabi durante a volta de caiaque na Ilhabela

Foi uma experiência intensa, física e emocional. Inclusive peguei o maior temporal da minha vida no mar nessa travessia. (tenho um relato dela no meu blog). Longas horas remando sozinho que me levaram para dentro de mim.

Depois dessa experiência tive uma certeza. Quero duas coisas para a criação da minha filha, especialmente para o momento da primeira infância: minha presença, com tempo de qualidade e Natureza.

Queria que a base para o seu desenvolvimento físico, emocional e espiritual fosse o ambiente natural e o convívio intenso com a natureza, estando presente para guiá-la nessa jornada. Mai uma vez percebi que a conexão era essencial para isso. E veio o que chamo do momento de busca da Segunda conexão. Eu precisava me conectar com a Gabi agora, minha filha. A gestação e toda a maravilha que tinha sido aquele momento tinha passado e cumprido sua função.

O Montanhismo como uma ferramenta de conexão

Acampamento selvagem em uma aventura em família.

Percebemos que era preciso ter uma atividade na natureza que poderíamos praticar em família, nos três juntos. Que fosse intensa, nos trouxesse sensação de aventura, fosse desafiadora e que proporcionasse momentos ricos de conexão.

20 dias depois da minha remada na Ilhabela nos estávamos fazendo o primeiro trekking com camping selvagem no topo de uma montanha com a Gabi. Ela tinha 52 dias de vida. Foi uma trilha para a gente entender se era isso mesmo, se essa era a experiência que buscávamos.

E estávamos certos! Tínhamos encontrado o nosso lugar de conexão em família, e também aonde eu seguia me encontrando como indivíduo, porém agora com minha filha ao lado.

Era assim que eu conseguia cumprir meu propósito na criação dela na mais alta potencia. desenvolvimento na natureza com minha presença por completo.

Escolher o montanhismo como parte essencial da nossa vida em família foi tão grandioso que mudou nossos caminhos.

Fernando Barros e Gabi durante um acampamento na Patagônia

Conclusão. Minhas aventuras acabaram?

Não! muito pelo contrário. Desde que a Marcela engravidou até o momento tenho vivido a fase de mais aventuras na minha vida toda! Aventuras também intensas e desafiadoras, fisicamente e emocionalmente. Preencheram completamente a necessidade que tenho e que sei que muitos de vocês tem de realizarem algo grandioso.

Atualmente no ano de 2023 tenho quase 200 dias de trilhas realizadas com as minhas filhas! Com dezenas de travessias, acampamentos selvagens e locais desafiadores.

Sei que um dia vou retomar alguns dos planos de aventuras que tinha antes de ser pai, mas essa vontade não ocupa um lugar de pesar em mim e sim de alegria de que muito ainda está por vir.

Alinhei trabalho com esse estilo de vida, temos uma agência de turismo especializada em montanhismo com crianças a Cria Outdoor, produzo conteúdo sobre vida outdoor e paternidade, tenho e-books, filmes e apoio de marcas do segmento outdoor. Ser pai me deixou imerso mais ainda no lifestyle da aventura, viu só?

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Fernando Barros

Praticante de diversas atividades outdoor como: montanhismo, canoagem oceânica, MTB, mergulho e surf. Fez mais de 140 trilhas com suas filhas pequenas, nas quais muitas elas foram as crianças mais novas a fazerem. Produtor de conteúdo sobre vida outdoor, com blog, canal no Youtube e fundador da agência Cria Outdoor, primeira especializada em montanhismo com crianças.

Artigos: 4

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