Pequeno Dicionário Filosófico de Aventura: Mato
No Brasil quando alguém diz “mato” está se referindo à natureza sem valor, sem utilidade, sem importância. É como se a vegetação que não pode ser comida ou comercializada não valesse nada. Por isso, durante séculos, grandes áreas naturais como a Floresta Amazônica, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Caatinga, foram vistas e tratadas como obstáculos ao nosso desenvolvimento. Pedras no caminho. Uma cultura que, infelizmente, não superamos.

Mato. Foto: Taísa Maar
Nós tivemos no Brasil vários ciclos agrícolas. Momentos históricos em que nossa economia, sempre de vocação extrativista e de monocultura, fica totalmente monotemática e acaba em falência. Ciclo da borracha, ciclo do cacau, ciclo do açúcar, ciclo do café e o atual ciclo da soja e do gado. Todos exemplos de retumbantes fracassos, porque, como se dizia antigamente “não se deve colocar todos os ovos numa única cesta”… A cesta cai e vão-se os ovos!
“Mato” tem conotação pejorativa. O que significa dizer que a própria natureza intocada é negativa. O que implica ainda em dizer que quem vive no mato é inferior, é inculto, é ignorante, não vale nada. Por isso nunca tivemos, até hoje, política indígena que fosse realmente respeitosa e inclusiva. Indígenas são aqueles que vivem no “mato”.
Mas foi exatamente no “mato” que tive algumas das experiências mais reveladoras e transformadoras da vida! Como um dos primeiros acampamentos selvagens e autossuficientes que fiz, quando tinha 16 anos de idade, nos idos de 1978… Outros tempos.
Eu frequentava um clube esportivo no centro de São Paulo, a ACM (Associação Cristã de Moços, a famosa YMCA na versão original, em inglês), onde havia também um grupo de acampamento. Fizemos dois ou três acampamentos em áreas com estrutura de banheiro e refeitório acompanhados de monitores adultos, daí decidimos voar com nossas próprias asas.
Juntamos seis aventureiros. Eu era o segundo mais velho com 16 anos de idade. O mais velho tinha 17 anos e o mais novo tinha 10 anos, acompanhado da irmã mais velha, de 14 anos. Decidimos, não lembro porque, fazer uma travessia a pé de Peruíbe a Iguape pelas praias do litoral sul paulista, cruzando a Juréia — uma praia, na época, completamente vazia e isolada.
Nossas barracas eram grandes bangalôs com estrutura de ferro pesadíssima. Nossas mochilas eram sacos de lona grossa com alças. Ninguém tinha roupa impermeável, usávamos grandes sacos pretos de lixo com buracos pra cabeça e para os braços, amarrados na cintura por um cinto. Quando chovia, ficávamos parecendo um grupo de beatas de luto, os vestidos de alguns chegando na altura dos tornozelos. Um chapéu na cabeça, às vezes de palha, completava o modelito.
Naquela época não havia tanta violência, ou talvez a violência fosse de outra espécie. Não se falava, por exemplo, em sequestro. Todos nós, menores de idade, tínhamos autorizações registradas em cartório que permitia que viajássemos desacompanhados de adultos em ônibus coletivos. Obviamente, a comunicação era precária e dependia de fichas telefônicas, úteis apenas quando encontrávamos um orelhão, um telefone público, que funcionasse. Lembro que informei à minha mãe que iria acampar com amigos no feriado e ela nem sequer perguntou pra onde nós íamos. Realmente, não importava. Pare ela, nós íamos para o “mato” e “mato” é tudo igual.
Era verão, não lembro o mês. Choveu.
Fizemos a travessia, que hoje mesmo calculei no Google Earth como tendo apenas 78 km de extensão, em quatro dias. Erramos no cálculo e levamos comida pra apenas dois dias. Na verdade, não lembro direito como isso aconteceu em detalhes, é possível que tenhamos levado comida suficiente, mas comemos feito glutões no primeiro dia e, quando fizemos o levantamento da dispensa, tínhamos consumido a metade de todo o suprimento depois do primeiro acampamento. Acho, inclusive, que posso ter sido um dos principais responsáveis pela esbórnia da comilança. Aos 16 anos, em fase de crescimento, não tem comida que chegue.
Numa das noites, montamos as barracas num corredor de areia e pedrinhas perpendicular à praia, protegidos do vento pela mata fechada. O terreno era inclinado, mas o solo era confortável e fácil de erguer nossos pesados bangalôs. Era o leito seco de um riacho sazonal. Com a chuva torrencial de verão que caiu à noite, encheu rapidamente. Acordamos com as barracas inundadas por um palmo d’água. Acho que só eu e mais um tínhamos sacos de dormir, forrados de algodão ou estopa. O restante dormia em cobertores. Molhou tudo. Passamos a manhã seguinte tentando secar as tralhas ao sol.
Racionamos a comida pra durar três dias. Num momento de fome extrema, depois de um café da manhã de bolacha salgada e leite condensado, derrubamos uma palmeira pra comer palmito jurema. Crime ambiental inafiançável. Tínhamos um grande facão. Garotos da cidade grande não sabem que palmito deve ser cozido, assado ou grelhado pra consumo. Tentamos comer o troço verde e cru mesmo. Não conseguimos. Além de duro e fibroso, o negócio era amargo e intragável. A pobre árvore foi derrubada em vão.
Num outro episódio de fome consegui caçar um caranguejo na praia. Nós tínhamos um fogareiro de uma boca e um pequeno botijão de gás, além de uma ou duas panelas, não lembro mais. Fervemos água e jogamos o bicho vivo na panela. Alguém tinha dito que era assim que se cozinhava lagosta, que parecia óbvio então que era prima de caranguejo. Terminamos tomando água quente com um pouco de sal onde o caranguejo tomou banho. O prato não chegou nem perto da sopa que havíamos imaginado.
Eu era o cozinheiro porque era o dono do fogareiro e do botijão. Fiz chá preto pra todo mundo usando minha meia, usada, como coador. A lógica era que água fervida mataria qualquer bactéria. Verdade. Mas não tirava o gosto do talco antisséptico que eu usava pra amenizar o chulé. Ninguém reclamou porque não dei detalhes de como havia coado o chá. Comentário apenas que “tinha um gosto estranho”. Um segredo que conto aqui pela primeira vez.
Chegamos em Iguape famintos e fomos direto a um mercadinho, onde compramos todo tipo de lixo que adolescente come — bolos industrializados, bolachas recheadas, refrigerantes, chocolate, balas e afins. Em seguida, fomos comer sanduíches e tomar milkshakes. Guloseimas que visitaram nossos sonhos durante a travessia e restringiram nossas conversas. Não lembro de ter falado de outra coisa além de comida nessa aventura.
Aliás, não chamávamos isso de “aventura”, dizíamos apenas que íamos acampar. Onde? No “mato”.
Essa reminiscência me fez lembrar de um dos melhores filmes que assisti nos últimos anos: CAPITÃO FANTÁSTICO. Sem dar spoiler, trata-se basicamente de um pai que educa seus filhos em contato com a natureza, imersos num claro código de ética, de respeito e de AUTOSSUFICIÊNCIA. O protagonista, o excelente ator estadunidense Viggo Mortensen (que interpretou Aragorn na série de filmes O SENHOR DOS ANÉIS), encarna de forma impressionante esse patriarca quase xamânico que circula pela natureza como se estivesse em casa. Os filhos crescem e amadurecem de uma forma impensável nos padrões urbanos. O pai que eu gostaria de ter tido, o pai que gostaria de ter sido se tivesse filhos, a educação que gostaria de ter vivido, a infância dos sonhos. Tudo a ver com essa aventura adolescente que narrei.

O que mais me tocou nesse filme, lançado em 2016, dirigido e escrito pelo também estadunidense Matt Ross, é a proposta revolucionária e simples de educar em contato com a natureza como alternativa às escolas convencionais. Algo que sempre defendi no que diz respeito à aventura. Se as escolas ensinassem, por exemplo, navegação com carta topográfica e bússola, acampamento selvagem de mínimo impacto ambiental, primeiros-socorros em áreas remotas e outras técnicas de aventura, as crianças e jovens cresceriam menos alienígenas ao ambiente natural, mais responsáveis, mais independentes, mais solidários e menos individualistas. Acredito nisso com todas minhas forças porque experiências como a que contei aqui tiveram resultado semelhante em mim.
Um livro que é tido como infantil, mas que de infantil não tem nada, que aborda esse tema do desenvolvimento humano a partir do contato com a natureza e com o meio natural, é O LIVRO DA SELVA do britânico nascido na Índia Rudyard Kipling. Adaptado para o cinema pela Disney, em 1967, com o título de MOGLI: O MENINO LOBO, a história é conhecida por quase todos. Mas a dinâmica da floresta a partir de seus protagonistas animais na obra original é menos romantizada, menos infantil. Há maldade, egoísmo, crueldade, assim com há lealdade, honra e senso de coletivo. Não existe bem e mal. Existem relações sempre em transformação. Tudo acaba se resumindo em escolher o caminho de menor sofrimento para si e para os outros. Aceitar a natureza como ela é.

Esses exemplos de livro e de filmes apresentam visões distintas de “mato”, sob a ótica de outras culturas, mostrando que o que para nós é considerado sem valor, pode ser a base da civilização para outros.
O “mato” sempre foi uma referência pra mim.
